Rita de Souza Abreu (Maceió, 1876 — Rio de Janeiro, 30 de março de 1956), também conhecida pelo seu pseudônimo Rosália Sandoval, foi uma escritora, poeta, tradutora e educadora brasileira. miniaturadaimagem|Rosália Sandoval em artigo publicado pela revista Heliópolis, em 1915.
Vida pessoal Família Rosália perdeu seus pais ainda cedo em sua vida. Seu pai, o Major Felício de Abreu, condecorado como herói na Guerra do Paraguai, na qual atuou como voluntário, faleceu ainda durante a sua infância, e sua mãe, Epifânia de Pontes Abreu, morreu logo após o nascimento do filho mais novo, Sebastião.
Teve três irmãos: J. Rosalvo de Abreu e Emygdio José de Abreu, com quem não mantinha grande proximidade, e Sebastião de Abreu, o caçula e também poeta, com quem nutria um forte laço afetivo.
A morte prematura de Sebastião, em 1909, vítima de pneumonia, abalou Rosália profundamente e acredita-se que contribuiu para o seu temperamento mais reservado e triste ao longo da vida.
Apesar dos poucos recursos financeiros e posses, sua família lhe deixou um grande apreço pela cultura e pelo campo das letras.
Em 1920, já na maturidade, mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade que à época era a capital brasileira. Longe de sua terra natal, encontrou na escrita, além de seus trabalhos anteriores para a imprensa, a concretização de um desejo. Na cidade, residiu na rua Maxwell, de número 69, casa 3, no bairro de Vila Isabel.
Permaneceu na capital carioca até o fim da vida, sem casar ou ter filhos — condição que gerava incômodo na sociedade conservadora da época, especialmente porque Rosália exercia uma profissão remunerada e tida como honesta.
Educação Em 1905, formou-se como professora pela Escola Normal de Maceió.
Morte Apesar do seu relativo sucesso como escritora, poeta e tradutora, Rosália Sandoval morreu desconhecida. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 80 anos, na Estação São Francisco Xavier. A data, em 1956, correspondia a uma Sexta-feira da Paixão.
Carreira Dedicou sua vida ao magistério, ao jornalismo e à produção literária, atuando tanto na prosa, como também na poesia. Sua escrita, atravessada por empecilhos e julgamentos sociais que a definiam como incapaz de produzir um conteúdo intelectual e artístico pelo motivo de ser uma mulher, abordava temas comuns do seu cotidiano.
A partir da experiência de ensinar pessoas carentes, também produziu livros didáticos.
Diante de um ambiente conservador e hostil, Rosália enfrentou preconceitos especialmente ao se afirmar como escritora. Mesmo com os desafios impostos, conseguiu conquistar seu espaço e sobreviver por meio do próprio trabalho, fazendo da língua sua principal ferramenta. Essas condições influenciaram diretamente sua trajetória e a construção temática de sua obra literária.
O seu maior objetivo era escrever e registrar suas impressões de vida, valorizando a literatura como um ato inerente à condição humana.
Escritos para a imprensa e produção de Alvoradas (1904) miniaturadaimagem|Artigo de Heliopolis: revista de artes e letras, de Recife, sobre Rosália Sandoval, em 1915. Mesmo enfrentando preconceitos por ser mulher mestiça, solteira e pobre, Rosália expandiu seus horizontes e colaborou amplamente com com jornais, revistas literárias e almanaques da sua época, consolidando seu nome na imprensa e, eventualmente, no campo das letras, dividindo seu tempo entre o magistério e a escrita.
Participou de periódicos alagoanos como O Lyrio, O feminista, em 1902, Correio de Alagoas, em 1905 e Alvorada, em 1910. Em 1931, publicou no Diário de Maceió e na Revista de Ensino.
Entre os anos de 1896 e 1904 e de 1907 a 1911, integrou o Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro.
Publicou também em Recife pela A Lira, entre 1903 e 1904, e em periódicos de Viçosa, São Luís e Rio de Janeiro.
No Mato Grosso, escreveu para o A violeta, e, em 1906, colaborou com o jornal cearense A estrela.
