miniaturadaimagem|Tornado em Rio das Pedras (2025) Este artigo documenta tornados e ondas de tornados no estado brasileiro de São Paulo desde o início dos registros oficiais. Os registros antigos são subestimados devido à escassez de dados.
Atualmente, os registros são catalogados pela Plataforma de Registros de Tempo Severo (PRETS), integrado à "Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas (PREVOTS) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que também engloba a Rede Voluntária de Observadores de Tempestades (REVOT). O Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas da Universidade Estadual de Campinas (CEPAGRI/UNICAMP) e o Instituto de Pesquisas Meteorológicas da Universidade Estadual Paulista (IPMET/UNESP) realizaram investigações em eventos passados, enquanto o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE) possui foco no Vale do Paraíba.
Dinâmica e frequência esquerda|miniaturadaimagem|Supercélula registrada ao sul de Piracicaba durante a onda de tornados de 22 de setembro de 2025 São Paulo, especificamente o centro-leste estadual, está situado em uma das áreas de maior atividade de convecção profunda da América do Sul. A posição geográfica estratégica, a influência da brisa marítima (frente de brisa marítima) e frentes frias, a topografia da Depressão Periférica Paulista, a abundância de corpos hídricos naturais e artificiais, a alta baroclinia entre massas de ar e formação frequente de Jatos de Baixos Níveis (JBN) favorece a ocorrência de tempestades severas, muitas majoritariamente se tornando supercélulas, embora nem todas as tempestades supercelulares da região alcancem patamares severos.
A área entre o Médio Tietê e a Região Metropolitana de Piracicaba (RMP), especialmente Capivari e arredores, frequentemente encontra condições propensas ao desenvolvimento de supercélulas, downbursts severos, Complexos Convectivos de Mesoescala (CCM) e ocasionais tornados. De acordo com a base de dados climática da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), alimentada pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), o município de Piracicaba, situada nessa região, se destaca pela alta frequência de chuvas de granizo e rajadas de vento severas (>90 km/h), com uma taxa de recorrência de ventos acima de 100 km/h estimada em cerca de um evento a cada três anos, enquanto chuvas de granizo frequentemente possuem mais de três registros anuais.
A tese de doutorado de Daniel Henrique Candido (2012) aponta alta frequência anual de eventos (>30%) na Depressão Periférica Paulista. Áreas com alta recorrência histórica compreendem o Médio Tietê, a RMP, a Região Metropolitana de Campinas (RMC), o Vale do Paraíba e a Baixada Santista. O Vale do Ribeira, embora possua uma alta probabilidade de ocorrência anual na tese de Candido (>25%), não possui tantos registros históricos acumulados, em parte devido ao baixo povoamento da região. Municípios com alta recorrência histórica (≥5 eventos catalogados na lista) incluem Campinas (6), Piracicaba (6), Capivari (5), Ribeirão Preto (5), a capital São Paulo (5). miniaturadaimagem|Tornado F3 em Indaiatuba (2005) Devido às complexas circulações e perturbações atmosféricas causadas pela interação entre a brisa marítima, a Serra do Mar, o Planalto Ocidental e o ar quente acumulado na Depressão Periférica, muitas supercélulas do centro-leste paulista conseguem se desenvolver a partir de influências mesoescalares, sendo essas frequentemente do tipo mini-supercélula (escala reduzida) ou supercélula marginal (mesociclone curto e desorganizado). Esse potencial, embora comum regionalmente e já simulado no trabalho de Candido como capaz de gerar tornados de menor intensidade, é frequentemente subestimado, em parte porque esse tipo de tornadogênese apresenta recorrência relativamente mais concentrada na região da Depressão Periférica (centro-leste do Paraná e de São Paulo) em comparação com outras áreas do Brasil, o que diminui o seu reconhecimento em escala nacional.
