Um comboio de tempestades ocorreu na Europa desde 22 de janeiro até 8 de fevereiro de 2026, provocado por severas depressões meteorológicas consecutivas no continente, na temporada de tempestades de 2025-2026, afetando vários países, principalmente Portugal, mas também Espanha, França, Itália e o Reino Unido. O mau tempo de tempestades sucessivas atlânticas, resulta num fenómeno conhecido como “comboio de tempestades”.
O "comboio" Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta atingiu em poucos dias Portugal e Espanha, sendo a tempestade Kristin a mais violenta a entrar pelo território português, com a força de um ciclone-bomba e de um fenómeno chamado "sting jet", assim chamado devido à marca em forma de cauda de escorpião que deixa nas imagens de satélite, e explica a violência do temporal. A 30 de janeiro, após a passagem da tempestade Kristin e com os danos deixados pelo cocktail explosivo ainda a serem contabilizados, o IPMA, diz que terá sido a tempestade mais forte desde que há registo em Portugal.
As chuvas torrenciais e nevões resultaram num aumento dramático nos níveis dos rios provocando inundações. As rajadas de vento fortes provocaram a destruição de telhados, queda de infraestruturas e árvores, e na costa ocidental, há registos de grande agitação marítima e ondas entre os 7 e os 14 metros de altura.
A 1 de fevereiro, após o Conselho de Ministros extraordinário, o governo português declarou a situação de calamidade em Portugal até 8 de fevereiro, tendo sido depois prolongada até dia 15.
A 5 de fevereiro, e com a aproximação das Eleições presidenciais portuguesas de 2026, a ocorrer dia 8, e devido à situação de calamidade, alguns concelhos, como Golegã, Arruda dos Vinhos e Alcácer do Sal, solicitaram o adiamento do ato eleitoral nos seus concelhos para a semana seguinte.
A 7 de fevereiro, estavam registadas no '"comboio de tempestades", 16 mortes: uma em Espanha (na tempestade Joseph) e 15 em Portugal (1 na tempestade Ingrid, 11 na Kristin, 2 na Leonardo e 1 na tempestade Marta).
Consequências Portugal No final de janeiro, Portugal foi afetado pelas tempestades Ingrid, Joseph, Kristin seguidas da depressão Leonardo e da depressão Marta, em fevereiro.
Tempestade Ingrid A tempestade Ingrid foi um sistema de depressão atlântica de baixa pressão que afetou Portugal continental em 22 e 23 de janeiro de 2026, provocando condições meteorológicas adversas marcadas por chuva intensa, vento forte, queda de neve em algumas regiões de altitude relativamente baixa e forte agitação marítima. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera emitiu avisos de nível laranja e vermelho para vários distritos devido ao risco associado a chuva persistente, vento muito forte, nevões e ondas de grande altura, e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil colocou grande parte do território em estado de alerta. thumb|240px|Destroços em Leiria, após a passagem da depressão Kristin Durante a passagem da tempestade, registaram-se numerosas ocorrências relacionadas com o mau tempo, incluindo quedas de árvores, inundações, obstrução de vias e danos em infraestruturas. A 24 de janeiro de 2026, no concelho do Cadaval, distrito de Lisboa, um condutor morreu e duas pessoas ficaram feridas depois do veículo em que seguiam ter sido arrastado por um caudal de água durante uma tentativa de travessia de uma zona inundada.
A tempestade Ingrid provocou ainda o desalojamento de várias pessoas em diferentes concelhos devido a inundações e riscos de instabilidade estrutural em habitações, causando também perturbações no trânsito rodoviário e transporte ferroviário, encerramento de escolas e impactos no abastecimento energético em algumas áreas. thumb|240px|Imagem RGB da tempestade Kristin no seu pico, no dia 28 de janeiro de 2026, às 04h40 UTC/GMT
Depressão Kristin A passagem da depressão Kristin, a 28 de janeiro, provocou a morte de pelo menos 6 pessoas em Portugal, com as regiões de Coimbra, Leiria, Oeste, Médio Tejo, Lezíria do Tejo e Beira Beixa a sofrerem grande devastação. As rajadas de vento da depressão chegaram a atingir os 208,8 quilómetros por hora, em Soure, distrito de Coimbra. Em Leiria, a Mata Nacional sofreu grande devastação e o Estádio Municipal, que acolheu o Euro 2004 e acolhe os jogos em casa do União de Leiria, ficou parcialmente destruído. Na Figueira da Foz, a Roda-gigante ficou completamente destruída. Também o Santuário de Fátima sofreu vários danos. Ferreira do Zêzere teve 85% das casas danificadas.