Foi, contudo, na imprensa carioca que seus textos alcançaram maior repercussão e fortaleceram o pseudônimo Rosália Sandoval, dentre eles Correio da Manhã, Diário Carioca, Beira-mar e Gazeta de Notícias. Nesse período, publicou sua primeira obra literária, Alvoradas, de 1904, que a tornou conhecida em diversas partes do Brasil.
O Rosal Em 1903, Rosália criou o periódico O Rosal, brincando com o seu próprio nome, e o definiu como “Dedicado à mulher alagoana”.
Publicado duas vezes ao mês, tinha como redatoras Rosália Sandoval e Rita Souza — ambas identidades da própria autora —, sob direção de Themistocles Machado. Embora abordasse temas diversos, deixava transparecer noções de emancipação feminina já nos primeiros anos do século XX.
O Rosal contribuiu para a difusão da escrita de mulheres, dando continuidade às iniciativas de Maria Lúcia Romariz Duarte e Rita de Mendonça, responsáveis pela Revista Alagoana, de 1887, voltada à educação feminina.
Seguiu também o caminho aberto por Maria Anette com O Feminista, de 1889, que reivindicava a emancipação da mulher.
Apesar da breve duração de todos esses jornais, raramente ultrapassando um ano, funcionaram como importantes porta-vozes do movimento emancipatório das mulheres da capital alagoana.
Educadora e produções didáticas Formada como professora primária em 1905, Rosália Sandoval foi nomeada para atuar na rede pública de ensino de Porto de Pedras e União dos Palmares, em Alagoas. Em 1906, assumiu o ensino primário na capital, Maceió e, em 1907, foi transferida para Piquete, atual Ibateguara.
Seus anos de docência são imprecisos, mas sabe-se que também lecionou em colégios particulares, como o Parthenon Alagoano, na capital.
Em 1912, foi diretora e professora do Colégio Auta de Souza e, em 1917, passou a lecionar artes e letras no recém inaugurado Pritaneu Alagoano, ao lado de Anna Sampaio Duarte, filha da escritora e professora alagoana, María Lucia.
Na década 1920, já no Rio de Janeiro, continuou como professora de português e francês, conciliando o magistério com a publicação de suas produções literárias.
Rosália buscava formar leitoras e escritoras, incentivando suas alunas a produzirem textos em uma época em que as mulheres ainda eram subjugadas como intelectualmente inferiores.
Defendia a simplificação dos conteúdos escolares para crianças que precisavam ingressar cedo no mundo do trabalho. Nesse sentido, publicou Através da Infância, em 1918, e Curso Elementar de Português, em 1921, obras que antecedem a criação da Associação Brasileira de Educação (ABE) e o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.
Através da Infância, reúne contos como “A promessa”, “A 'vapor' (um tipo de rua)” e “Os criados”, e a poesia “Minha casa”. Enquanto que o Curso Elementar de Português apresenta os ditados “A mentira”, “Liberdade” e “A renascença”, e o exercício de redação “A fome”.
Seus textos revelam tensões próprias do início do século XX: ora aderem perspectivas religiosas e moralizadoras, ora demonstram sensibilidade à pobreza e às mulheres negras, como em "A 'vapor' (um tipo de rua)". Em "Os criados", critica o tratamento dado aos trabalhadores domésticos; já em "A fome", mostra uma visão conservadora da desigualdade, sugerindo que o trabalho braçal poderia retirar as crianças pobres da miséria. Essa contradição aparece também em Curso Elementar de Português, que propunha conteúdos mais simples para filhos de trabalhadores ingressassem cedo no único tipo de ofício que lhes era acessível à época: o trabalho braçal e, às meninas, o trabalho doméstico.
Apesar dessas ambiguidades, Rosália alinhava-se às concepções modernas de ensino, próximas do escolanovismo, apresentando lições literárias semelhantes às de Anna Facó em “Minha Palmatória”. Colocava-se contra o tradicionalismo, priorizando o bem-estar estudantil e valorizando a dimensão humana do aprendizado.