Essa subestimação é amplificada, pois a alta umidade na base desses sistemas pode favorecer o surgimento de scud clouds (nuvens-escudo) persistentes no inflow da supercélula, que, devido à força centrípeta causada pela queda de pressão atmosférica no núcleo do tornado, orbitam e obstruem o funil principal, gerando confusões na classificação. Somado a isso, as ferramentas de previsão enfrentam dificuldades para detectar forçantes mesoescalares, como o avanço da brisa marítima e de Sistemas Convectivos de Mesoescala (SCM), que alteram de forma significativa o fluxo atmosférico local e podem auxiliar no início da rotação. Além disso, os modelos numéricos e dados de satélite costumam subestimar o cisalhamento em baixos níveis devido à baixa resolução espacial, enquanto os radares regionais, limitados à leitura de refletividade convencional, falham em detectar a rotação de mesociclones ou miso-vórtices.
Os tornados recentes de Piracicaba (31/01/2025), Cotia (23/03/2025), Rio das Pedras e Mombuca (07/12/2025) e Ourinhos (08/02/2026) são exemplos de episódios tornádicos que se desenvolveram em ambientes nos quais a PREVOTS classificara, em seus boletins de previsão convectiva diária, como propensos a "tempestades esparsas e isoladas" (Tempestades) ou "tempestades severas isoladas/pouco organizadas" (Nível 1), a partir das condições em escala sinótica. Em Piracicaba, a formação ocorreu em uma supercélula marginal favorecida pela interação entre um cavado em médios níveis, a convergência entre a brisa marítima e o ar continental, e o baixo Ponto de Condensação por Levantamento (LCL), parâmetros que foram inicialmente subestimados; o fenômeno de Rio das Pedras-Mombuca envolveu uma interação mais complexa entre ventos quentes e úmidos do interior e um SCM ao sudeste, enquanto as ocorrências em Ourinhos e Cotia foram majoritariamente influenciadas pela convergência dos ventos em baixos níveis.
A radiossondagem (GFS, WFR, ECMWF, ICON, HRRR, NAM) é a principal ferramenta utilizada globalmente para prever o risco de tempestades convectivas severas, downbursts, supercélulas e tornados. No Brasil e na América do Sul, está disponível na versão GFS/WRF/ECMWF nos serviços como Sigma Meteorologia, Meteologix e MetSul Meteorologia.
Observações
"FU" é usado para eventos de intensidade desconhecida. A Escala Fujita Melhorada (EF) não é atualmente usada por nenhum órgão paulista, exceto por determinadas pesquisas em casos excepcionais. Nesse contexto, este artigo usa tanto a Escala Fujita tradicional quanto a Melhorada para a categorização dos eventos, pois ainda não há consolidação definitiva quanto ao seu uso. '~' indica que o número é estimado. '≥' indica que o valor foi igual ou superior ao elemento estimado. '≤' indica que o valor foi igual ou inferior ao elemento estimado. '±' indica que o valor anterior é uma média. Exemplo: "100±50" significa que o número real varia entre 50 e 150. A lista busca ser precisa. Portanto, existem diferentes terminologias envolvendo a documentação de um vórtice: "Reconhecido" e "notado" indicam que alguma instituição ou projeto oficial sem experiência em meteorologia de tempo severo (o INMET ou a Defesa Civil) notou o evento. "Catalogado" é utilizado sob o contexto de projetos com base de dados fixa (PRETS, trabalhos acadêmicos). Refere-se à adição do fenômeno ao banco, mas cujas evidências não permitem uma confirmação integral. "Confirmado" e "validado" são os termos de maior hierarquia, reservados para instituições de maior especialização na área de tempo severo ou estudos de caso. Na lista, essas terminologias são usadas quando o evento é definitivamente classificado como um tornado; ou, no caso da PRETS, quando o fenômeno é localizado ou possui informações detalhadas envolvendo sua trajetória, horário e coordenadas geográficas.
