upright=1.7|miniatura|A "Porta dos leões" de Hattusa, capital do reino hitita. A História dos hititas é a de um povo falante de uma língua indo-europeia que estabeleceu um reino centrado em Hattusa no centro da Anatólia a partir do século XVII a.C., e dominou rapidamente esta região e uma parte dos outros povos que a habitavam (Luvitas e Hurritas acima de tudo). A história hitita confunde-se largamente com a do reino que erigiram, uma vez que são bastante mal conhecidos antes disso, e não parecem ter sobrevivido (enquanto cultura) muito tempo à sua queda. De fato, a analogia entre os Hititas e o reino hitita (o antigo país de Hatti) não é evidente, uma vez que este Estado sempre integrou elementos vindos de diversos horizontes e pode ser caracterizado como pluriétnico e pluricultural, inclusive na sua elite, que é muito marcada por elementos hurritas durante os últimos séculos. Trata-se, portanto, aqui de ver antes de mais a história do que os povos antigos chamavam, do final do século XVII a.C. ao início do século XII a.C., de "Hatti", reino centrado numa região povoada antes de mais por hititas.
A história do reino hitita é correntemente dividida em três grandes fases, decalcadas das diferentes fases da língua hitita tal como é atestada pelos textos. Os primeiros reis hititas fundam Estados que assumem uma importância crescente, até ao dos reis de Cussara, que dominam a Anatólia central no início do século XVIII a.C.. É após a sua queda que se forma o reino de Hatti, situado numa região antigamente habitada por um povo com o mesmo nome, que é preciso dissociar dos hititas que dirigem este reino. Sob o impulso de reis enérgicos (Hatusil I e Mursil I), o "Antigo Reino" (c. 1625-1500 a.C.) torna-se uma grande potência do Oriente Médio, capaz de destruir Alepo e a Babilônia, mas conhece rapidamente um longo eclipse devido a perturbações internas, enquanto emerge um adversário temível, o Mitani. O período "médio" que se abre então (c. 1500-1375 a.C.) é caracterizado pelo recuo mas pela sobrevivência do reino, que se transforma em seguida num "império" durante o período do "Novo Império" (c. 1375-1185 a.C.). É o apogeu do reino hitita, que é então uma das maiores potências do Oriente Médio, nomeadamente na sequência das conquistas do seu maior rei, Supiluliuma I, que rebaixa Mitani e abala o Egito. Os seus sucessores prosseguem por um tempo os conflitos contra o reino do Vale do Nilo, antes de se tornarem seus aliados. Este período brilhante continua marcado por tensões internas, e estas, conjugadas com a forte pressão exercida por grupos vindos das margens do reino (nomeadamente os "Povos do Mar"), precipitam a queda do reino hitita no início do século XII a.C.. Reinos "neo-hititas" recolhem o legado do antigo império no sudeste anatólico até serem vencidos e anexados pela Assíria a partir do século VIII a.C..
A história dos hititas pode ser reconstituída graças aos formidáveis lotes de arquivos cuneiformes provenientes das ruínas da sua antiga capital, Hattusa: crônicas das campanhas militares conduzidas pelos reis hititas, correspondência administrativa e diplomática, hinos e orações ligados a acontecimentos políticos, acordos e editos políticos, etc. Foram encontradas muito poucas inscrições reais hititas. Estas fontes provenientes do coração do reino hitita são completadas por outras oriundas de escavações de antigos centros administrativos (Sapinuwa, Tapikka) e sobretudo de antigos reinos vassalos (Ugarit, Emar) e dos outros grandes reinos do Oriente Médio (Egito e Assíria, acima de tudo).
upright=2.0|miniatura|Localização dos principais sítios da Anatólia hitita.
