miniatura|372x372px|Uma bandeira do Vaticano em exibição em Nazaré, Israel. O catolicismo – o maior ramo do cristianismo no mundo – tem uma história de interação com o sionismo – a ideologia nacionalista judaica que começou como um movimento pela criação de um Estado judeu no sul do Levante e que hoje serve como a "ideologia orientadora" de sua bem-sucedida criação, o Estado de Israel.

A relação entre o catolicismo e o sionismo abrange aspectos teológicos, históricos e sociais, e por vezes se sobrepõe às relações católico-judaicas. A região geográfica da Palestina tem profunda importância religiosa para os católicos, que a consideram a Terra Santa, e profunda importância nacional para os sionistas, devido ao seu papel histórico e religioso como Terra de Israel.

A Igreja Católica rejeita qualquer fundamento teológico para o sionismo e historicamente se opôs a ele. Não obstante, o Vaticano estabeleceu relações diplomáticas com o Estado de Israel em 1993, uma decisão baseada no reconhecimento da realidade política e cívica, e não na teologia cristã sionista. Hoje, o Vaticano reconhece tanto Israel quanto o Estado da Palestina e defende a solução de dois Estados. É importante ressaltar que a doutrina católica não dita formalmente as posições políticas individuais de seus fiéis em relação à existência de Israel. Portanto, existe uma diversidade de opiniões católicas sobre o assunto em todo o mundo.

Também é relevante o papel das figuras católicas no conflito israelo-palestino, tanto na região como fora dela, bem como as atitudes e práticas israelitas em relação ao Vaticano e aos católicos locais.

Discurso teológico e bíblico A Terra de Israel como divinamente ordenada miniatura|397x397px|Mapa representando a Terra de Israel tradicional. Os sionistas que são judeus religiosos consideram o sionismo e o judaísmo inseparáveis, sendo o primeiro um componente central do segundo. Como evidência, apontam para o papel contínuo da Terra de Israel como o território nacional dado por Deus ao povo israelita, e posteriormente judeu, ao longo de todo o Tanakh; e o conceito de retorno à terra como uma característica regular das práticas religiosas na diáspora judaica. Os sionistas cristãos não católicos também acreditam que a terra foi divinamente ordenada para os judeus, mas que o retorno da soberania judaica antecipa a Segunda Vinda de Jesus. No cerne dessas crenças está a narrativa bíblica de Gênesis 12, onde Abraão é escolhido por Deus para ir a Canaã e se tornar o pai de uma nação; isso é interpretado como o ponto de partida para um povo judeu divinamente ordenado em seu próprio território nacional definido.

Alguns setores da Igreja Católica, particularmente na Europa e na América do Norte, fazem lobby para afirmar a reivindicação sionista sobre a Terra de Israel como teologicamente válida. Gavin D'Costa, um sionista católico, escreve que qualquer tentativa da Igreja de endossar o sionismo com base teológica seria recebida com enorme hostilidade pelos cristãos do Oriente Médio.

A Terra de Israel como não divinamente ordenada A Igreja Católica rejeita a premissa de que o povo judeu tem um direito divino de possuir soberania sobre a Terra Santa. A Lumen Gentium do Concílio Vaticano II (1964) afirma que a Igreja é o "novo Israel" e o "novo povo de Deus" que não está vinculado por etnia ou sangue. Em 1985, as "Notas sobre a Apresentação Correta dos Judeus e do Judaísmo" do Vaticano complementaram essa visão, declarando que a relação especial entre Deus e o povo judeu permanecia intacta. Reconheceram também a ligação perene do judaísmo com a Terra de Israel, mas afirmaram simultaneamente que essa ligação era religiosamente irrelevante para os cristãos.

