Donald Trump, 45.º e 47.º presidente dos Estados Unidos, tem um histórico de falas e ações que foram vistas por acadêmicos e pelo público como racistas ou simpáticas à supremacia branca. Jornalistas, amigos, familiares e ex-funcionários o acusaram de alimentar o racismo nos Estados Unidos. Trump repetidamente negou as acusações de racismo.
Em 1973, Trump e sua empresa, a Trump Management, foram processados pelo Departamento de Justiça por discriminação habitacional contra inquilinos afro-americanos; ele resolveu o processo, celebrando um decreto de consentimento para acabar com as práticas sem admitir irregularidades. De 2011 a 2016, Trump foi um dos principais proponentes da teoria da conspiração sobre a cidadania de Barack Obama que alegava falsamente que o presidente Barack Obama não havia nascido nos Estados Unidos. Num caso criminal com conotações raciais, Trump continuou a afirmar, até 2024, que um grupo conhecido como os Cinco do Central Park, composto principalmente por adolescentes afro-americanos, eram os responsáveis pelo estupro de uma mulher branca em 1989 no Caso da corredora do Central Park, apesar de os cinco rapazes terem sido oficialmente exonerados em 2002. Trump lançou sua campanha presidencial de 2016 com um discurso no qual disse que o México envia criminosos para a fronteira: "Eles estão trazendo drogas. Eles estão trazendo crime. Eles são estupradores. E alguns, suponho, são boas pessoas." Durante a campanha, Trump usou os medos dos eleitores brancos da classe trabalhadora e criou a impressão de perigo global de grupos que são considerados como representando um desafio para a nação.
Trump fez comentários após um comício de supremacistas brancos em 2017 em Charlottesville, Virgínia, que foram vistos por críticos como implicando equivalência moral entre os manifestantes supremacistas brancos e aqueles que protestavam contra eles como "pessoas muito boas". Trump excluiu os nacionalistas brancos do comentário de "pessoas muito boas", afirmando que "não estou falando dos neonazistas e dos nacionalistas brancos, porque eles devem ser totalmente condenados". Em 2018, durante uma reunião no Salão Oval sobre reforma da imigração, Trump referiu-se a El Salvador, Haiti e países africanos como "buraco de merda" (shitholes), o que os críticos condenaram como um comentário racista. Em julho de 2019, Trump tuitou sobre quatro congressistas democratas de cor, três das quais eram nascidas nos Estados Unidos: "Por que elas não voltam e ajudam a consertar os lugares totalmente destruídos e infestados pelo crime de onde vieram. Depois voltem e nos mostrem como se faz." Meios de comunicação como The Atlantic criticaram este comentário como um cliclê racista comum. Ele posteriormente negou que seus comentários fossem racistas, dizendo "se alguém tem um problema com o nosso país, se alguém não quer estar no nosso país, deve ir embora."
As declarações controversas de Trump foram condenadas por muitos observadores em todo o mundo, mas foram desculpadas por alguns de seus apoiadores como uma rejeição ao politicamente correto e por outros porque eles próprios nutrem crenças raciais semelhantes. Vários estudos e pesquisas mostraram que o ressentimento racial contribuiu para a ascensão política de Trump e se tornou mais significativo do que fatores econômicos na determinação da lealdade partidária dos eleitores dos EUA. Atitudes racistas e islamofóbicas mostraram ser um poderoso indicador de apoio a Trump.
Antes da presidência
Casos de discriminação habitacional Em 1973, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos processou a Trump Management, Donald Trump e seu pai Fred, por discriminação contra afro-americanos em suas práticas de aluguel.
Testadores da Divisão de Direitos Humanos da Cidade de Nova Iorque descobriram que potenciais inquilinos negros nos edifícios de Trump eram informados de que não havia apartamentos disponíveis, enquanto potenciais inquilinos brancos recebiam ofertas de apartamentos nos mesmos edifícios. Durante a investigação, quatro dos agentes de Trump admitiram usar um código "C" (para "colorido") ou "9" para rotular candidatos negros e afirmaram que foram informados de que sua empresa "desencorajava o aluguel a negros" ou que "não tinham permissão para alugar para inquilinos negros", e que os potenciais inquilinos negros deveriam ser encaminhados para o escritório central, enquanto os inquilinos brancos podiam ter suas candidaturas aceitas no local. Três porteiros testemunharam ter sido instruídos a desencorajar potenciais inquilinos negros mentindo sobre os preços dos aluguéis ou alegando que não havia vagas disponíveis. Um acordo foi alcançado em 1975, no qual Trump concordou em familiarizar-se com a Lei de Habitação Justa, publicar anúncios afirmando que inquilinos negros eram bem-vindos, fornecer uma lista de vagas à Urban League semanalmente e permitir que a Urban League apresentasse candidatos qualificados para 20% das vagas em propriedades que tinham menos de 10% de não-brancos.
Elyse Goldweber, a advogada do Departamento de Justiça encarregada de tomar o depoimento de Trump, afirmou que durante uma pausa para o café Trump disse diretamente a ela: "Sabe, você também não quer morar com eles."
A The Trump Organization foi processada novamente em 1978 por violar os termos do acordo de 1975, continuando a recusar alugar a inquilinos negros; Trump e seu advogado Roy Cohn negaram as acusações. Em 1983, o Metropolitan Action Institute observou que duas propriedades da Trump Village ainda eram mais de 95% brancas.