Durante os dias 28, 29 e 30 de janeiro, várias zonas das regiões de Coimbra, Leiria, Oeste e Médio Tejo estiveram sem acesso a eletricidade, água e telecomunicações.
A 31 de janeiro, mais duas mortes foram registadas com relacionamento à passagem da tempestade. Dois homens, um na Batalha e outro em Alcobaça, caíram de telhados, enquanto tentavam fazer a reparação devido aos estragos. Foram, ainda, registados mais de 500 feridos com traumas, com ligação aos trabalhos de reparação após a destruição causada pela depressão Kristin. No dia 1 de fevereiro foi registada outra morte, esta por inalação de monóxido de carbono do gerador que alimentava a sua casa. A 2 de fevereiro, um homem morreu em Porto de Mós após a queda de um telhado que reparava subindo para dez o número de mortes relacionadas com os efeitos da tempestade Kristin.
Danos patrimoniais A passagem da depressão Kristin provocou danos significativos em vários edifícios patrimoniais em Portugal, nomeadamente na região Centro. miniaturadaimagem|Santuário de Nossa Senhora da Encarnação e o seu campanário antes da sua destruição No Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, os estragos concentraram-se sobretudo na cobertura, que ficou destelhada, permitindo a entrada de água no interior do templo. A queda de pináculos de pedra danificou os tetos dos claustros e deixou partes das abóbadas expostas. O vento forte arrancou ainda os relógios exteriores. Foram adotadas medidas provisórias para proteger o interior e manter as celebrações religiosas.
Implantado num dos pontos mais elevados de Leiria, o Santuário de Nossa Senhora da Encarnação sofreu danos avultados, com mais de metade do telhado da igreja a ser arrancado pelo vento. O campanário tombou, perfurando o teto e destruindo o coro alto. Também as áreas envolventes registaram forte destruição, com a queda de numerosas árvores no morro que circunda o templo. As estruturas de apoio foram igualmente afetadas, encontrando-se o salão anexo destelhado e o escadório com danos, comprometendo o acesso ao local.miniaturadaimagem|Charolinha da Mata Nacional dos Sete Montes antes dos danos causados pela tempestade KristinEm Tomar, a tempestade Kristin provocou a queda de numerosas árvores na Mata dos Sete Montes, afetando extensas áreas. A Charolinha, elemento mais emblemático da Mata, ficou quase totalmente destruída na madrugada de 28 de janeiro de 2026, após a queda de um pinheiro de grande porte, restando apenas uma pequena parte da parede cilíndrica da estrutura. Datada do século XVI e atribuída a João de Castilho, esta “casa de fresco” em pedra lavrada, de planta circular e rodeada por um tanque, integrava o conjunto patrimonial associado ao Convento de Cristo.
A tempestade Kristin provocou danos significativos na Tapada Nacional de Mafra, com a queda de dezenas de árvores e a destruição do centenário castanheiro-da-Índia, um emblemático exemplar com idade estimada entre 120 e 150 anos, mandado plantar pelo rei D. Fernando II no século XIX e classificado como árvore de interesse público desde 2000; a base do tronco foi deixada tal como o vento a cortou, existindo a expectativa de que possa ainda regenerar, rebentando em toiça na primavera, caso o tronco ou a raiz mantenham essa capacidade. Para preservar a sua memória genética, foram recolhidas partes do castanheiro para servirem de estacas, permitindo a criação de novos exemplares com o mesmo ADN. A tempestade alterou também a paisagem florestal, com movimentação de solos e acumulação de destroços, o que levou ao encerramento temporário do espaço; apesar dos estragos, a fauna manteve-se estável e os processos naturais de regeneração prosseguiram o seu curso.