As origens dos hititas O povo que é hoje chamado de "hititas" deve-o a uma antiga região da Anatólia central, Hatti. Nos textos hititas, o termo que designa a língua, indo-europeia, é na verdade o "nesita" (nesili, derivando da cidade de Nesa, também conhecida sob o nome de Kanesh). Este povo ocupa sobretudo a Capadócia no início do II milênio a.C., e não Hatti. A língua "hati" (hattili) dos textos antigos é na verdade uma língua (aparentemente de origem caucasiana) falada por outro povo, designado hoje sob o nome de Hatis, que povoava a região de Hatti no início do II milênio a.C., e parece ter ocupado esta região muito antes dos hititas, mesmo que, no momento em que aparecem nas fontes escritas, os dois vivam lado a lado e estejam sem dúvida já muito misturados. Os hatis e a sua língua desaparecem pouco depois. Outros povos falantes de línguas indo-europeias muito próximas do hitita/nesita convivem com eles: os "Palaítas" e os "Luvitas"Bryce 2005, pp. 12-20.. Estes povos são os mais antigos indo-europeus a serem conhecidos por fontes escritas. As suas origens são debatidas. Uma hipótese pouco aceita pelos especialistas propõe que sejam originários da própria Anatólia, que seria então o berço dos supostos "Proto-indo-europeus". A opinião mais amplamente difundida é a de que os primeiros indo-europeus vêm da Rússia meridional. Os "proto-anatólios", antepassados dos hititas, luvitas e palaítas, ter-se-iam então deslocado para os Bálcãs, antes de migrarem para a Anatólia e de se instalarem até à sua parte oriental. A datação destas migrações é debatida: o III milênio a.C. é o mais provável (mas no início ou mais tarde?), mesmo que possam ter chegado antes. Os povos envolvidos são igualmente discutidos: luvitas, hititas e outros separadamente por vagas sucessivas (mas em que ordem?), ou proto-anatólios simultaneamente antes de uma separação no localBryce 2005, pp. 11-12; Freu 2007a, pp. 30-32.
Os primeiros reinos anatólios miniaturadaimagem|Lança com inscrição em nome de Anitta, "Grande rei" de Cussara.
Os primeiros Estados da Anatólia A identificação clara de reinos na Anatólia central só é possível a partir do início do II milênio a.C., data das mais antigas fontes escritas encontradas nesta região. As escavações de diversos sítios arqueológicos nesta região permitiram, no entanto, evidenciar um processo de complexificação das entidades políticas que mergulham as suas raízes num passado longínquo. Assim, as origens do Estado na Anatólia oriental remontariam ao final do IV milênio a.C., como mostra o sítio de Arslantepe (a atual Malatya)Frangipane, M. (ed.). Alle origini del potere: Arslantepe, la collina dei leoni. Milão, 2004 (em italiano).. Principados mais desenvolvidos emergem na segunda metade do III milênio a.C. em várias partes da atual Turquia (sítios de Hissarlik/Troia, Beycesultan), e em particular na Anatólia central, como ilustram as descobertas efetuadas no sítio de Alaca Höyük (a futura Arina?), ao lado da emergência de outros futuros centros importantes do reino hitita como Kültepe (Nesa/Kanesh), Boğazkale (Hattusa) ou Alişar (Ankuwa?)Bryce 2005, pp. 9-11.. Segundo um relato datado de cerca de 1400 a.C., esta região teria sido atacada e submetida pelo rei Sargão da Acádia (2334-2279 a.C.) e pelo seu sucessor Naram-Sin (2254-2218 a.C.), tendo o segundo enfrentado nomeadamente o rei Zipani de Kanesh e Pamba de Hatti. Mas, na ausência de menção destas campanhas nos textos destes reis de Acádia, estes fatos são pouco segurosKlengel 1999, pp. 19-20; Westenholz, A. "Relations between Mesopotamia and Anatolia in the Age of the Sargonic Kings". Em: Erkanal, H. et al. (eds.). XXXIV Uluslararasi Assiriyoloji Kongresi, CRRAI 34 (Istanbul, 1987). Ancara, 1998, pp. 5-22; Beckman, G. "Sargon and Naram-Sin in Hatti: Reflections of Mesopotamian Antiquity among the Hittites". Em: Kuhn, D.; Stahl, H. (eds.). Die Gegenwart des Altertums. Heidelberg, 2001, pp. 85-91..
