miniaturadaimagem|424x424px|Distribuição aproximada de línguas no extremo sul da América do Sul nos tempos da Conquista (c. 1500). Segundo a classificação de José Imbelloni o termo pâmpida é um nome genérico referente aos tipos de humanos de América do Sul que habitavam a região chaco-pampeana, a Patagonia oriental e desde o Século XIV o norte e centro da Ilha Grande da Terra do Fogo. Os pâmpidas figuram na classificação de Salvador Canals Frau — mais recente que a de Imbelloni — com o nome de patagônidos.
Descrição Seu modo de vida era principalmente caçador-coletor, para nutrir-se dedicavam-se especialmente à caça menor e à caça maior: guanacos, rheas, veados-mateiros, huemules, taiaçuídeos e inclusive predadores como o jaguar ou o puma, de acordo com o lugar em que viviam. Sabe-se que alguns europeus ficavam assustados nos tempos da "Conquista" ao observar aos diversos caçadores das etnias pâmpidas por vezes capturarem correndo animais que previamente costumavam rodear em grupo.
Adaptados a este tipo de vida caçadora-coletora trasumante, um dos traços típicos dos pâmpidas tem sido e é possuir estaturas elevadas (como as que surpreenderam à expedição de Fernando de Magalhães na Patagônia em 1520) ou bastante elevadas (como por exemplo costuma ocorrer entre os qom quando bem nutridos desde a infância); a estatura alta geralmente é combinada com corpos robustos e esbeltos.
Muitos dos povos pâmpidas que conseguiram se libertar do domínio espanhol desenvolveram rapidamente sistemas equestres, aprendendo a domesticar os cavalos selvagens descendentes de baguais europeus. Em muitos casos, os cavalos serviam como fonte de alimento, mas eram usados principalmente como montaria para caçar outros animais (por exemplo, os qom caçavam touros, também de origem europeia, com flechas a cavalo).
Após a conquista espanhola, que começou por volta de 1530, os pâmpidas foram divididos territorialmente em dois por uma faixa que separava as áreas de florestas e parques do Chaco ao norte e a parte sul da região pampeana e toda a Patagônia ao sul, e os charruas da Banda Oriental ao leste.
Entre o início dos séculos XVI e XVIII, grande parte dos pâmpidas foi quase dizimada ao contrair varíola, sarampo e certas cepas de gripe contra as quais não tinham imunidade.
Classificações O naturalista francês Alcide d'Orbigny (1802-1857) foi o primeiro em distinguir o que chamou raça pampeana em Voyage dans l'Amerique Méridionale de 1834, assinalando que se estendia desde Venezuela até a Patagônia e que sua tez era de cor verde-oliva pronunciada e sua estatura era superior aos 166 cm.
O também francês Joseph Deniker (1852-1918) em The races of man: an outline of anthropology and ethnography de 1900, distinguiu o que chamou de raça Patagonne (raça patagona).
O alemão Egon von Eickstedt (1892-1965) em Rassenkunde und Rassengeschichte der Menschheit de 1937, considerou a todos os amerindios como uma especialização particular da raça mongólica, diferenciando entre eles à Patagonide Rasse (raça patagônida).
O italiano Renato Biasutti (1878-1965) em Le razze e i popoli della terra de 1941, assinalou à Razze Pampidi (raças pâmpidas).
Em sua obra de 1943, El poblamiento primitivo de América, o ítalo-argentino José Imbelloni (1885-1967) propôs uma origem múltipla para a humanidade nas Américas, distinguindo três origens para as raças americanas: asiática pré-mongol (australoides), oceânica (de ascendência mongol) e asiática recente (mais ou menos mongol). Imbelloni classificou os pâmpidas entre os asiáticos pré-mongóis ou australoides, que ele acreditava terem entrado nas Américas através do Estreito de Bering. Ele identificou todo o Chaco, os Pampas e a Patagônia como habitat dos pâmpidas, incluindo os selk'nam da Terra do Fogo, os charrua do Uruguai e Entre Ríos, e o grupo bororo do Mato Grosso (separado dos demais pela influência guarani). Ele os relacionou aos povos das planíceis e aos sonóridas da América do Norte como variações locais de uma única raça original. Ele observou que seu tipo craniano é dolicocéfalo (cabeça longa e fina) e leptorrino (nariz estreito). Sua altura média é de 173 a 185 cm na Patagônia, 173 cm para homens e 160 cm para mulheres entre o povo Ona, e de 160 a 170 cm para homens e 155 cm para mulheres na região do Chaco.
Em sua obra de 1953, Las poblaciones indígenas de la Argentina, o espanhol-argentino Salvador Canals Frau (1893-1958) apresentou uma nova classificação do que denominou tipos raciais. Canals Frau concordava com Imbelloni a respeito dos pâmpidas, aos quais chamava de patagônidas. Considerava-os, contudo, derivados dos huarpes por meio de especialização e mutação nos desertos da Patagônia. Observou que possuíam constituição atlética, com crânio dolicocéfalo e alto e face alongada. Seu nariz era mesorrino (de tamanho médio) e eram altos: em média, 178 cm para os homens e 168 cm para as mulheres. Em seus mapas, Canals Frau localizou os patagônidas desde a Terra do Fogo até o centro do Brasil, incluindo a Patagônia, a região dos pampas, o Uruguai, a região central do Chaco e o Mato Grosso.
Povos pâmpidas Dentro dos pâmpidas estariam:
Os hets ou "pampas antigos" (incluindo aos querandis [comedores de gordura segundo os guaranis]), e os charrúas (muito influenciados culturalmente no pelos invasores amazônidas guaranis que ocupavam a pampa úmida).