Suas obras didáticas foram censuradas por Auryno Maciel, educador da Escola Normal de Alagoas, que as classificou como “pobres” diante de outras bibliografias alagoanas da época. Por outro lado, sua literatura recebeu atenção positiva de jornais como o Correio da Manhã desde o lançamento de seu primeiro livro, Alvoradas, de 1904.
Obras literárias Rosália escreveu por quase meio século, com registros datados entre 1899 e 1946.
Transitava por diversos gêneros, explorando prosa, prosa poética, poesia, logogrifos, versos, contos, ensaios, crônicas, fábulas, anedotas, prosa poética intimista, crítica literária, narrativas sobre Lampião, traduções e parte de suas memórias em dois volumes. esquerda|miniaturadaimagem|Retrato de Rosália Sandoval, desenhado em bico de pena, da década de 1890. A literatura lhe ofereceu liberdade em um contexto em que as mulheres eram marginalizadas social e politicamente. Rosália utilizou esse espaço para aprimorar valores, questionar normas e romper convenções. Seus textos, influenciados pela experiência docente, tinham finalidade educativa e muitas vezes eram dedicados às suas alunas. Trazia marcas da sua formação tradicionalista, refletindo elementos religiosos, histórias e lendas próprias do fim do século XIX.
Quando reproduzia discursos patriarcais, explicitava conflitos internos que revelavam desejos diante de temas do cotidiano, como o hábito da leitura e a vida doméstica.
Além de uma coletânea de colaborações em periódicos, publicou um número significativo de livros.
Com Versos Alheios, de 1930, iniciou sua circulação literária por países hispânicos da América do Sul, ampliando seu alcance para o meio internacional ao apresentar obras de literatas renomadas.
Em 1951, organizou e publicou Angelus, obra póstuma do seu irmão Sebastião de Abreu, falecido em 1909.
Versos Alheios Pelo alcance social, segundo o periódico carioca O Jornal, Versos Alheios, de 1930, era um empreendimento que ia além da literatura. Publicado com o seu nome, Rita de Souza Abreu, é uma coletânea poética de três países: Argentina, Chile e Uruguai.
O convite ao leitor brasileiro apresentava a produção intelectual latino-americana com informações e impressões pessoais de Rosália sobre as obras expostas, incluindo autoras como Alfonsina Storni, Gabriela Ministral e Luisa Luisi. Apesar do recorte, não havia intenção de destacar especificamente as vozes femininas desses países.
Ao todo, 116 poemas foram traduzidos para o português, enquanto outros 50 permaneceram em espanhol. Das 166 produções, 22 eram de autoria feminina. E entre os 47 autores, parte era formada por prisioneiros ou pessoas de origem indígena, sujeitos socialmente marginalizados.
A publicação ocorreu quando Sandoval já era conhecida na imprensa nacional, mas a obra a revelou, também, como tradutora e crítica literária. Como resultado, Rosália foi reconhecida como uma “poetisa de reconhecido valor” pelo jornal Beira-mar, no mesmo ano da sua publicação.
Preces à humanidade Dois anos antes do seu falecimento, em 1954, publicou Preces à humanidade, obra que clamava melhorias pela via religiosa. O livro reuniu suas experiências de vida em um tom marcado pela desesperança, escrita quando já se aproximava dos seus 80 anos.
Reconhecimento Pouco antes da sua morte, em 1956, o crítico literário Romeu de Avelar lhe escreveu uma carta em razão da repercussão de seu livro, Versos Alheios, de 1930. O sucesso da obra fez com que fosse incluída como escritora no Dicionário literário brasileiro.
Na mesma carta, Romeu de Avelar também lhe pediu que enviasse alguns outros textos para integrar uma coletiva que estava preparando — e que, em 1970, foi de fato editada e publicada sob o nome de Coletânea de poetas alagoanos.
Embora suas obras não estejam na Academia Alagoana de Letras, sua contribuição literária foi amplamente reconhecida pela sociedade local, como também foi lembrada em um depoimento de Graciliano Ramos para uma entrevista publicada no Jornal de Alagoas em 18 de setembro de 1910.