Portanto, na compreensão católica, essa relação contínua entre Deus e o povo judeu ainda exclui qualquer promessa divina relacionada à terra – ou seja, nos dias atuais, as reivindicações do Estado de Israel – como teologicamente válida. O rabino David Rosen criticou a abordagem da Igreja, comentando que, se ela pretende "respeitar plenamente a autocompreensão judaica, também é necessário reconhecer a centralidade que a terra de Israel desempenha na vida religiosa histórica e contemporânea do povo judeu, e que parece estar faltando".

Ao abordar a questão de por que a posse da Terra de Israel não é vista pela Igreja Católica como parte da aliança "irrevogável" entre Deus e o povo judeu, conforme declarado em Romanos 11, Matthew A. Tsakanikas, um católico antissionista, escreve que:

No Novo Testamento, parte das escrituras bíblicas cristãs, mas não judaicas, o foco na importância da terra, constante ao longo do Antigo Testamento, muda em favor de um conceito mais espiritual e menos definido geograficamente. Isso é exemplificado pelas Bem-aventuranças (Mateus 5:3-10); pelo céu sendo visto como a verdadeira pátria cristã (Hebreus 11:13-16); e pela quebra das fronteiras étnicas e religiosas entre judeusIsto é, os judeus que aderiram ao cristianismo. e gentios sob a liderança de Jesus (Efésios 2:14-18).

Sionismo católico O fenômeno do sionismo católico surgiu após 1948, quando o Estado de Israel foi estabelecido, e tem suas origens na mudança de posição do Concílio Vaticano II em relação ao povo judeu. Jimmy Akin escreve que, apesar da recusa da Igreja Católica em endossar o sionismo com base teológica, a opinião de um católico de que os judeus têm direito à Terra de Israel devido à promessa de Deus está "dentro do âmbito da especulação teológica permitida".

Gavin D'Costa escreve que o sionismo católico tem como fundamento teológico "o dom incondicional da eleição do povo judeu" e a "visão bíblica" do governo judaico na Terra Santa, mas é único em vários aspectos que o distinguem do sionismo cristão protestante tradicional. Segundo D'Costa, isso afirma que a soberania judaica sobre a Terra de Israel é condicional, com base em Levítico 18:28: "Não suceda que a terra, sendo contaminada por vós, vos vomite também a vós, como vomitou a nação que foi antes de vós". Isso diferencia o sionismo católico da "confiança escatológica de muitos protestantes que imaginam o Estado de Israel como o cumprimento de profecias sobre o fim dos tempos". O sionismo católico também demonstra simpatia pelas preocupações palestinas e vislumbra a governança judaica na Terra Santa como possível num sentido binacional ou como parte de uma estrutura multinacional mais ampla, não precisando necessariamente assumir a forma do atual Estado-nação israelense.

Em 2025, surgiu uma ruptura entre a Kairos Palestine, liderada por católicos, mas composta por palestinos católicos, ortodoxos e protestantes, e a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB). Isso ocorreu depois que a USCCB divulgou uma publicação conjunta com o Comitê Judaico Americano, cujo objetivo era "condenar o antissemitismo e educar os católicos sobre frases e crenças antissemitas". A organização Kairos Palestine condenou a publicação como "teologicamente e moralmente errada" e rejeitou a defesa do documento feita pelo arcebispo Timothy Broglio, presidente da USCCB.

História da abordagem política do Vaticano ao sionismo Antes de 1948 miniatura|Papa Pio X em 1910. A oposição tradicional do Vaticano ao sionismo derivava, em grande parte, de uma base teológica.Catholics, Jews, and the State of Israel (1993), por Anthony J. Kenny. . Theodor Herzl, o fundador judeu secular do sionismo político moderno, encontrou-se com o Papa Pio X no Vaticano em 1904, por intermédio do conde austríaco Berthold Dominik Lippay, para apurar a posição da Igreja Católica sobre o projeto de Herzl para um Estado judeu na Palestina. O Papa Pio X disse a Herzl:

