miniaturadaimagem|Ilustração representando a sala do tribunal durante o julgamento (extraída da revista La Tribuna Illustrata, n. 19, 6 de maio de 1894). O escândalo da Banca Romana veio a público em janeiro de 1893, na Itália, em decorrência da falência da Banca Romana,Italy Has Her Scandal; Ex-Premier Crispi Said To Be Involved, The New York Times, 27 de janeiro de 1893 uma das seis instituições bancárias nacionais então autorizadas a emitir moeda. Este foi o primeiro de uma série de escândalos de corrupção na Itália, desacreditando ministros e parlamentares, particularmente aqueles filiados à Esquerda Histórica, sendo comparável ao escândalo do Canal do Panamá, que na mesma época abalava a França e ameaçava a ordem constitucional.Italy's Financial Scandals; Kingdom startled by the peril of the national finances, The New York Tribune, 12 de fevereiro de 1893 A crise ensejou a formulação de uma nova legislação bancária, comprometeu o prestígio dos primeiros-ministros Francesco Crispi e Giovanni Giolitti e culminou na queda do governo deste último, em novembro de 1893. O episódio também resultou na criação de um banco central unificado, o Banco da Itália.
Antecedentes A Banca Romana foi fundada por investidores franceses e belgas em 1833, sob a jurisdição do Papa Gregório XVI;Pani, Crisis and Reform: The 1893 Demise of Banca Romana outras fontes mencionam o ano de 1835.Sarti, Italy: a reference guide from the Renaissance to the present, pp. 135–36 Após a queda da efêmera República Romana, em 1849, o banco foi renomeado para Banca dello Stato Pontificio em 1850, tornando-se a instituição oficial dos Estados Papais, com o monopólio da emissão de moeda, da captação de depósitos e da concessão de crédito naquele território. Na sequência da anexação dos Estados Papais à Itália, em 1870, o banco retomou sua denominação original, Banca Romana. À época, a Itália não possuía um banco central e, em 1874, a Banca Romana foi designada uma das seis instituições autorizadas pelo governo italiano a emitir moeda.
Em virtude do aumento da inflação e da facilidade de crédito,Seton-Watson, Italy from liberalism to fascism, pp. 154–56 a Banca Romana e os outros cinco bancos de emissão (instituições autorizadas a emitir notas) expandiram continuamente suas circulações fiduciárias. Em 1887, cinco desses bancos já haviam excedido seus limites legais, fato amplamente conhecido pelo governo e nos círculos bancários e financeiros. Contudo, restringir o crédito em meio a um boom especulativo no setor de construção civil era considerado politicamente inviável. Desde o final da década de 1880, a economia italiana mergulhava em profunda recessão. Novas tarifas sobre produtos agrícolas e industriais foram introduzidas em julho de 1887, desencadeando uma guerra comercial com a França que prejudicou severamente o comércio italiano. Numerosos agricultores, especialmente no sul do país, sofreram graves perdas, o que culminou na insurreição dos Fasci Siciliani.Duggan, The Force of Destiny, p. 340 Ademais, o colapso do boom especulativo, alimentado por um vasto programa de reconstrução urbana, danificou gravemente o sistema bancário italiano.Davis, John A., Socialism and the Working Classes in Italy Before 1914 , in Geary, Dick (ed.) (1989), Labour and Socialist Movements in Europe Before 1914, Berg, , p. 188
Sob a direção de Ludovico Guerrini (1870–1881), o banco fora administrado com prudência, mantendo sua circulação de notas dentro dos limites legais. No entanto, seu sucessor no cargo de governador da Banca Romana, Bernardo Tanlongo, era um homem peculiar, semialfabetizado, mas dotado de notável talento para contabilidade e finanças. Tanlongo, il maestro di Calvi e Sindona, Corriere della Sera, 26 de abril de 1993 "Não era mulherengo, nunca jogava, era a antítese de toda elegância; sua frugalidade assemelhava-se à avareza", conforme o descreveu o Corriere della Sera. L'abominevole Tanlongo e il crac della Banca Romana, Corriere della Sera, 8 de fevereiro de 2004 Antigo trabalhador rural e ex-espião durante a República Romana de 1849, Tanlongo construiu sua carreira no banco do Estado Pontifício, proporcionando entretenimento ilícito a funcionários da Santa Sé. Permaneceu em seu posto na Banca Romana após a unificação italiana e foi promovido a governador em 1881. Ao longo dos anos, Tanlongo teceu uma influente rede de contatos por meio de fortes relações pessoais com aristocratas e empresários romanos, maçons e clérigos jesuítas, altos funcionários do governo e industriais, incluindo membros da Família Real. Atuava como seu intermediário em especulações imobiliárias, passando posteriormente a especular por conta própria. Possuía notável habilidade para granjear amizades e proteção, concedendo empréstimos com o intuito de encobrir segredos.