Caso da corredora do Central Park
Na noite de 19 de abril de 1989, Trisha Meili foi agredida, estuprada e sodomizada no Central Park, em Manhattan. Na noite do ataque, cinco menores — quatro afro-americanos e um de ascendência hispânica — foram detidos em conexão com uma série de ataques no Central Park cometidos por cerca de 30 adolescentes perpetradores. A acusação ignorou as evidências que sugeriam a existência de um único perpetrador cujo DNA não coincidia com o de nenhum dos suspeitos, usando em vez disso confissões que os suspeitos disseram ter sido coagidas e serem falsas. Eles foram condenados em 1990 por júris em dois julgamentos separados, recebendo sentenças que variavam de 5 a 15 anos. Os ataques foram amplamente divulgados na mídia.
Em 1º de maio de 1989, Trump pediu o retorno da pena de morte publicando um anúncio de página inteira em todos os quatro principais jornais da cidade. Ele disse que queria que os "criminosos de todas as idades" acusados de espancar e estuprar uma corredora no Central Park "tivessem medo". Trump disse a Larry King na CNN: "O problema da nossa sociedade é que a vítima não tem absolutamente nenhum direito e o criminoso tem direitos inacreditáveis" e, falando de outro caso em que uma mulher foi estuprada e jogada pela janela, "talvez o ódio seja o que precisamos se quisermos fazer alguma coisa."
Em 2002, um estuprador em série preso confessou o estupro da corredora, o que foi confirmado por evidência de DNA, e as condenações dos cinco homens foram anuladas. Eles processaram a cidade de Nova Iorque em 2003 por abuso de autoridade processual, discriminação racial e danos emocionais. Os advogados dos cinco réus disseram que o anúncio de Trump inflamou a opinião pública. A cidade resolveu o caso por US$ 41 milhões em 2014. Em junho daquele ano, Trump chamou o acordo de "uma vergonha" e disse que a culpa do grupo ainda era provável: "Resolver não significa inocência. [...] Esses jovens não têm exatamente um passado de anjos."
Em outubro de 2016, quando Trump fazia campanha para ser presidente, ele disse que os Cinco do Central Park eram culpados e que suas condenações nunca deveriam ter sido anuladas, atraindo críticas dos próprios Cinco do Central Park e de outros. O senador republicano John McCain retirou seu apoio a Trump, citando em parte "declarações ultrajantes sobre os homens inocentes no caso dos Cinco do Central Park." Yusuf Salaam, um dos cinco réus, disse que confessou falsamente sob coação, depois de ter sido maltratado pela polícia enquanto estava sob custódia. O cineasta Ken Burns, que dirigiu o documentário The Central Park Five que ajudou a limpar os nomes dos acusados, chamou os comentários de Trump de "o auge da vulgaridade" e "racismo declarado".
Em junho de 2019, em resposta ao documentário de Ken Burns e à minissérie da Netflix When They See Us, Trump manteve suas declarações anteriores, dizendo: "Há pessoas de ambos os lados nisso. Eles admitiram sua culpa. Se você olhar para Linda Fairstein e se olhar para alguns dos promotores, eles acham que a cidade nunca deveria ter resolvido aquele caso. Então vamos deixar por isso mesmo."
Profissionais negros Em uma entrevista de 1989 a Bryant Gumbel, Trump declarou: "Um negro bem-educado tem uma vantagem tremenda sobre um branco bem-educado em termos de mercado de trabalho." A revista Fortune reportou que a declaração de Trump não foi confirmada por estudos de evidências factuais sobre o impacto da raça de um candidato em suas perspectivas de emprego.
Em seu livro de 1991, Trumped!, John O'Donnell citou Trump dizendo supostamente:
Eu tenho contadores negros no Trump Castle e no Trump Plaza. Negros contando meu dinheiro! Eu odeio isso. O único tipo de pessoa que quero contando meu dinheiro são caras baixos usando quipás.... Esses são os únicos tipos de pessoa que quero contando meu dinheiro. Ninguém mais... Além disso, tenho que lhe dizer mais uma coisa. Acho que o cara é preguiçoso. E provavelmente não é culpa dele, porque a preguiça é uma característica dos negros.
Trump disse à revista Playboy em uma entrevista publicada em 1997: "As coisas que O'Donnell escreveu sobre mim são provavelmente verdade." Dois anos depois, ao buscar a indicação do Partido Reformista para presidente, Trump negou ter feito a declaração.
Indústria de cassinos nativos americanos Durante o início da década de 1990, a concorrência de uma indústria de cassinos nativos americanos em expansão ameaçou seus investimentos em Atlantic City. Durante este período, Trump afirmou que "ninguém gosta de índios tanto quanto Donald Trump", mas depois alegou, sem provas, que a máfia havia se infiltrado nos cassinos nativos americanos, que não havia como "índios" ou um "chefe indígena" resistirem à máfia, insinuou que os cassinos não eram de fato propriedade de nativos americanos com base na aparência dos proprietários, e retratou os nativos americanos como gananciosos.
Em 2000, Trump e seus associados foram multados em US$ 250.000 (equivalente a cerca de US$ 410.000 em 2023) e pediram desculpas publicamente por não terem revelado que financiaram anúncios criticando a proposta de construção de mais cassinos nativos americanos nas Montanhas Catskill, que aludiam a índios Mohawk usando cocaína e trazendo violência, perguntando: "São esses os novos vizinhos que queremos?" Os anúncios, que afirmavam ser financiados por doadores "de base, pró-família", foram na verdade concebidos por Roger Stone, enquanto Trump aprovou e financiou o empreendimento de um milhão de dólares.