Vasubandhu (; tibetano: དབྱིག་གཉེན་ ; fl. séculos IV–V d.C.) foi um influente monge budista e erudito indiano. Foi um filósofo que escreveu comentários sobre o Abhidharma, sob as perspectivas das escolas Sarvastivada e Sautrāntika. Após sua conversão ao Budismo Mahayana, juntamente com seu meio-irmão, Asanga, foi também um dos principais fundadores da escola Yogacara.

A obra Abhidharmakośakārikā de Vasubandhu ("Comentário ao Tesouro do Abhidharma") é amplamente utilizada no budismo tibetano e no budismo do leste asiático, como a principal fonte de filosofia Abhidharma não-Mahayana. Suas obras filosóficas em verso estabeleceram o padrão para a metafísica indiana Yogacara da "aparência apenas" (vijñapti-mātra), que foi descrita como uma forma de "idealismo epistemológico", fenomenologia e próxima ao idealismo transcendental de Immanuel Kant. Além disso, escreveu diversos comentários, obras sobre lógica, argumentação e poesia devocional.

Vasubandhu é um dos pensadores mais influentes da tradição filosófica budista indiana. Por sua associação com a universidade de Nalanda, Vasubandhu e Asanga estão entre os chamados Dezessete Mestres de Nalanda. No Jōdo Shinshū, é considerado o Segundo Patriarca; no Budismo Chan, é o 21.º Patriarca.

Vida e obras Diferentes fontes apontam lugares distintos como local de nascimento de Vasubandhu. Xuanzang afirma que Vasubandhu nasceu em Gandhara, enquanto Buton Rinchen Drup o situa na Índia Central. O nome de Vasubandhu significa "o Parente da Abundância". O budismo tibetano considera os dois irmãos parte dos seis grandes comentaristas indianos denominados os "Seis Ornamentos". Era contemporâneo de Chandragupta I, pai de Samudragupta. Essa informação situa temporalmente este Vasubandhu no século IV d.C.Dharma Fellowship (2005). Yogacara Theory - Part One: Background History. Fonte: (Acessado em: 15 de novembro de 2007) A biografia mais antiga de Vasubandhu foi traduzida para o chinês por Paramārtha (499–569).Takakusu, J., trad. (1904). The Life of Vasubandhu por Paramārtha, T'oung-pao 5, 269–296

Vasubandhu inicialmente estudou na escola budista Sarvāstivāda (também chamada Vaibhāṣika, que sustentava o comentário Mahavibhasa), dominante em Gandhara, e posteriormente se mudou para Caxemira para estudar com os chefes do ramo ortodoxo Sarvastivada lá existente.Lusthaus, Dan; Vasubandhu Após regressar ao lar, lecionou sobre o Abhidharma e compôs a Abhidharmakośakārikā (Versos sobre o Tesouro do Abhidharma), uma destilação em verso dos ensinamentos Abhidharma Sarvastivada, que consistia em uma análise de todos os fatores da experiência em seus dharmas constituintes (eventos fenomenais). Contudo, Vasubandhu já havia começado a questionar a visão Sarvāstivāda-Vaibhāṣika há algum tempo, tendo estudado com o mestre Sautrāntika, Manoratha. Assim, seu autocomentário aos versos do Abhidharma por vezes critica o sistema Vaibhāṣika sob um ponto de vista Sautrāntika. No entanto, a obra não é sempre crítica do Vaibhāṣika, defendendo em alguns casos a posição Vaibhasika ortodoxa.Vasubandhu; Lodrö Sangpo; La Vallée Poussin, Louis de (2012). Abhidharmakośa-Bhāṣya of Vasubandhu: the treasury of the Abhidharma and its (Auto) commentary. Delhi, Índia. pp. 1191–1192. ISBN 978-81-208-3607-5. O Abhidharmakośa permanece a principal fonte de estudos do Abhidharma tanto no budismo tibetano quanto no budismo do leste asiático.Lamotte, Etienne (2001), Karmasiddhi Prakarana: The Treatise on Action by Vasubandhu, tradução para o inglês por Leo M. Pruden, Asian Humanities Press

Diz-se que Vasubandhu posteriormente se converteu às crenças Mahayana sob a influência de seu irmão Asanga, ocasião em que compôs uma série de tratados Yogacara e comentários a sutras Mahayana. Algumas de suas obras Mahayana mais influentes foram os Vinte Versos sobre a Consciência Apenas (Vimśatikāvijñaptimātratāsiddhi), com seu comentário (Viṃśatikāvṛtti), os Trinta Versos sobre a Consciência Apenas (Triṃśikā-vijñaptimātratā) e seu Discurso sobre a Terra Pura (Jìngtǔ lùn 浄土論). Os Trinta Versos são a base do Cheng Wei Shi Lun de Xuanzang, uma das fontes mais importantes no Budismo Yogacara do Leste Asiático. Seu tratado sobre a Terra Pura também foi muito influente no Budismo da Terra Pura do Leste Asiático.