Inspeção governamental miniaturadaimagem|Giovanni Giolitti Em 1889, três bancos de Turim, profundamente envolvidos no financiamento da especulação imobiliária em Roma, suspenderam seus pagamentos. O governo persuadiu os bancos de emissão a socorrerem outras instituições financeiras, visando evitar uma catástrofe de maiores proporções.Clark, Modern Italy, pp. 119–22 Foi-lhes permitido emitir notas em montantes superiores às suas reservas e aos limites legais, na tentativa de evitar uma recessão econômica. No entanto, essa medida acabou por enredá-los ainda mais na crise.
Em junho de 1889, inspeções realizadas na Banca Romana por uma comissão governamental revelaram graves irregularidades em sua administração e contabilidade, constatando que 91% dos ativos do banco eram ilíquidos. Ademais, os diretores da instituição haviam incorrido em ilícito penal ao permitir a impressão de uma quantidade adicional de cédulas com numeração duplicada.Pohl & Freitag, Handbook on the history of European banks, p. 564 A Banca Romana concedera vultosos empréstimos a incorporadoras imobiliárias, mas viu-se com enormes passivos quando a bolha imobiliária ruiu em 1887.Alfredo Gigliobianco e Claire Giordano, Economic Theory and Banking Regulation: The Italian Case (1861–1930s), Quaderni di Storia Economica (Economic History Working Papers), Nr. 5, Novembro de 2010 Um dos relatórios governamentais concluiu:Na Banca Romana, o sistema contábil é deficiente, a criação de notas é anômala, sua emissão é excessiva e parcialmente camuflada, a organização do fundo de reserva geral é confusa, o depósito de cédulas para circulação e recolhimento é insuficientemente protegido, e deve-se esperar novas emissões ilegítimas e ilegais.O Primeiro-Ministro Francesco Crispi e seu Ministro do Tesouro, Giovanni Giolitti, tinham conhecimento do relatório da inspeção governamental de 1889, mas temiam que sua divulgação pudesse abalar a confiança pública e, por isso, suprimiram o documento. Adicionalmente, desejavam evitar que se tornasse de conhecimento público que a Banca Romana, à semelhança de outros bancos, havia concedido empréstimos substanciais a políticos (incluindo a eles próprios), frequentemente sem a cobrança de juros. Tratava-se de uma prática comum para que políticos financiassem suas despesas eleitorais em troca de favores.
Um problema adicional residia no fato de a Banca Romana ser uma empresa privada, com acionistas particulares, mas que desempenhava uma função pública como banco emissor. Consequentemente, vivia em constante tensão entre seu papel público e seu interesse privado de maximizar lucros. A necessidade de um banco único encarregado da emissão de moeda, aliada à redução da circulação de notas, foi objeto de amplo debate nos anos subsequentes. Tanto Crispi quanto seus sucessores, Antonio Di Rudinì e Luigi Luzzatti, preferiram ganhar tempo, em vez de enfrentar as revelações de fraude e o caos político que qualquer tentativa séria de reformar o sistema bancário inevitavelmente desencadearia. Tal estratégia revelou-se um erro trágico.
