No Recife, a Revolução de 1930 destituiu o governo de Pernambuco, liderado por Estácio Coimbra, e alçou ao poder o líder oposicionista Carlos de Lima Cavalcanti. De 4 a 6 de outubro, legalistas do Exército, Força Pública e irregulares enfrentaram civis organizados por um pequeno número de conspiradores. Ainda antes da chegada de reforços revolucionários da Paraíba, o presidente do Estado abandonou o Palácio do Governo. A campanha revolucionária prosseguiu aos estados vizinhos.

O plano dos revolucionários era de levantes simultâneos em todo o país, incluindo o Recife, principal metrópole portuária do Nordeste. As comunicações telefônicas seriam cortadas e a cidade seria rapidamente dominada pela sublevação da Força Pública, onde conspirava o capitão Muniz de Faria, e da unidade local do Exército, o 21.º Batalhão de Caçadores (21.º BC). Por um erro de comunicação, os levantes no Rio Grande do Sul e Minas Gerais começaram algumas horas mais cedo. O governo pernambucano foi avisado e os militares entraram em prontidão, frustrando o plano. A única tropa dos revolucionários era alguns recrutas de Tiros de Guerra convocados por sargentos conspiradores.

Na madrugada de 4 de outubro os revolucionários apossaram-se do depósito de material bélico do quartel da Soledade e distribuíram os estoques de armamento a centenas de civis — o único levante genuinamente popular daquele momento da Revolução de 1930, segundo o historiador Barbosa Lima Sobrinho. Sob a liderança de Carlos de Lima e alguns poucos oficiais, os revolucionários repeliram todos os ataques. O povo aderia à revolução e os reforços da Paraíba não tardariam a chegar. Ao final do dia, os combates aproximavam-se do quartel do 21.º BC e do Palácio do Governo. As autoridades abandonaram a cidade. Estácio Coimbra ainda cogitou de uma resistência em Barreiros, mas acabou deixando seu estado definitivamente.

No dia 5, chegaram os reforços e os últimos redutos legalistas foram sitiados. Na Casa de Detenção, os prisioneiros foram soltos no dia 6. Morreram João Duarte Dantas e Augusto Caldas, detidos no local desde o assassinato de João Pessoa, em julho. Há versões divergentes sobre um suicídio ou uma vingança. Os combates custaram 38 mortos e 120 feridos, e as residências de representantes do governo deposto foram depredadas. Juarez Távora, chefe militar da revolução no Nordeste, confirmou a posse de Carlos de Lima no governo pernambucano, onde permaneceria até 1937.

Antecedentes O Recife de 1930 miniaturadaimagem|Planta da cidade do Recife em 1906|esquerda A capital pernambucana era uma metrópole portuária voltada à Europa e alimentada pelo interior não só de Pernambuco, mas de toda uma esfera de influência nos estados do Nordeste brasileiro. As estradas de ferro da Zona da Mata e do Agreste convergiam no porto do Recife, terceiro maior em volume no início da República e principal armazém de embarque para Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e partes do Ceará e Piauí. Pernambuco tinha posição dominante na economia nordestina.

Recife tinha população mais de seis vezes superior à do segundo maior município pernambucano e respondia por 60 a 70% da renda estadual. Os jovens mais ambiciosos da elite nordestina estabeleciam-se no Recife para cursar a Faculdade de Direito ou fazer carreira no comércio, jornalismo e atividades correlatas. A sociedade tinha ares cosmopolitas, contrastando com a austeridade do interior, associado ao atraso e selvageria pelos nordestinos urbanos. Muitos governos estrangeiros tinham consulados ou representantes consulares, e as comunidades estrangeiras eram numerosas. Nas repetidas crises políticas, choques de policiais, milicianos, capangas e intervenções federais deram à cidade o apelido de "Recife sangrento".

O crescimento populacional urbano da capital foi de 3,3% entre 1900 e 1960, contra 6,8% de Belo Horizonte e 7% de São Paulo. O Nordeste inteiro declinava em relação ao Centro-Sul no poder demográfico, econômico e político. No destaque nas exportações pelo porto do Recife, o açúcar, a participação pernambucana na produção nacional diminuiu de 41,5% em 1907 para 25,2% em 1937.