Na Índia, Vasubandhu tornou-se conhecido como um grande mestre, erudito e debatedor Mahayana. É relatado que derrotou filósofos Samkhya em debate diante do rei Gupta "Vikramaditya" (identificado de diversas formas como Chandragupta II ou Skandagupta) em Ayodhya, sendo recompensado com 300.000 peças de ouro. Vasubandhu utilizou o dinheiro obtido com o patrocínio real e com as vitórias em debates para construir mosteiros e hospitais budistas.

Segundo relatos tradicionais, Vasubandhu faleceu durante uma visita a Ayodhya, aos 100 anos de idade.

Obras atribuídas Vasubandhu foi um prolífico autor de tratados e comentários budistas. Uma lista de suas principais obras inclui:

Tratados Viṃśatikā-vijñaptimātratāsiddhi (Vinte Versos Demonstrando a Consciência Apenas) Triṃśikā-vijñaptimātratā (Trinta Versos sobre a Consciência Apenas) Pañcaskandhaprakaraṇa (Explicação dos Cinco Agregados) Karmasiddhiprakarana (Um Tratado sobre o Estabelecimento do Karma)Keenan, John, P., trad. (2017). Mahayana Demonstration on the Theme of Action, em: Three Short Treatises by Vasubandhu, Sengzhao, and Zongmi, Bukkyo Dendo Kyokai America, pp. 5–46. ISBN 978-1-886439-66-5 Vyākhyāyukti (Modo Correto de Exposição), um texto sobre Hermenêutica Budista Vādavidhi (Regras para o Debate), um texto de teoria epistemológica formal (pramana) e debate *Mahāyāna śatadharmā-prakāśamukha śāstra (Baifa mingmen lun 百法明門論, Introdução Lúcida às Cem Dharmas, T 1614) Trisvabhāva-nirdeśa (Exposição sobre as Três Naturezas) — alguns estudiosos questionam a atribuição deste texto a Vasubandhu (ou ao menos argumentam que se trata de uma obra tardia que difere em vários aspectos de outras obras).McNamara, Daniel (2011). "On the Status of the Trisvabhāvanirdeśa in Contemporary Conceptions of Yogācāra Thought." Paramārthasaptati, uma crítica à filosofia Samkhya

Comentários Catuhśataka-śāstra (Um comentário sobre os Quatrocentos Versos de Aryadeva) Mahāyānasaṃgraha-bhāṣya (Comentário ao Resumo do Grande Veículo de Asanga) Dharmadharmatāvibhāga-vṛtti (Comentário sobre Distinguindo Elementos da Realidade) Madhyāntavibhāga-bhāṣya (Comentário sobre Distinguindo o Meio dos Extremos) Mahāyānasūtrālaṃkāra-bhāṣya (Comentário sobre o Ornamento dos Discursos do Grande Veículo), cuja atribuição foi questionada por alguns estudiosos.D'AMATO, M. "THREE NATURES, THREE STAGES: AN INTERPRETATION OF THE YOGĀCĀRA 'TRISVABHĀVA'-THEORY." Journal of Indian Philosophy, vol. 33, n.º 2, 2005, pp. 185–207. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/23497001. Acessado em 16 de fevereiro de 2024. Amitayus sutropadeśa (Instrução sobre o Sukhāvatīvyūha Sūtra), também chamado "Discurso sobre a Terra Pura" (Jìngtǔ lùn 浄土論). Dasabhūmika-bhāsya (Comentário ao Sutra dos Dez Estágios) Comentário ao Aksayamatinirdesa-sutra Comentário ao Sutra do Diamante Comentário ao Sutra de Lótus Tratado sobre o Sutra do Nirvana (Nirvāṇaśāstra, Ch: Niepan Lun 涅槃論 T1527), traduzido por Dharmabodhi

