Lugar de Negro é um livro escrito pela intelectual e ativista Lélia Gonzalez e pelo sociólogo Carlos Hasenbalg, ambos considerados importantes nomes na luta antirracista, cientistas sociais que atuavam na academia e nos movimentos sociais.
A obra é considerada um marco nos estudos sobre as relações raciais e o racismo estrutural no Brasil.
O livro Lugar de Negro foi publicado originalmente em 1982, pela editora Marco Zero, e republicado em 2022, pela editora Zahar.
Conteúdo e temática Lugar de negro reúne três textos sintetizando pontos centrais da questão racial brasileira e contribuindo para fortalecer uma luta fundamental do movimento negro nos anos 1980: descontruir o mito da democracia racial, incitado durante a ditadura. Cada texto corresponde a um capítulo, cada um de um autor: o primeiro capítulo tem o título de "O Movimento Negro na última década", por Lélia Gonzalez; o segundo é "Raça, Classe e Mobilidade", de Carlos Hasenbalg; e o último é "O negro na publicidade" do mesmo autor.
O livro fala sobre a formação do movimento negro moderno e analisa como o racismo opera como um mecanismo de níveis de Hierarquia Social. O título remete à proposta, feita por Gonzalez, de reinterpretar a teoria do lugar natural do filósofo grego Aristóteles para conceituar o lugar de negro. A ideia de que a sociedade tenta restringir a população negra a determinados "lugares" sociais subordinados, como favelas e subempregos, enquanto os autores defendem a ocupação de espaços de poder e decisão.
Enquanto Lélia Gonzalez foca na resistência cultural e na organização política, Carlos Hasenbalg utiliza dados estatísticos para desconstruir o "mito da democracia racial" brasileira.
Divisão racial do espaço No capítulo "O Movimento Negro na última década", Lélia Gonzalez elabora uma releitura da teoria do lugar natural do filósofo grego Aristóteles no item "O golpe de 64, o novo modelo econômico e a população negra", mostrando a separação quanto ao espaço físico ocupado por dominadores e dominados. Ela chama esse processo de "divisão racial do espaço", que ela define assim (GONZALEZ, 1982, p. 45): O lugar natural do grupo branco dominante são moradias amplas, espaçosas, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes tipos de policiamento: desde os antigos feitores, capitães do mato, capangas etc., até a polícia formalmente constituída. Desde a casa-grande e do sobrado, aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido sempre o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, porões, invasões, alagados e conjuntos “habitacionais” (cujos modelos são os guetos dos países desenvolvidos) dos dias de hoje, o critério também tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço. Importante notar que o termo "divisão racial do espaço" já havia sido utilizado por ela em 1979, na palestra "Brazilian Black Youth and Unemployment", proferida no Annual Meeting of the African Heritage Studies Association, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, posteriormente traduzida para o português e publicada no livro Por um Feminismo Afro-Latino-Americano com o título "Juventude Negra Brasileira e a questão do desemprego".
A referência à "divisão racial do espaço" de Lélia Gonzalez aparece no livro "Questões urbanas e racismo", organizado por Renato Emerson dos Santos, tanto no capítulo de Alex Ratts, quanto no capítulo de Antonia dos Santos Garcia. Alex Ratts menciona que a espacialidade da questão racial aparece também em outros textos onde Lélia Gonzalez analisa a sociedade brasileira, como em “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, publicado originalmente em 1983 e republicado em 2020.
Dados estatísticos sobre a desigualdade racial e a PNAD de 1976 No capítulo "Raça, Classe e Mobilidade", Carlos Hasenbalg apresenta o item "Racismo e desigualdades raciais no Brasil" com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) de 1976 do IBGE com o objetivo de demonstrar de forma quantitativa a relações entre cor/raça e algumas características socioeconômicas e assim evidenciar as desigualdades raciais existentes no Brasil.
Carlos Hasenbalg, na segunda edição do livro "Discriminação e desigualdades raciais no Brasil" (Editora da UFMG, 2005), explica a importância dos dados da PNAD de 1976: "A partir da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (PNAD) de 1976 e do Censo Demográfico de 1980, o IBGE voltou a registrar o quesito cor, que foi incorporado definitivamente às pesquisas domiciliares desde a PNAD de 1986."
Ainda sobre a PNAD de 1976, Carlos Hasenbalg afirma em entrevista para Antônio Sérgio Alfredo Guimarães que: "A PNAD de 1976 fazia primeiro uma pergunta aberta, permitindo aos entrevistados declarar a sua cor espontaneamente, e logo fazia a pergunta fechada, pedindo aos respondentes para escolher entre as cores branca, preta, parda e amarela. Nas respostas à pergunta aberta, uma percentagem elevada (35%) de entrevistados se declarou de cor morena clara e morena. Resultados semelhantes foram obtidos na pesquisa Datafolha de 1995 sobre a questão racial: na auto-identificação de cor, 42% dos entrevistados se declarou de cor morena clara e morena."
Relevância histórica Em 2022, em comemoração aos 40 anos do lançamento original, a obra foi reeditada pela editora Zahar, reafirmando sua atualidade para compreender a desigualdade no país.
alt=|miniaturadaimagem|364x364px|Capa da edição de 2022, da Editora Zahar, do livro Lugar de Negro.|centro
Sobre os autores Lélia Gonzalez: foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) e é uma das principais vozes do feminismo negro na América Latina. Carlos Hasenbalg: sociólogo argentino radicado no Brasil, foi pioneiro ao usar dados do IBGE para provar que a desigualdade entre negros e brancos não era apenas uma questão de classe social, mas de racismo.
Impacto e legado Este livro apresenta ainda hoje reflexões cruciais para a agenda intelectual e política do Brasil. Passadas quatro décadas de sua publicação original, sua leitura permanece atual e obrigatória para entender as dinâmicas de raça e classe no Brasil.
A obra é frequentemente citada em estudos acadêmicos.
Ver também Movimento Negro Unificado
Categoria:Sociologia Categoria:Livros de sociologia do Brasil Categoria:Livros de 1982 Categoria:Livros de Lélia Gonzalez Categoria:Lélia Gonzalez