AfriCOBRA (African Commune of Bad Relevant Artists) é um coletivo de artistas e designers afro-americanos formado em Chicago, Illinois, em 1968. O coletivo foi fundado por Jeff Donaldson, Wadsworth Jarrell, Jae Jarrell, Barbara Jones-Hogu, Nelson Stevens e Gerald Williams. Seus integrantes já haviam atuado na Organization of Black American Culture (OBAC), fundada em 1962 e conhecida pelo mural Wall of Respect.
O coletivo tinha como objetivo desenvolver designs comprometidos com a expressão da diáspora africana, voltada à identidade e à afirmação da cultura negra em diálogo com temas políticos. No âmbito estético, tinham como foco capturar o espírito da época, o conceito de orgulho negro — a beleza da negritude — e uma visão positiva da vida. Esses aspectos se tornaram mais importantes do que registrar as manifestações. Entre seus princípios, destacava-se também a valorização de uma consciência coletiva, em contraposição a perspectivas individualistas, buscando articular passado, presente e futuro das comunidades afro-diaspóricas. Dessa forma, AfriCOBRA defendia que a arte e o design poderiam atuar como agentes de transformação social e política, promovendo mudanças nas comunidades através de práticas do design ativista.
Biografia A AfriCOBRA foi fundada em Chicago por um coletivo de artistas com o objetivo de definir uma "estética negra". Os artistas da AfriCOBRA estavam associados ao Movimento das Artes Negras na América, um movimento que começou em meados da década de 1960 e que celebrava expressões culturais da comunidade negra contemporânea nos campos da literatura, teatro, dança e artes visuais. O coletivo operava com base nos princípios da responsabilidade social, excelência artística, envolvimento artístico local e, por fim, a promoção do orgulho da identidade negra.
A partir de 1968, os membros da AfriCOBRA se reuniam regularmente no South Side de Chicago, na casa e estúdio de Wadsworth e Jae Jarrell, onde discutiam maneiras pelas quais sua arte e design poderiam incorporar uma "estética negra", baseada em um credo estético acordado. O coletivo começou inicialmente como COBRA, a Comuna de Artistas Ruins Relevantes. O único propósito do grupo era enfatizar a autodeterminação e a libertação negra. COBRA usava eventos atuais e o clima político como tema para seus designs, com o objetivo de conscientizar.
Após a Convenção Democrata de Chicago de 1968, o grupo respondeu com uma série de pinturas destinadas a representar a Família Negra. As pinturas funcionaram como um apelo à conscientização sobre a violência racial na América, que havia sido demonstrada na televisão nacional em 28 de agosto de 1968, onde manifestantes na convenção foram espancados e brutalizados pela polícia. Cada membro do Cobra contribuiu com uma imagem para o tema.
Em 1969, o coletivo mudou seu nome para AfriCOBRA (Comuna Africana de Artistas Ruins Relevantes). Optando por se concentrar mais na diáspora africana, o coletivo abraçou a crescente ideologia afrocentrista. A mudança de nome foi seguida pela adição de novos artistas, incluindo Napoleon Jones-Henderson, Nelson Stevens, Sherman Beck, Frank Smith e Carolyn Lawrence.
Em 1970, o coletivo participou de uma exposição intitulada Dez em Busca de uma Nação no Studio Museum do Harlem. Essa exposição ajudou a apresentar a AfriCOBRA a um público fora de Chicago. O trabalho não estava à venda, pois sua única função era a educacional, eles afirmavam que não queriam promover ganho individual com as imagens. O coletivo retornou ao Studio Museum do Harlem para a exposição AfriCOBRA II no outono de 1971. Participando também de exposições em faculdades afro-americanas ao longo da década de 1970.