Os "patagones" ou "patagões" do norte ou gününa-këna, gennakenk (desde o centro-sul da atual província de Buenos Aires) ou depois chamados pelos mapuches como puelches (homens do este) propriamente ditos, que habitavam a pampa seca.
Os patagões do sul: tehuelches ou tsonk subdivididos dentro da área continental americana em tsonk do norte (depois apelidados pelos mapuches como "tehuelches" [gente arisca]) ou teushen e tsonk do sul ou aonikenk.
Um grupo distinto dos aonikenk eram os selknam (comumente chamados de Onas, razão pela qual o território fueguino que habitavam era ocasionalmente chamado de Onishim), que se estabeleceram a partir do século XV nas planícies e estepes do norte da Ilha da Terra do Fogo e chegaram até as áreas mais a sudeste, com florestas e turfeiras daquela grande ilha, onde talvez, juntamente com os povos fueguinos que existiam há milhares de anos, criaram a etnia mixogênica dos aush ou mannekenk.
Na região do Chaco, de sul a norte, foram encontrados:
Os sanavirões (ou salavinões) invadiram, pouco antes da conquista espanhola, grande parte dos territórios dos henia-kamiare (comumente chamados de comechingões) e parte do norte da região úmida dos pampas, embora sua etnogênese tenha vindo da região entre os rios Dulce (ou Petri) e Salado del Norte, área onde receberam muitas influências culturais da região andina, influências que foram linguisticamente reforçadas após a invasão quíchua (andina) do século XV.
Os mokoit ou mocovis (aproximadamente no sudeste da atual província de Santiago del Estero e noroeste da província de Santa Fé e extremo nordeste da província de Córdoba);
Os abipones (que parecem ter recebido muitas influências culturais e genéticas amazônidas) no nordeste da província de Santa Fé e no leste da província do Chaco.
Os qom ou tobas, na maior parte da região hoje chamada Chaco Austral e em parte do Chaco Central.
Quanto às etnias intermediárias entre o Chaco do Sul e os Andes, apelidadas de "suri" pelos invasores quíchuas e, portanto, posteriormente chamadas de "xuris" e "juris" pelos europeus, elas parecem ter sido muito miscigenadas na época da conquista espanhola (século XVI) com os pâmpidas, andinos, huarpes e até mesmo amazônidas, embora entre seus membros também houvesse indivíduos de estatura alta (para a época; mais de 170 cm de altura), como era o caso dos tonocotês (que viviam no centro e oeste de Santiago del Estero e no leste da província de Tucumã) e até mesmo dos lules. Em todo caso, os tonocotês, assim como os lules, parecem apresentar muitos traços ou influências culturais andinas e amazônidas, apesar de sua origem pâmpida.
Os chamados paiaguás pelo povo guarani ainda viviam na confluência dos rios Paraguai e Pilcomayo por volta do século XVI, embora em menor número que os agricultores amazônidas (horticultores) Avá (ou guarani) e tendessem a recuar para o interior da região do Chaco.
Os agaces ainda não estão bem classificados etnograficamente, embora pareçam ter sido um grupo étnico mixogênico de pampídeos em substratos gês ou láguidas, que habitaram grande parte do que hoje é chamado de Paraguai Oriental até serem exterminados, absorvidos ou transculturados pelos guaranis.
Em geral, os povos chamados pelos guarani com o nome ofensivo de guaicurus (entre os quais se incluem os já mencionados qom e paiaguás), apesar de possuírem línguas amplamente associadas às línguas ofensivamente chamadas de "matacos" (wichis) pelos quíchua, são geralmente considerados pâmpidas (o que não é estritamente o caso dos wichis, embora seja o caso dos qom). Assim, muitos dos apelidados pelos guarani com o termo pejorativo embaiás (palavra que se traduz do ava ñe'ë ou guarani aproximadamente como "selvagens") também são pâmpidas. Entre os pâmpidas mais setentrionais estão os cadiuéus, povo que habitava o Chaco Boreal e que, após invadir territórios a leste do Rio Paraguai, encontra-se (altamente miscigenado com povos de outras linhagens) nas atuais fronteiras entre o Brasil e o Paraguai.
Como as grandes planícies do norte do Chaco não formavam um limite muito concreto, a presença dos pâmpidas abrangia as áreas da Chiquitânia onde eles já estavam se misturando com os amazônidas.
Ver também
Povos indígenas do Brasil Povos indígenas dos Pampas (não confundir os pâmpidas como subconjunto dos povos indígenas dos pampas por dois motivos: os povos indígenas dos pampas eram aqueles que habitavam apenas a pampa (os hets) e após a invasão mapuche que começou no século XVIII, e levando em conta que os mapuches são classificados principalmente entre os andinos, os mapuches foram misturados à força com os antigos pampas, dando origem — por exemplo — ao grupo étnico rankülche ou ranquel - em língua mapudungun "povo dos juncos" ou "povo das canas" — que se localizavam na região oeste dos Pampas a partir do século XIX. Por outro lado, embora seja verdade que o nome pâmpida abranja povos que também habitam a Patagônia e o Chaco, é evidente que o nome pâmpida foi dado por escolas antropológicas com base nos fisiotipos e traços culturais predominantes entre os "antigos pampas".
Referências
Categoria:Povos indígenas do Uruguai Categoria:Povos indígenas do Paraguai Categoria:Povos indígenas do Chile Categoria:Povos indígenas da Argentina Categoria:Povos indígenas do Rio Grande do Sul