A época das feitorias assírias e os reis de Cussara
miniaturadaimagem|As localidades mencionadas nos arquivos de Kültepe/Kanesh na época das feitorias assírias. A localização de vários sítios permanece incerta. A situação política da Anatólia central no início do II milênio a.C. é conhecida graças aos textos dos mercadores da cidade de Assur (Alta Mesopotâmia) que ali se instalaram para efetuar um frutuoso comércio visando nomeadamente obter o cobre anatólico. Dispunham das suas próprias instituições no local, em diferentes cidades, sendo a principal o karūm (aqui uma espécie de feitoria) localizado em Kanesh, cidade sem dúvida de dominância hitita, em cujas ruínas foram exumadas milhares de tabuinhas relativas aos seus negócios comerciais (datadas na sua maioria de 1950 a 1830 a.C., e até 1780 a.C. para as mais recentes)Michel, C. Correspondance des marchands de Kaniš, au début du IIe millénaire avant J.-C. Paris, 2001; Veenhof, K. R.; Eidem, J. Mesopotamia, The Old Assyrian Period. Friburgo, 2008.. No entanto, a autoridade política dos reis locais era reconhecida, e acordos regulavam as condições da presença dos mercadores e das suas instituições, que se ocupavam antes de tudo dos assuntos comerciais. Os textos assírios, bem como um punhado de documentos provenientes do palácio de Kanesh, indicam quais eram os principais principados anatólicos deste período: Kanesh, a norte Hatti (em redor de Hattusa, então chamada Hattus) e Zalpa (perto do Mar Negro), a sul Burushattum (Purushanda nos textos hititas dos períodos seguintes, talvez no sítio de Acemhöyük) e Wahsusana, ou ainda MamaBryce 2005, pp. 24-26, 32-35..
Estes principados aproveitam sem dúvida o comércio assírio para enriquecer e ganhar mais peso. No século XVIII a.C., um fenômeno de concentração política está em curso. São finalmente os soberanos da cidade de Cussara que conseguem ser os primeiros a impor a sua dominação e a fundar o primeiro grande reino que pode ser qualificado de "hitita". Os dois artesãos destas conquistas são Pithana e o seu filho Anitta, que reinam no século XVIII a.C.. O primeiro apodera-se de Kanesh e faz dela a sua capital, depois o seu filho toma Hattusa, que é destruída e condenada a não voltar a ser habitada por Anitta, e derrota também Zalpa, que se tinha aliado com Hatti contra ele. A sudoeste, submete o rei de Purushanda, que leva para KaneshBryce 2005, pp. 35-40.. Proclama-se então "Grande rei". Permanece, aliás, um modelo para os reis hititas seguintes, que mandaram recopiar um dos seus textos chamado Proclamação de AnittaKlock-Fontanille 2001, pp. 49-85.. O seu filho Zuzzu sucede-lhe, e é o último rei atestado da dinastia de CussaraFreu 2007a, pp. 33-35..
Os primórdios do reino hitita miniaturadaimagem|O Oriente Médio sob os reinados de Hatusil I e Mursil I. A localização dos sítios cujos nomes estão em itálico e a extensão dos reinos são muito aproximativas.
"Labarna I" A queda da dinastia de Cussara ocorre em condições muito obscuras, e os anos seguintes são muito mal conhecidos. É durante este período que se estabelece o reino hitita, em condições que nos escapam. Apenas alguns documentos de difícil interpretação fornecem indícios, em primeiro lugar a introdução do Edito de Telepinu, redigido cerca de um século mais tarde. Este texto designa Labarna I como o primeiro "Grande rei" na origem do reino hitita, e atribui-lhe várias conquistas. Este nome não deixa de levantar problemas, pois em épocas tardias é sinônimo de "rei". Segundo a interpretação mais corrente, o nome do soberano fundador acabou por se tornar o título do cargo, como César ou Augusto na Roma antiga. Não é conhecido nenhum documento do seu reinado, o que faz com que alguns tenham posto em causa a sua existência, ponto de vista minoritário. Outros propõem situar o reinado de um rei Huzziya I (o sucessor de Labarna?) neste período fundador. Seja como for, há todos os motivos para pensar que Labarna foi o primeiro a estabelecer um reino poderoso após o de Cussara, sem que as suas ligações com este último sejam determináveisBryce 2005, pp. 64-66; Freu 2007a, pp. 49-57..
Hatusil I