Durante a década de 1970, muitos artistas associados ao AfriCOBRA viajaram de volta à África para estudar arte africana, considerando-a essencial para o seu trabalho como artistas da AfriCOBRA. Eles retornaram à África numa época em que muitos países africanos estavam conquistando a independência do domínio colonial. Além disso, muitos desses países estavam ganhando destaque nas universidades americanas, muitas das quais começavam a criar seus próprios programas de Estudos Africanos. Esses artistas viajantes ficaram conhecidos como artistas "retornados" e muitos deles cursaram pós-graduação em arte africana. Muitos deles ainda são importantes estudiosos da arte africana e afro-americana nos dias de hoje.
Em 1977, a AfriCOBRA foi convidada para o FESTAC'77, o Segundo Festival Mundial de Artes e Cultura Negra e Africana, em Lagos, Nigéria. O festival contou com a presença de mais de 15.000 artistas de todo o mundo. O evento ocorreu de 15 de janeiro a 12 de fevereiro de 1977, e todas as pessoas de ascendência africana foram convidadas, sendo organizadas por zonas geográficas.
Jeff Donaldson ficou responsável pela delegação de artistas da América do Norte, enquanto Jae Jarrell presidiu o Comitê de Vestuário Negro e Africano Moderno e Criativo do FESTAC. Após o FESTAC'77, o AfriCOBRA mudou de nome mais uma vez, passando a se chamar Africobra/Farafindugu. Farafindugu, uma palavra Malinke, foi interpretada como o "conceito complexo de negritude, irmandade e terra negra", conforme declarado pelo artista Farafindugu Frank Smith.
Membros fundadores Os membros fundadores da AfriCOBRA foram inicialmente associados à Organização da Cultura Afro-Americana (OBAC), fundada em 1967. Este grupo, formado em Chicago para incentivar a educação e as apresentações artísticas entre a população afro-americana da cidade, foi responsável pelo famoso Muro do Respeito (Wall of Respect). O muro consistia em uma série de retratos dedicados a indivíduos considerados heróis e heroínas da história afro-americana. O Muro do Respeito foi destruído em um incêndio em 1971. No entanto, serviu de inspiração para outras representações artísticas da experiência afro-americana.
Jeff Donaldson e Wadsworth Jarrell, dois artistas da OBAC que contribuíram para o Muro do Respeito, começaram a explorar se um movimento de arte negra poderia ser iniciado com base em um credo estético comum. Após uma série de reuniões, Jeff Donaldson, Wadsworth Jarrell, Jae Jarrell, Barbara Jones-Hogu e Gerald Williams se uniram para formar o coletivo.
Jeff Donaldson (1932 – 2004) foi um artista visual, designer e professor cujo trabalho foi essencial para o Movimento das Artes Negras das décadas de 1960 e 1970. Donaldson formou-se em Artes Plásticas pela Universidade de Arkansas em Pine Bluff em 1954, obteve seu mestrado em Belas Artes pelo Instituto de Design do Instituto de Tecnologia de Illinois em Chicago em 1963 e seu doutorado em História da Arte Africana e Afro-Americana pela Universidade Northwestern em 1974. Foi um renomado professor e administrador da Universidade Howard em Washington, D.C. Jeff também foi cofundador da AfriCOBRA e colaborador do importante Muro do Respeito. Sua obra é conhecida por criar uma iconografia negra alternativa conectada à África e enraizada na luta, a fim de substituir a história de estereótipos depreciativos da cultura branca hegemônica.
Wadsworth Aikens Jarrell (nascido em 20 de novembro de 1929) é um pintor, escultor e gravurista americano. Jarrell nasceu em Albany, Geórgia e mudou-se para Chicago, Illinois onde frequentou o Instituto de Arte de Chicago. Após a formatura, envolveu-se profundamente na cena artística local e, por meio de seus primeiros trabalhos, explorou a vida profissional dos afro-americanos em Chicago, encontrando influência nas imagens e sons da música jazz. No final da década de 1960, ele abriu o WJ Studio and Gallery, onde, juntamente com sua esposa, Jae Jarrell recebia artistas e músicos regionais. miniaturadaimagem|170x170px|Jae Jarrell em Brooklyn Museum. Elaine "Jae" Jarrell (nascida Elaine Annette Johnson, em Cleveland, 1935) é uma renomada artista, designer de moda do Movimento das Artes Negras da década de 1960. Ela é cofundadora da AfriCOBRA onde produziu peças de vestuário para explorar temas de revolução e identidade. Seu processo envolvia a criação de desenhos têxteis em couro ou camurça, que ela modificava por meio de tie-dye, serigrafia, pintura à mão e apliques. Suas obras desse período incluem o Terno Revolucionário (1968), Família Ébano (1968) e Terno Parede Urbana (1969).