Vários museus e monumentos nacionais públicos geridos pela Museus e Monumentos de Portugal foram afetados registando-se danos patrimoniais, nomeadamente ao nível das fachadas e telhados, assim como a queda de árvores, levando ao encerramento temporário ao público. Entre os espaços afetados encontravam-se o Mosteiro da Batalha (queda de pináculos), o Museu Nacional de Conímbriga, o Convento de Cristo em Tomar e o Museu José Malhoa nas Caldas da Rainha (por causa das condições de segurança no Parque D. Carlos I). Os espaços permaneceram encerrados até à conclusão das avaliações técnicas e das intervenções de conservação e manutenção necessárias.
Impacto na rede elétrica A depressão Kristin provocou um dos maiores impactos registados na infraestrutura elétrica em Portugal continental, afetando mais de 5 000 quilómetros de redes de média, alta e muito alta tensão, um fenómeno descrito pela E-REDES como sem paralelo nos seus registos recentes. No distrito de Leiria, cerca de 680 quilómetros de linhas de alta tensão ficaram danificados. Nos cinco distritos mais atingidos, Leiria, Coimbra, Santarém, Castelo Branco e Portalegre, foi necessária a reabilitação de aproximadamente 3 750 quilómetros de rede de média tensão, além de intervenções em 24 subestações e da substituição de centenas de postes partidos ou danificados.
Os trabalhos de reparação concentraram-se na reposição das redes de alta e média tensão na zona centro do país. Foram mobilizadas todas as equipas disponíveis, num total de cerca de 1200 operacionais no terreno, com meios humanos e equipamentos distribuídos pelas áreas mais afetadas. Às 15h de 30 de janeiro, registavam-se cerca de 266 mil clientes sem alimentação elétrica, sobretudo no distrito de Leiria, com aproximadamente 209 mil clientes por abastecer, seguindo-se Santarém e Portalegre, com cerca de 17 mil cada, Coimbra, com 12 mil, e Castelo Branco, com 10 mil.
Para reforço dos trabalhos e mitigação dos danos, a E-REDES mobilizou três centrais móveis, cerca de 250 geradores, bem como drones e helicópteros para o distrito de Leiria, permitindo uma avaliação mais detalhada dos estragos nas infraestruturas. As prioridades incluíram a reposição da rede de alta tensão danificada, a energização das subestações ainda sem alimentação e a reparação dos 46 postes partidos neste nível de tensão. Seguiu-se a resolução das avarias identificadas na rede de média tensão e, sempre que possível, a recuperação da baixa tensão.
A instalação de geradores de apoio em hospitais e outros serviços essenciais, como abastecimento de água, telecomunicações, proteção civil e autoridades, constituiu também uma prioridade. As condições de mobilidade no terreno e a instabilidade atmosférica condicionaram o ritmo dos trabalhos de reparação, sobretudo nas zonas mais afetadas, com particular incidência no distrito de Leiria.
Reações Nacionais No dia 29 de janeiro, o governo português, decreta situação de calamidade até ao dia 1 de fevereiro, para as zonas mais afetadas pela tempestade Kristin. O primeiro-ministro Luís Montenegro esteve de visita aos locais mais atingidos, tendo cancelado a sua agenda de compromissos externos, a Andorra e à Croácia. No dia 1 de fevereiro, após o Conselho de Ministros extraordinário, o governo decidiu prolongar a situação de calamidade até 8 de fevereiro "para enfrentar as situações de adversidade climatérica que ainda temos pela frente".
O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, visitou as zonas afetadas durante os dias 30 e 31 de janeiro. O presidente assumiu que não houve noção exata da dimensão da tragédia provocada pela tempestade Kristin e aponta eletricidade, água e comunicações como as urgências absolutas para as populações.
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