Erupção do escândalo Giolitti, que ocupou o cargo de primeiro-ministro de maio de 1892 a novembro de 1893, tentou nomear o governador da Banca Romana, Tanlongo, como senador, o que lhe conferiria imunidade processual. Antes, porém, que Giolitti pudesse efetivar a nomeação do ex-governador do banco, o relatório vazou para os deputados Napoleone Colajanni e Lodovico Gavazzi, que divulgaram seu conteúdo no Parlamento no final de 1892. Em 20 de dezembro de 1892, Colajanni leu longos trechos do documento no Parlamento, e Giolitti viu-se obrigado a nomear uma comissão de especialistas para investigar os bancos de emissão. A estreita amizade do Ministro do Tesouro de Giolitti, Bernardino Grimaldi, com Tanlongo, bem como a apresentação de um projeto de lei – endossado por Giolitti e posteriormente retirado – que concederia aos bancos existentes o direito de emitir moeda por mais seis anos, aumentaram as suspeitas de irregularidades.De Grand, The Hunchback's Tailor, pp. 42–44
O relatório da comissão de especialistas, publicado em 18 de janeiro de 1893, confirmou a gravidade da situação na Banca Romana: deficiência de caixa, contas maquiadas, circulação de notas no valor de 135 milhões de liras, em vez dos 75 milhões permitidos por lei, grande volume de créditos de liquidação duvidosa decorrentes da especulação imobiliária e 40 milhões de liras em uma série duplicada de notas que haviam sido impressas na Grã-Bretanha, mas não colocadas em circulação graças à honestidade de funcionários subalternos do banco. Políticos haviam recebido recursos para financiar suas despesas eleitorais e para custear ou subornar jornais. No dia seguinte, Tanlongo, o diretor do banco Cesare Lazzaroni e vários subordinados foram presos,Governor and Cashier Arrested; Large Overissue of Notes by The Banca Romana, The New York Times, 20 de janeiro de 1893 mas acabaram absolvidos pelo Tribunal em 15 de julho de 1894.Tanlongo Not Guilty; Jury Acquits Him of Fraud in Managing the Banca Romana, The New York Times, 29 de julho de 1894 Tanlongo acusou Giolitti de ter recebido dinheiro por intermédio do Diretor-Geral do Tesouro, Carlo Cantoni, do Ministro da Agricultura, Pietro Lacava, e de Grimaldi.De Grand, The Hunchback's Tailor, p. 46
Nova lei bancária e a queda de Giolitti esquerda|miniaturadaimagem|Charge publicada na revista satírica L'Asino (O Burro) em junho de 1893, retratando Giolitti (à direita) e Tanlongo (à esquerda) retirando dinheiro do Fundo de Pensões (em italiano: Cassa Pensioni), representado como um cofre. (L'Asino, 11 de junho de 1893) O escândalo motivou uma nova investigação e acelerou o processo de aprovação de uma nova legislação bancária para solucionar os problemas de liquidez dos bancos italianos. A crise da Banca Romana e o clima de incerteza decorrente da subsequente reforma bancária, em conjunto com a turbulência financeira mundial conhecida como Pânico de 1893, levaram à falência de outros dois importantes bancos comerciais, a Banca Generale e o Credito Mobiliare, juntamente com uma série de bancos menores no final de 1893 e em 1894, afetando as condições econômicas da Itália como um todo.
Giolitti estava bem preparado para lidar com os aspectos técnicos do problema e, embora tardiamente, agiu com energia. Em poucos meses, uma nova Lei Bancária foi introduzida em agosto de 1893, liquidando a Banca Romana e reformando todo o sistema de emissão de notas. Apenas a recentemente criada Banca d'Italia – também encarregado de liquidar a Banca Romana – e dois bancos meridionais (o Banco di Napoli e o Banco di Sicilia) mantiveram a concessão para emitir moeda, agora submetidos a um controle estatal mais rigoroso. Legge n. 449 del 10 agosto 1893