Barbara Jones-Hogu (17 de abril de 1938 – 14 de novembro de 2017) foi designer e artista formada em artes pela Universidade Howard e em Belas Artes pela Escola do Instituto de Arte de Chicago. Ela também obteve mestrado em Belas Artes pelo Instituto de Design de Chicago e em impressão pelo Instituto de Tecnologia de Illinois, em Chicago. Jones-Hogu também adotou a gravura como meio de criar obras com imagens que fomentassem a autoconfiança e fortalecessem as comunidades negras. Sua formação como gravurista ajudou a estabelecer a estética do AfriCOBRA, com obras como "One People Unite" e "Unite" tornando-se emblemáticas da produção do coletivo.
Gerald Williams (nascido em 1941 em Chicago, Illinois) é um artista visual norte-americano e membro fundador da AfriCOBRA. Formou-se pelo Chicago Teachers College em 1969 e obteve o título de mestre em Belas Artes pela Universidade Howard em 1976. Atuou no Corpo da Paz, no Quênia, como diretor de educação pré-profissional, e posteriormente lecionou em escolas públicas de Washington, D.C. Sua obra dialoga com o Movimento das Artes Negras e com o Black Power, abordando temas ligados à construção de identidade e comunidade, como em uma de suas obrar mais importantes a pintura Tempo da Nação (1969).
Arte e influência AfriCOBRA queria comunicar a estética negra como um novo sentido de propósito; a estética negra não era simplesmente arte, mas uma imagem poderosa. A imagem era uma representação do orgulho negro, da autodeterminação negra e do apoio a todos os negros da diáspora. O grupo tinha como principal objetivo celebrar a identidade africana e chamar a atenção para as lutas políticas através da representação da cultura visual negra. O trabalho da AfriCOBRA incorporava elementos do free jazz, cores vibrantes e imagens que representavam a identidade negra. Suas imagens deveriam desempenhar uma função com a qual os negros pudessem se identificar diretamente, enfatizando a educação e a conscientização sobre as condições de vida dos negros.
Em uma entrevista comemorativa do 50º aniversário da Lei dos Direitos Civis de 1964, Teresa A. Carbone (curadora de Arte Americana no Museu do Brooklyn) afirmou: "É difícil estabelecer uma correspondência direta entre uma obra e um efeito social imediato, mas os gráficos do coletivo de artistas de Chicago AfriCOBRA realmente ajudaram a remodelar a mentalidade das comunidades negras."
A AfriCOBRA trabalha para fazer da arte afro-americana um esforço comunitário. Grande parte da estética visual dessas obras está focada nas condições sociais, políticas e econômicas relacionadas aos negros americanos. Eles criaram um manifesto intitulado "Dez em Busca de uma Nação" em 1969.
Uma das obras mais notáveis foi a homenagem aos revolucionários negros no Muro do Respeito, pintado pelos membros da Organização da Cultura Negra Americana (OBAC). Jeff Donaldson, Wadsworth Jarrell, Gerald Williams e Barbara Jones-Hogu foram membros originais que mais tarde formaram a AfriCOBRA. Este muro também se tornou o que Barbara Jones-Hogu descreveu como "um símbolo visual do nacionalismo e da libertação negra".
AfriCOBRA era mais do que uma coleção de artistas; era um apelo apaixonado pela liberdade, fundamentado em um conjunto de princípios filosóficos e estéticos. Na luta pela libertação e igualdade dentro da comunidade afro-americana, AfriCOBRA representou esses princípios por meio da arte.