A Onda de tornados no Sul do Brasil de 1959 foi um surto de tornados ocorrido entre os dias 12 e 15 de agosto de 1959 na Região Sul do Brasil. O evento afetou principalmente os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo sendo considerado um dos maiores e mais destrutivos surtos tornádicos já documentados no país e no Hemisfério Sul do planeta.

Ao longo de aproximadamente quatro dias, dezenas de tempestades severas atingiram a região, produzindo tornados, granizo de grande porte, vendavais intensos e chuvas fortes. Diversos municípios registraram destruição significativa em áreas urbanas e rurais, com danos a residências, edificações comerciais, instalações industriais e áreas agrícolas, estima-se a ocorrência de até 90 eventos tornádicos.

Durante décadas, o evento permaneceu parcialmente documentado devido à escassez de registros meteorológicos detalhados, fotografias aéreas e levantamentos técnicos realizados imediatamente após a ocorrência dos fenômenos. Grande parte das informações disponíveis foi preservada por meio de jornais, relatos de testemunhas e documentos históricos produzidos ao longo das décadas seguintes.

Em 2026, um estudo conduzido por um grupo de entusiastas realizou uma ampla reanálise do evento, utilizando registros históricos, fotografias, documentos oficiais e dados de reanálise atmosférica. O trabalho permitiu reconstruir a evolução meteorológica do surto, revisar diversas ocorrências previamente conhecidas e identificar novos eventos associados ao episódio.

Contexto meteorológico

A configuração atmosférica associada ao surto de tornados de agosto de 1959 representa um dos ambientes mais favoráveis ao desenvolvimento de tempestades severas já identificados em reanálises históricas para o Sul do Brasil.

A análise dos campos atmosféricos indica que o evento foi resultado da atuação simultânea de diversos sistemas meteorológicos de grande escala. O principal deles foi um ciclone extratropical que começou a se organizar sobre a Argentina durante os dias que antecederam o surto. À medida que o sistema se intensificava e avançava em direção ao Atlântico Sul, ocorreu um aumento significativo do gradiente de pressão sobre o Sul do Brasil, Uruguai e nordeste da Argentina.

Associada ao ciclone encontrava-se uma frente fria ativa que avançava pela região. O encontro entre o ar quente e úmido presente sobre o Sul do Brasil e o ar mais frio transportado pelo sistema frontal criou uma extensa zona de instabilidade atmosférica, favorecendo o desenvolvimento de tempestades intensas.

Em altos níveis da atmosfera, um intenso jato subtropical atuava sobre o centro-sul da América do Sul. O sistema produzia forte divergência em altitude, favorecendo movimentos ascendentes persistentes e contribuindo para a manutenção de tempestades profundas e organizadas.

Nos baixos níveis da atmosfera, observava-se um intenso transporte de calor e umidade proveniente do norte da Argentina, Paraguai e bacia Amazônica. Esse fluxo, associado ao Jato de Baixos Níveis da América do Sul (SALLJ), aumentou significativamente a disponibilidade de umidade sobre a Região Sul e forneceu energia para o desenvolvimento das tempestades.

Em médios níveis da troposfera, a presença de um cavado atmosférico profundo favoreceu movimentos ascendentes adicionais e aumentou a organização dos sistemas convectivos. A interação entre o cavado, o jato subtropical e o intenso escoamento em baixos níveis criou um ambiente altamente favorável ao desenvolvimento de tempestades supercelulares.

Outro fator importante foi o intenso cisalhamento vertical do vento observado durante o período. As diferenças de velocidade e direção dos ventos entre baixos e altos níveis favoreceram a formação de correntes ascendentes rotativas, permitindo o desenvolvimento de mesociclones e aumentando significativamente o potencial para ocorrência de tornados fortes.

A análise dos campos de umidade também demonstra elevada disponibilidade de ar quente e úmido próximo à superfície, enquanto ar relativamente mais seco avançava em níveis médios da atmosfera. Essa combinação favoreceu o aumento da instabilidade convectiva e intensificou as correntes ascendentes associadas às tempestades mais severas.

Devido à ausência de observações meteorológicas modernas em 1959, diversos parâmetros atualmente utilizados na previsão de tempestades severas não puderam ser calculados diretamente. Dessa forma, a reconstrução meteorológica do evento foi baseada principalmente em dados de reanálise atmosférica, registros climatológicos históricos e documentação disponível sobre os impactos observados. Ciclone Santinho

O Ciclone Santinho foi um dos sistemas meteorológicos mais notáveis registrados na América do Sul em 1959. Atuando de 9 a 16 de agosto, o ciclone afetou uma vasta área do continente, do litoral centro-sul da Argentina até o Sudeste do Brasil. Ele manteve sua circulação ativa por cerca de uma semana antes de se dissipar próximo ao litoral da Bahia. miniaturadaimagem|Trajetória do ciclone Santinho Sua formação ocorreu na Argentina entre 9 e 10 de agosto, quando uma área de baixa pressão começou a se desenvolver devido à interação entre massas de ar de diferentes características e à atuação de sistemas de altos níveis da atmosfera. Nos dias seguintes, o sistema foi se intensificando e se movendo em direção ao Atlântico Sul, expandindo sua influência sobre o Uruguai e o Sul do Brasil.