Teoria dos Dois Vasubandhus Erich Frauwallner, budologista de meados do século XX, procurou distinguir dois Vasubandhus — um Yogācārin e outro Sautrāntika —, mas essa visão caiu em grande parte em desuso, em parte com base no anônimo Abhidharma-dīpa, uma crítica à Abhidharmakośakārikā que identifica claramente Vasubandhu como o único autor de ambos os grupos de escritos. Segundo Dan Lusthaus, "Dado que a progressão e o desenvolvimento de seu pensamento ... são tão marcadamente evidentes nessas obras, e a semelhança de vocabulário e estilo de argumentação tão aparente entre os textos, a teoria dos Dois Vasubandhus tem pouco mérito."Dan Lusthaus, "What is and isn't Yogacara.". O consenso acadêmico sobre essa questão afastou-se geralmente da posição dos "dois autores" de Frauwallner.

Filosofia miniatura|Vasubandhu: Madeira, 186 cm de altura, cerca de 1208, Templo Kofukuji, Nara, Japão Abhidharma Os Versos sobre o Tesouro do Abhidharma de Vasubandhu contêm uma descrição de todas as 75 dharmas (eventos fenomenais) e delineiam toda a doutrina Sarvastivada, incluindo "práticas meditativas, cosmologia, teorias da percepção, teorias causais, as causas e a eliminação de problemas morais, a teoria do renascimento e as qualidades de um Buda".Lusthaus, Vasubandhu O Tesouro e seu comentário também expõem todos os tipos de argumentos relativos ao Sarvastivada Abhidharma e criticam esses argumentos sob uma perspectiva Sautantrika no comentário. Os principais argumentos incluem uma extensa crítica ao Ser (Atman e Pudgala) e uma crítica à teoria Sarvastivada da "existência das dharmas dos três períodos temporais [passado, presente e futuro]". No Tesouro, Vasubandhu também argumentou contra um Deus Criador (Ishvara) e contra a teoria Sarvastivada de avijñaptirūpa ("fisicalidade não percebida" ou "fisicalidade invisível").

Crítica ao eu A crítica de Vasubandhu ao eu é uma defesa da doutrina budista do Anatman e também uma crítica à Escola Personalista Budista e à visão hindu da alma. Tem por objetivo demonstrar a irrealidade do eu ou da pessoa como algo além dos cinco skandhas (agregados que constituem um indivíduo). Vasubandhu começa delineando o motivo soteriológico de seu argumento, escrevendo que qualquer visão que enxergue o eu como tendo realidade independente (como a visão hindu) não é propícia ao Nirvana.

Vasubandhu então avalia a ideia do Eu a partir de bases epistêmicas (Pramana). Vasubandhu afirma que o que é real só pode ser conhecido pela percepção (Pratyakṣa) ou pela inferência (Anumāṇa). A percepção permite observar diretamente os objetos das seis esferas sensoriais. A inferência permite inferir a existência dos órgãos sensoriais. Contudo, não existe tal inferência para um Eu sólido e real, separado do fluxo de percepções sensoriais e da atividade mental das esferas sensoriais, em constante mudança.

Vasubandhu também argumenta que, por não ser causalmente eficaz, o Eu é mera convenção (prajñapti) e uma "construção conceitual" (parikalpita). Esse argumento se dirige principalmente à escola budista Pudgalavada, que sustentava uma visão de "pessoa" dependente dos cinco agregados, mas também distinta deles, de forma a dar conta da continuidade da personalidade. Vasubandhu considera isso ilógico: para ele, o Eu é composto de órgãos sensoriais, impressões sensoriais, ideias e processos mentais em constante mudança. Qualquer unidade imaginada de identidade é uma falsa projeção.

Vasubandhu também utiliza essa análise do fluxo de consciência para atacar visões hindus não budistas do Atman. Vasubandhu demonstra que a visão hindu do Eu como "controlador" é refutada por uma análise do fluxo e da desordem dos eventos mentais e pela incapacidade do suposto Eu de controlar nossa mente e pensamentos da maneira que desejaríamos. Se o Eu é verdadeiramente um agente eterno e não causado, deveria ser inafetável por meras causas físicas e mentais, e também parece difícil explicar como tal força, existindo independentemente fora da mente, poderia interagir causalmente com ela. Vasubandhu também responde a várias objeções comuns à visão budista da não-identidade, como de que modo o karma funciona sem um Eu e o que exatamente passa pelo renascimento. Vasubandhu aponta para o contínuo causal de agregados/processos que sofre diversas mudanças levando a futuros eventos kármicos e ao renascimento.

Impermanência