Contexto político miniaturadaimagem|Estácio Coimbra não permite aos paraibanos atravessar Pernambuco para combater a Revolta de Princesa (revista Careta) No palco da política interestadual, até os anos 1930 Pernambuco declinaria grandemente de sua posição de prestígio no Império, acompanhando o declínio do Nordeste como um todo. Pernambuco era um estado de relevância média, comparável ao Rio de Janeiro e Bahia, inferior a Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul e mais influente do que as estatísticas dariam a entender. Sua postura era respeitosa em relação ao governo federal e aos estados mais poderosos do Centro-Sul e hegemônica em relação aos vizinhos nordestinos, postulando-se no papel de campeão regional. Entretanto, nos anos 1930 o estado já não conseguia nem mesmo fazer seus interesses prevalecer sobre os vizinhos mais fracos.

O presidente do Estado (governador) em 1930 era Estácio Coimbra, eleito para o quadriênio iniciado em 1926. O clima era de relativa calma. Antes de exercer esse cargo, Estácio foi vice-presidente no governo Artur Bernardes (1922–1926), mantendo uma aparência de poder para o estado na esfera nacional. Na eleição presidencial, Pernambuco, tal como a maioria dos estados, apoiara o candidato situacionista Júlio Prestes, de São Paulo. Perdia a chapa da Aliança Liberal de Getúlio Vargas, presidente do Rio Grande do Sul, e João Pessoa, presidente da Paraíba. Oradores na campanha da Aliança Liberal já aludiam à possibilidade de fazer valer o seu programa de armas na mão, se não fosse possível pelas urnas.

De fevereiro a agosto de 1930, o interior da Paraíba foi conflagrado pela Revolta de Princesa, movimento armado de uma dissidência da política local, liderada pelo coronel José Pereira Lima, contra a administração de João Pessoa. A área da revolta era limítrofe a Pernambuco. Os governos vizinhos da Paraíba, inclusive o de Pernambuco, mobilizaram suas Forças Públicas e fecharam suas fronteiras. Pessoas ligadas ao governo paraibano tinham seus carros revistados na zona limítrofe. Tropas paraibanas não foram autorizadas a passar por Pernambuco para atacar Princesa. Ao mesmo tempo, o governo pernambucano fez vista grossa ao fluxo de recursos ao esforço de guerra dos revoltosos. As primeiras armas a chegar a Princesa eram dos estoques da Força Pública de Pernambuco. O município pernambucano de São José do Egito serviu de quartel-general para José Pereira. Princesa tinha também o apoio de Júlio Prestes e do governo paulista.

Em 26 de julho, João Pessoa foi assassinado no Recife por um adversário na política paraibana, João Dantas. O país inteiro entrou em clima de revolta e Getúlio Vargas acelerou as conspirações. O governo federal concentrou na Paraíba efetivos do Exército, incluindo do 21.º Batalhão de Caçadores (21.º BC), do Recife, e os rebeldes de Princesa baixaram as armas.

Conspiração local

miniaturadaimagem|Carlos de Lima Cavalcanti (esq.) e o capitão Muniz de Faria (dir.)|esquerda|upright=0.8 O comando militar da conspiração revolucionária em todo o Norte e Nordeste foi assumido pelo capitão Juarez Távora. Este delegou a chefia civil do movimento em Pernambuco a Carlos de Lima Cavalcanti, auxiliado por seus irmãos Caio e Rui. Carlos de Lima era ex-parlamentar e diretor dos jornais Diário da Manhã e Diário da Tarde, principais porta-vozes da oposição estadual, pelos quais manifestou-se abertamente em favor da Coluna Prestes, nos anos 1920, e difundiu os ideais da futura revolução por todo o Nordeste. Ele e seu irmão Caio representavam uma ala dissidente dos usineiros pernambucanos.

