Miguel Sátyro e Souza (1808–1869) foi um proprietário rural, oficial da Guarda Nacional e agente político brasileiro do século XIX, com atuação predominante no interior da então Província da Paraíba. Vinculado ao Partido Conservador durante o período imperial, exerceu funções militares, judiciais e administrativas, sobretudo na região de Patos. É também citado em estudos genealógicos como um dos responsáveis pelo estabelecimento inicial da linhagem da família Sátyro na Paraíba, contribuindo para a difusão do sobrenome no estado.
Origem familiar e primeiros anos
Miguel Sátyro e Souza nasceu em 1808, na região da então Vila de Pombal, na Província da Paraíba. Era o primogênito de Aquílio Sátyro e Souza, médico e juiz ordinário, e de Mônica Rodrigues de Santo Agostinho.Nóbrega de Araújo, 2020, p. 37 Sousa, 2022, p. 213 O casal teve ainda como segundo filho Caetano Pedro de Souza.Sousa, 2022, p. 211
A família residia na fazenda Sant’Anna, situada nos arredores de Pombal. Em 26 de agosto de 1818, Miguel Sátyro foi beneficiado por testamento de Manuela do Nascimento, no qual recebeu parcelas das terras da referida fazenda, fato que contribuiu para a constituição inicial de seu patrimônio fundiário.
Casamento
Por volta de 1827, Miguel Sátyro e Souza casou-se com Maria Vieira da Silva, filha do capitão José Raimundo Vieira e de Clemência Gomes de Melo, família originária da região dos Inhamuns, no Ceará.Wanderley, 1994, p. 33 Sátiro, 2018, p. 23 Os sogros residiam em um casarão localizado na fazenda São José, na ribeira do rio Espinharas, área correspondente ao atual município de São José de Espinharas.
Após o casamento, Miguel Sátyro fixou residência na Fazenda São José, enquanto seu irmão Caetano Pedro permaneceu em Pombal. A união reforçou vínculos patrimoniais e políticos entre famílias de destaque regional. Do matrimônio nasceram nove filhos: Aquílio Sátyro de Souza, José Sátyro de Souza, Capitulina Sátyro de Souza, Miguel Sátyro de Souza Júnior, Sizenando Sátyro de Souza, Juvêncio Sátyro de Souza, Manuel Sátyro de Souza, Caetano Pedro de Souza e Joanna Sátyro de Souza.É perceptível uma transição gradual na escrita dos nomes desta linhagem. Enquanto os primeiros integrantes da família utilizavam a forma composta 'Sátyro e Sousa', seus descendentes passaram a adotar predominantemente 'Sátyro de Souza'. Esse processo de mudança seguiu uma dinâmica natural da época, em que a ortografia não era rígida: o sobrenome 'Souza' alternava livremente entre o uso de 's' ou 'z', e o prenome 'Sátyro' passava a ser grafado com 'i' (Sátiro) em alguns ramos da família.
Ao longo das décadas seguintes, ocorreram casamentos consanguíneos entre os filhos de Miguel Sátyro e de seu irmão Caetano Pedro.Cerca de cinco filhos de Miguel Sátyro e Souza casaram-se com cinco filhos de seu irmão, Caetano Pedro e Souza.
Atuação política, militar e administrativa
Com a elevação de Patos à categoria de vila em 1833, foi instalada a Câmara Municipal em 22 de agosto daquele ano. José Raimundo Vieira, sogro de Miguel Sátyro, integrou o Legislativo local como um dos primeiros vereadores, figurando entre as lideranças políticas regionais.Sátiro, 2003, p. 23 Lucena, 2022, p. 72 Sátiro, 2011, p. 15
No mesmo ano, Miguel Sátyro ingressou na Guarda Nacional, integrando a 1.ª Companhia do Termo de Nossa Senhora da Guia de Patos. Em 8 de setembro de 1833, foi eleito escrutinador eleitoral, assumindo a função após aprovação por aclamação.Sátiro, 2003, p. 54
Em 1848, foi nomeado capitão da 1.ª Companhia do Batalhão da Guarda Nacional de Patos, consolidando sua posição no comando militar local.Sátiro, 2003, p. 63 Em 1859, exerceu interinamente o comando do 23.º Batalhão da Guarda Nacional de Patos.Sátiro, 2003, p. 77
Funções judiciais
Além da carreira militar, Miguel Sátyro atuou na esfera judicial do termo de Patos. Em 6 de agosto de 1845, foi indicado como segundo suplente de juiz municipal; seu sogro figurava como terceiro suplente.Sátiro, 2003, p. 61 Em 10 de agosto de 1850, passou a ocupar a posição de quinto suplente do mesmo cargo.