O Papa Pio X prosseguiu dizendo a Herzl que a Igreja Católica também se opunha à aquisição das "terras seculares" da Palestina pelo movimento sionista. Isso estabeleceu alguns dos principais componentes religiosos do antissionismo da Igreja Católica, que assumiria um caráter mais político à medida que o planejamento de um Estado judeu na Terra Santa se iniciava em 1917 com a Declaração Balfour. O Vaticano se opôs veementemente aos planos da Liga das Nações para um Estado judeu na Terra Santa, acreditando que o domínio do judaísmo sobre uma terra sagrada para os católicos seria uma ofensa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Vaticano assegurou que qualquer esforço em que participasse para ajudar o povo judeu ameaçado pela Alemanha nazista não fosse interpretado como apoio a uma pátria judaica na Terra Santa. Em 22 de junho de 1943, Amleto Giovanni Cicognani, Delegado Apostólico nos Estados Unidos, escreveu ao presidente americano Franklin D. Roosevelt, pedindo-lhe que impedisse o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina.

Quando o plano de partilha da Palestina das Nações Unidas de 1947 foi apresentado, o Vaticano decidiu apoiar pelo menos a proposta de corpus separatum dentro do plano, que teria transformado Jerusalém numa zona internacional administrada pelas Nações Unidas.

Depois de 1948 miniatura|301x301px|Papa Francisco em Belém, Palestina, em 2014. Sob o pontificado do Papa Pio XII, a Igreja Católica resistiu à pressão dos EUA para reconhecer o nascente Estado de Israel e, de acordo com o historiador estadunidense Frank J. Coppa em seu estudo biográfico The Life and Pontificate of Pope Pius XII: Between History and Controversy ("A Vida e o Pontificado do Papa Pio XII: Entre a História e a Controvérsia"), opôs-se "à política estadunidense no Oriente Médio desde a fundação de Israel até sua morte em 1958".

Durante o pontificado do Papa João XXIII, de 1958 a 1963, o Vaticano moderou sua posição política em relação ao sionismo. O Papa João XXIII, arquiteto do Concílio Vaticano II, era profundamente simpático ao povo judeu e secretamente desejava o reconhecimento do Estado de Israel pelo Vaticano. O Estado de Israel reagiu com entusiasmo à notícia de sua eleição, e em sua coroação esteve presente o embaixador israelense Eliahu Sasson, nomeado "Delegado Especial do Governo de Israel".

O Vaticano reconheceu o Estado de Israel em 1993, como resultado dos Acordos de Oslo. O primeiro considerou esse reconhecimento como necessário diante da nova realidade política e cívica, e não como uma aprovação teológica do projeto sionista. Desde então, a posição política oficial do Vaticano tem sido a favor da coexistência de um Estado israelense e um Estado palestino.

Na sequência desses acontecimentos, o Vaticano também assinou um acordo com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em 2000, durante o pontificado de João Paulo II. Este foi sucedido por um acordo em 2015, durante o pontificado de Francisco, que reconheceu o Estado da Palestina. Apesar do apelo do Papa Francisco por uma solução de dois Estados, ainda existe uma diversidade de opiniões sobre o assunto dentro da própria Santa Sé, como demonstra a declaração do cardeal Fernando Filoni, em 2024, de que uma solução de um Estado "integrado", com plenos direitos para todos os habitantes, pode ser uma opção melhor do que uma solução de dois Estados cada vez mais inviável.

Católicos no conflito israelo-palestino miniatura|Arcebispo Hilarion Capucci em 1988. A guerra da Palestina de 1948 e a subsequente expulsão e fuga dos palestinos, que deram início à Nakba, semearam as sementes de uma teologia da libertação entre os cristãos palestinos. Durante a guerra de 1948, Alberto Gori, então Custódio Franciscano da Terra Santa, acusou as forças israelenses de destruírem os lugares sagrados, em seus relatórios ao Vaticano. Diversas aldeias de maioria católica, foram alvo de crimes de guerra pelas forças israelenses; Iqrit e Kafr Bir'im foram despovoadas à força e arrasadas, e Al-Bassa e Eilabun foram palco de massacres.