Apesar de a pressão mínima estimada do ciclone ter permanecido entre 1000 e 1008 hPa, valores relativamente modestos para um ciclone intenso, o Santinho destacou-se por produzir ventos fortes e persistentes. Isso se deveu ao intenso gradiente de pressão atmosférica associado ao sistema. A rápida variação de pressão em curtas distâncias causou uma forte aceleração do ar, resultando em rajadas expressivas em amplas áreas do Cone Sul.

Uma característica interessante do Santinho foi sua natureza híbrida. O sistema apresentava características típicas de ciclones extratropicais, como associação com frentes e contrastes térmicos, mas também exibia elementos de ciclones subtropicais. Entre esses aspectos estavam a organização da atividade convectiva próxima ao centro de circulação, uma estrutura parcialmente simétrica em determinados momentos e a manutenção de ventos intensos mesmo sem pressões excepcionalmente baixas. Essas características tornam o Santinho semelhante, em alguns aspectos, ao ciclone Yakecan de 2022, que também mostrou uma combinação de processos extratropicais e subtropicais durante sua evolução.

Além da circulação ciclônica, o sistema foi responsável pela formação de uma extensa linha de instabilidade. A interação entre o ar quente e úmido vindo das regiões tropicais e o ar mais frio associado ao ciclone criou uma zona favorável ao desenvolvimento de tempestades organizadas. Essa linha de instabilidade se estendeu por centenas de quilômetros, gerando forte atividade elétrica, chuvas intensas e ventos severos em várias áreas da América do Sul.

A dimensão do Santinho também foi incomum. Em seu auge, a circulação do sistema cobria uma área de milhares de quilômetros, afetando diretamente o litoral argentino, o Uruguai e grande parte das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Mesmo após seu enfraquecimento, os remanescentes continuaram sendo identificados ao longo da costa brasileira, movendo-se gradualmente para o norte até se dissiparem próximo ao litoral baiano. Tornados confirmados Não ClassificadoF0F1F2F3F4F5Total~3244340 +16

12 de agosto de 1959 A partir do dia 12 de agosto, a atmosfera começou a se alinhar para que tempestades severas pudessem se formar no Sul do Brasil. O avanço do Ciclone Santinho sobre o Atlântico Sul intensificou o fluxo de ar quente e úmido para a área, ao passo que uma frente fria ligada ao sistema avançava sobre o Rio Grande do Sul. O intenso contraste de temperaturas entre o ar frio que se seguiu à frente e o ar quente que a precedeu gerou uma área de grande instabilidade atmosférica. Ao mesmo tempo, o incremento do cisalhamento vertical do vento ajudou a que as tempestades se organizassem em supercélulas com mesociclones ativos. À tarde e à noite, as primeiras tempestades severas começaram a se formar no Rio Grande do Sul, com foco no Litoral Norte, Noroeste e na Região Metropolitana.

+ Lista de tornados confirmados - 12 de Agosto de 1959F#LocalidadeUFCoord. de inícioHorário (UTC)Distância da trilha (km)Largura máxima (m) F2 Tramandaí e Imbé Rio Grande do Sul 29°58'37.36"S 50°12'28.52"W 17:00 >7,8 km >120 m Tornado de trajetoria curta, se iniciando em Tramandaí e se dissipando em Imbé, sua area de maior intensidade foi na divisa do rio Tramandaí com a cidade de Imbé. Danificou Bananeiras, casas e predios com arremeso de Postes. FU Itapiranga Santa Catarina ~21:00 Se sabe que ocorreu. F2+ Seberi Rio Grande do Sul ~22:00 Tornado confirmado, com pouquissimos danos descritos, se sabe que danificou casas de alvenaria, morreram 3 pessoas e mais de 50 ficaram feridas.

13 de agosto de 1959 No dia 13, o sistema alcançou seu máximo em termos de organização e gravidade. O ciclone intensificou-se, aumentando o gradiente de pressão sobre o Sul do Brasil, e o Jato de Baixos Níveis estava transportando vastas quantidades de calor e umidade para Santa Catarina e Paraná. As análises revelam um cisalhamento muito alto, quase 90 m/s, junto com níveis de instabilidade atmosférica que variam de moderados a elevados. Essa interação resultou em um cenário extremamente propício para o desenvolvimento de tempestades bem estruturadas, granizo de grandes dimensões, ventos fortes e supercélulas persistentes. Uma série de tempestades severas se formou no final da tarde e à noite, tomando conta do Sul do Brasil em um típico surto convectivo de grande escala.