Conflitos com o delegado Antônio Alves da Nóbrega Em 9 de julho de 1857, quando Miguel Sátyro já ocupava a função de suplente de juiz, o Diário de Pernambuco noticiou um conflito entre ele, na condição de juiz, e Antônio Alves da Nóbrega, delegado de polícia no termo de Patos. A notícia concentra-se na correspondência encaminhada por Antônio Alves da Nóbrega ao então chefe de polícia, na qual apresentava justificativas para determinados atos por ele praticados. O teor dessa correspondência chegou ao conhecimento da chefia de polícia por intermédio de Miguel Sátyro, que, além de prestar esclarecimentos sobre a conduta de Antônio Alves da Nóbrega, solicitou sua substituição no cargo, sob a justificativa de que "[...] poria em descanso os infelizes habitantes do termo de Patos[...]". Miguel Sátyro também relatou uma série de episódios atribuídos a Antônio Alves da Nóbrega para fundamentar seu pedido, incluindo ocorrências envolvendo violência.
Na mesma matéria, Antônio Alves da Nóbrega apresentou sua versão dos fatos e acusou Miguel Sátyro de nutrir, havia muito tempo, sentimento de hostilidade contra ele e sua família. Ao final, também o criticou por não ter identificado o responsável pelo assassinato de seu pai, Aquílio Sátyro e Souza.
Atuação partidária
Em 19 de janeiro de 1868, Miguel Sátyro e Souza integrou o corpo de conselheiros da Junta Conservadora instalada em Patos, órgão local vinculado ao Partido Conservador. Também participaram da junta seu filho Sizenando Sátyro e Souza e seu sobrinho Manoel Lúcio Sátyro de Souza.
Morte
Miguel Sátyro e Souza faleceu em sua fazenda no ano de 1869. A notícia de seu falecimento foi publicada no jornal O Cearense, que registrou o óbito de uma das figuras de maior projeção política e social da região de Patos e do sertão paraibano naquele período.
Além de sua atuação em vida, Miguel Sátyro deixou um legado duradouro por meio de sua descendência.
Entre seus descendentes de maior projeção pública destaca-se Ernâni Sátiro, que exerceu os cargos de prefeito de João Pessoa, deputado estadual da Paraíba, deputado federal pela Paraíba, ministro do Superior Tribunal Militar e governador da Paraíba, evidenciando a permanência do protagonismo político da família em diferentes momentos da história republicana brasileira.
Ver também Lista de governadores da Paraíba Política da Paraíba
Notas
Referências
Bibliografia NÓBREGA DE ARAÚJO, Jerdivan. Escravizados e escravizadores da vila de Pombal da Parahyba do Norte: Batistérios, óbitos, inventários e alforrias. 1. ed. Itabuna - Bahia: Mondrongo, 2020. ISBN 978-65-86124-23-1. FERNANDES, Flávio Sátiro. Na rota do tempo: Datas, fatos e curiosidades da história de Patos. João Pessoa: Imprell Editora, 2003. 440 p. SOUSA, Thiago Aécio de. A família Sousa do sertão paraibano: Origens e principais ramos familiares. 5. ed. João Pessoa: Edição do autor, 2022. ISBN 978-65-00-34002-0. FERNANDES, Flávio Sátiro. Ernani Sátyro, Amigo Velho: uma biografia. v. 1. 1. ed. João Pessoa: A União Editora, 2018. ISBN 978-85-8237-163-3. LUCENA, Damião. Patos de todos os tempos: a capital do Sertão da Paraíba. v. 1. 2. ed. João Pessoa: [s. n.], 2022. 1064 p. ISBN 978-65-00-38953-1. WANDERLEY, José Permínio. Retalhos do Sertão. 2. ed. Patos: Fundação Ernani Sátyro, 1994. 104 p. (Biblioteca de História Municipal). FERNANDES, Flávio Sátiro. Ernani Sátyro. Brasília: Edições Câmara, 2011. 783 p. (Série Perfis Parlamentares, n. 61). ISBN 978-85-736-5855-2.
Categoria:Nascidos em 1808 Categoria:Mortos em 1869 Categoria:Naturais de Pombal (Paraíba) Categoria:Patos (Paraíba) Categoria:Membros do Partido Conservador (Brasil)