Classificação da Intensidade dos Tornados
Escala Fujita F0F1F2F3F4F5<117 km/h118–180 km/h181–253 km/h254–332 km/h333–418 km/h419–512 km/h
Escala Fujita melhorada EF0EF1EF2EF3EF4EF5105-137 km/h138–178 km/h179–218 km/h219–266 km/h267–322 km/h+322 km/h
Escala Fujita baseada em danos observados no estado de São Paulo ClasseDanos observados em São PauloEventos da listaF0Galhos quebrados, árvores pequenas derrubadas; danos muito leves em telhados ou estruturas frágeis; pequenos rastros em vegetação; tornados breves ou trombas-d'água com impacto mínimo.São Paulo (2004); São Miguel Arcanjo (2017); São Paulo (2019); vários episódios de landspoutsF1Destelhamento significativo de casas; queda de árvores médias; postes derrubados; galpões leves danificados; danos estruturais moderados em edificações simples; rastros claros em lavouras.Campinas (1995); Marília (2006); Piracicaba (2006); Itu (2025); Mombuca (2025)F2Casas parcialmente destruídas; árvores grandes arrancadas ou retorcidas; postes severamente envergados; torres de energia danificadas; veículos capotados ou deslocados; destruição significativa em indústrias ou galpões.Capivari (2005); Santa Bárbara d’Oeste (2006); Echaporã-Platina (2009); Águas de Lindóia (2016)F3Casas reforçadas quase completamente destruídas; bairros severamente devastados; grandes estruturas industriais destruídas; vagões de trem derrubados ou arremessados; árvores grandes arrancadas em grande número; danos generalizados em áreas urbanas.Sumaré (2001); Palmital (2004); Indaiatuba (2005); Taquarituba (2013); Jarinu (2016)F4Destruição extrema: edifícios robustos devastados; estruturas pesadas tombadas; veículos e objetos muito pesados arremessados; vegetação completamente devastada ao longo da trilha.Itu-Salto (1991)F5Nenhum caso confirmado no estado de São Paulo. -
Catálogo de eventos em São Paulo FUF0F1F2F3F4F5Total16632320910132
Século XIX
+DataÁreaF#ÓbitosFeridosImpactoNotas/Fontes 1876 07/08/1876Dois CórregosFU00 Devastação extrema na vegetação, com muitas árvores "descascadas". Ocorrência na zona rural. 1877 20/06/1877São José dos CamposFU00 Vagões de trem jogados para fora dos trilhos. Árvores derrubadas e retorcidas. 1889 27/06/1889Botucatu, Piracicaba, Limeira, Mogi-Mirim, Penha do Rio do PeixeFU00 Destruição severa em muitos prédios e vegetações. Rastro visível de destruição com largura de 60 metros. É mais crível que este evento tenha sido uma onda de múltiplos tornados, ou um evento de bow-echo. 1898 25/09/1898Araras, Lençóis PaulistaFU0~1 Destruição em várias residências.
Século XX
+DataÁreaF#ÓbitosFeridosImpactoNotas/Fontes 1915 01/05/1915SantosFU3? Algumas árvores arrancadas e lançadas a dezenas de metros. Postes telefônicos destruídos. Várias estruturas parcialmente ou totalmente destruídas. Uma grande agência de correio com dois andares e de alvenaria robusta teve parte de sua estrutura totalmente demolida, o que pode indicar danos no limite superior do F2 ou limite inferior do F3.Tromba-d'água 1923 14/09/1923Chavantes, OurinhosF3~10>100 Inúmeras fazendas completamente varridas do mapa. Vários animais e pessoas foram levadas e mortas pelo tornado.14/09/1923CapivariFU00 Sem informações. 1957 23/02/1957Ilha de Urubuquiçabas (Santos)FU0023/02/1957Ribeirão PretoF000 1982 26/06/1982TaubatéF3~2>30 Onda de tornados impulsionada por um El Niño forte, nos estados de SC, PR e SP. Casas (algumas de madeira, algumas de alvenaria) e uma grande igreja de alvenaria, ficaram completamente destruídos. Projéteis ficaram cravados em troncos de árvores. É possível que tenha ocorrido dois fortes tornados simultâneos na localidade.http://memoria.bn.gov.br/DocReader/153931_06/25161 1985 17/02/1985São PauloF000 Tromba-d'água. 1987 15/05/1987PiedadeF30>100 Destruição extrema em mais de 40% do município.15/05/1987PeruíbeFU0031/05/1987PiedadeF000 Alguns telhados danificados. 1991 10/03/1991BoituvaFU0026/04/1991São Bernardo do CampoF30? Capotou e arremessou uma fileira de 20 caminhões, com peso de 25 toneladas cada.