O Governo Café Filho corresponde ao período em que João Fernandes Campos Café Filho exerceu a Presidência da República do Brasil, entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955, após o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Seu mandato foi marcado por forte instabilidade política, mudanças na orientação econômica e pela crise sucessória que antecedeu a posse de Juscelino Kubitschek, em 1956.
Contexto histórico O segundo governo de Getúlio Vargas (1951–1954) atravessava um ambiente de intensa polarização política, com forte oposição da União Democrática Nacional (UDN), setores da imprensa e parcelas das Forças Armadas. A política trabalhista e nacionalista de Vargas, especialmente o aumento do salário mínimo em 1954, agravou os conflitos entre o governo, empresários e a oposição conservadora.
A crise atingiu seu ápice após o Atentado da Rua Tonelero contra Carlos Lacerda em agosto de 1954, envolvendo membros da guarda pessoal do presidente. Pressionado politicamente, Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954, levando o vice-presidente Café Filho a assumir o cargo.
Ascensão à Presidência Café Filho assumiu a Presidência comprometendo-se publicamente com a manutenção da ordem constitucional e com a pacificação política do país. Em seus primeiros discursos, procurou demonstrar respeito à memória de Vargas e reafirmar a importância das instituições democráticas.SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.
Apesar disso, seu governo rapidamente se afastou do projeto político-econômico varguista, adotando uma orientação liberal, sobretudo na área econômica.Fausto Saretta, 2003. "A política econômica no período 1954/1955: algumas notas," Anais do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas [Proceedings of the 5th Brazilian Congress of Economic History and the 6th International Co 061, ABPHE - Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (Brazilian Economic History Society).
Política econômica A principal marca do governo Café Filho foi a adoção de uma política econômica ortodoxa, voltada ao controle da inflação e ao equilíbrio das contas públicas. Para conduzir essa agenda, foi nomeado o economista Eugênio Gudin para o Ministério da Fazenda.Lattanzi, José Renato (2013). «Eugênio Gudin, um liberal entre os liberais». Intellèctus (1). ISSN 1676-7640.
Entre as principais medidas adotadas, destacam-se: Fausto Saretta, 2003. "A política econômica no período 1954/1955: algumas notas," Anais do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas [Proceedings of the 5th Brazilian Congress of Economic History and the 6th International Co 061, ABPHE - Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (Brazilian Economic History Society).
restrição ao crédito e contenção da expansão monetária; redução dos gastos públicos; estímulo à entrada de capitais estrangeiros; contenção de reajustes salariais; tentativa de reorganização do sistema tributário.
miniaturadaimagem|Café Filho em seu gabinete, 1954 Essas políticas buscavam combater a inflação e recuperar a confiança dos investidores, mas provocaram insatisfação entre trabalhadores e setores populares, além de tensionar relações com sindicatos.Fausto Saretta, 2003. "A política econômica no período 1954/1955: algumas notas," Anais do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas [Proceedings of the 5th Brazilian Congress of Economic History and the 6th International Co 061, ABPHE - Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (Brazilian Economic History Society).
Política externa Na política externa, o governo Café Filho reforçou o alinhamento do Brasil aos Estados Unidos, em consonância com a lógica da Guerra Fria. Buscou maior cooperação econômica e financeira com organismos internacionais, defendendo uma postura menos nacionalista em comparação ao governo anterior.
Crise sucessória de 1955
esquerda|miniaturadaimagem|302x302px|Tropas do exército na frente da casa de Café Filho, para garantir o impedimento de sua reocupação do cargo interino de presidente As eleições presidenciais de 1955 elegeram Juscelino Kubitschek para a Presidência e João Goulart para a Vice-Presidência. Setores da oposição e parte das Forças Armadas passaram a questionar a legitimidade do resultado, alegando que Juscelino não havia obtido maioria absoluta dos votos.JK rumo à presidência: Movimento 11 de novembro LAMARÃO, S.T.N. 2009. DHBB da FGV/CPDOC. Acessado em 4/11/2017.
Em novembro de 1955, Café Filho afastou-se do cargo alegando problemas de saúde. O presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, assumiu interinamente, mas foi acusado de conspirar contra a posse dos eleitos.Carlos Luz Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001. Acessado pelo FGV/CPDOC em 04/11/2017. Em resposta, o general Henrique Teixeira Lott liderou o chamado Movimento de 11 de Novembro, que depôs Carlos Luz em defesa da ordem constitucional.
Café Filho tentou reassumir a Presidência após sua recuperação, mas teve seu retorno impedido pelo Congresso Nacional, que declarou seu afastamento definitivo. O presidente do Senado, Nereu Ramos, assumiu interinamente até a posse de Juscelino Kubitschek em janeiro de 1956.Carlos Luz Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001. Acessado pelo FGV/CPDOC em 04/11/2017.
Avaliação e legado O governo Café Filho é geralmente avaliado como um período de transição, marcado por forte instabilidade política e por uma ruptura parcial com o legado varguista. Sua gestão destacou-se pela adoção de políticas econômicas liberais e pelo papel indireto no desfecho da crise institucional de 1955, que acabou por garantir a posse de um presidente eleito e a continuidade do regime democrático naquele momento histórico.SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.
Ver também
Movimento de 11 de Novembro Governo Getúlio Vargas (1951–1954) Governo Juscelino Kubitschek
Categoria:Governo Café Filho Categoria:Década de 1950 no Brasil