No campo militar, conspiravam o capitão Muniz de Faria, oficial reformado da Força Pública, e mais alguns graduados daquela corporação; os tenentes Sebastião Mendes de Holanda e Aluísio de Andrade Moura e sargentos Kleber de Morais e José Pessoa, no 21.º BC; e os sargentos Nelson Cavalcanti e Helly Calcanti Gomes Sobrinho, dos Tiros de Guerra. Em 12 de abril, Juarez Távora chegou a Recife e entrou em contato com Carlos e Caio de Lima. Estes, por sua vez, estavam ligados ao governo paraibano.

O plano era uma rápida ocupação militar do Recife, em levantes militares simultâneos no Norte e Nordeste. Pelo plano, o 21.º BC seria levantado pelo tenente Holanda e os sargentos Kleber de Morais e José Pessoa. Em caso de falha, atiradores de três Tiros de Guerra, conduzidos pelos sargentos Nelson e Helly Cavalcanti a um jardim à frente do quartel, atirariam no portão principal para impedir a saída do batalhão. Ao mesmo tempo, grupos armados atacariam o Palácio do Governo, Chefatura de Polícia, jornais e casas de chefes governistas. O capitão Muniz de Faria sublevaria a Força Pública. Os irmãos Lima Cavalcanti inutilizariam a Companhia Telefônica. Para este fim, duas semanas antes do movimento, Caio de Lima visitou a estação a pretexto de uma reportagem para o Diário da Manhã.

Em 2 de outubro o sargento Helly Cavalcanti foi incumbido de levantar os Tiros de Guerra e o 21.º BC. Na residência de Caio Cavalcanti, Carlos de Lima entregou-o armas, munição e lanternas vermelhas. No quartel do 21.º BC, o tenente Aluísio Moura informou ao sargento Helly que o início do movimento seria às 01h00 da madrugada de 4 de outubro. A hora foi repassada aos sargentos Nelson Cavalcanti, Agapito Colares, José Pessoa e Castor Menezes. O tenente Aluísio foi a Campina Grande, na Paraíba, para revoltar a companhia do 21.º BC ali destacada, e o tenente Mendes Holanda, para João Pessoa. O horário de início informado aos conspiradores no Nordeste era na verdade o resultado de um erro de comunicação entre Juarez Távora e Osvaldo Aranha, no Rio Grande do Sul. O movimento revolucionário teve início no Rio Grande do Sul e Minas Gerais às 17h30 de 3 de outubro, eliminando o fator surpresa no Nordeste.

Movimento armado O governo pernambucano foi informado do começo da insurreição no Rio Grande do Sul e Minas Gerais às 17h30 de 3 de outubro. A Força Pública e o Exército entraram em prontidão. Porém, segundo Barbosa Lima Sobrinho, a reação do governo pernambucano foi descoordenada e inepta e "a prontidão que se disse ter havido em Pernambuco é balela". Os revolucionários começaram com poucos recursos e os legalistas poderiam ganhar se tomassem a iniciativa.

O comandante legalista era o general Antenor de Santa Cruz Pereira de Abreu, com seu quartel-general instalado no navio Comandante Capela. A Força Pública era comandada por um oficial do Exército, o coronel Wolmer da Silveira. Esta corporação pouco ultrapassava o efetivo de três mil homens nos anos 1920, a maioria recrutas mal treinados e subnutridos do sertão. As Forças Públicas, que os estados na Primeira República militarizavam para se precaver contra a intervenção federal, não eram expressivas no Nordeste. O 3.º Batalhão da força pernambucana estava em Floresta para o combate ao banditismo e outro batalhão era o que distribuía praças aos destacamentos do interior. Na capital, só se podia contar com o batalhão do Derby e o regimento de cavalaria de João de Barros. A tropa federal era só o 21.º BC, do coronel Negreiros. O comando estava sediado no quartel do Derby.

Execução do plano miniaturadaimagem|O Tiro de Guerra 333 O capitão Muniz de Faria não conseguiu sublevar a Força Pública e tampouco o 21.º BC foi dominado. Os irmãos Lima Cavalcanti conseguiram danificar as instalações da Companhia Telefônica. Depois de verificar que os telefontes estavam mudos, deixaram a estação para escapar da polícia, que já se aproximava.