miniaturadaimagem|Pôster do filme Alma no Olho (1973) de Zózimo Bulbul. Cinema Negro é um movimento cinematográfico e audiovisual consolidado a partir da década de 1960, voltado à valorização do protagonismo negro e à representação das vivências, experiências, culturas e histórias negras. Além de reivindicar o protagonismo de personagens negros em cena, o movimento também reivindica a atuação de realizadores negros em funções como direção, roteiro, produção e crítica, buscando romper com estereótipos historicamente difundidos pelo cinema hegemônico e desenvolver novas linguagens narrativas e visuais a partir da afirmação da cultura negra.
História
O Cinema Negro teve seus primeiros indícios em uma das referências que remonta 1912, quando William D. Foster lançou The Railroad Porter, considerado precursor dos race filmes, circuito de filmes produzidos para o público negro nos Estados Unidos em oposição à indústria dominante. Nesse contexto, destacou-se também Oscar Micheaux, pioneiro na elaboração de obras que confrontavam representações racistas da
população negra.
Na África, no Caribe e na América Latina, a noção de Cinema Negro fortaleceu-se a partir da década de 1960, articulada às lutas anticoloniais, aos processos de independência africana e aos movimentos negros internacionais. O cinema passou a ser compreendido como ferramenta estética e política capaz de questionar o colonialismo, o racismo e a exclusão cultural.
No Brasil, debates raciais aparecem em obras anteriores à consolidação do movimento, como Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, Barravento, de Glauber Rocha, e Ganga Zumba, filme de Cacá Diegues. Essas produções, ligadas ao cinema novo, contribuíram para discussões sobre desigualdade racial e para críticas ao mito da democracia racial. O movimento, influenciado pelo neorrealismo italiano e pela nouvelle vague francesa, defendia produções de baixo orçamento, filmagens em locações reais e forte crítica social. No entanto, os primeiros diretores negros brasileiros foram José Rodrigues Cajado Filho e Haroldo Costa e não tiveram nada a ver com movimentos cinematograficos europeus. Cajado Filho trabalhou em mais de 70 filmes com os principais realizadores de chanchadas. Dirigiu os filmes: Estou ai, O falso detetive, Todos por um, Ai vem a alegria e E o mundo se diverte. Além de ter escrito os principais sucessos produzidos na Cia Atlântida Cinematográfica por Carlos Manga, como por exemplo, O homem do Sputnik. Já o outro cineasta negro, Haroldo Costa, dirigiu o filme Pista de grama em 1958, sua única produção.
Apesar da relevância crítica do Cinema Novo, seus principais realizadores eram majoritariamente homens brancos de classe média. Embora muitos filmes tematizassem a população negra, a direção e os roteiros permaneciam, em grande parte, sob controle de cineastas brancos, o que motivou questionamentos posteriores sobre autoria, representação e estereótipos raciais.
Em 1965, o crítico e cineasta David Neves apresentou, em Gênova, o texto O Cinema de Assunto e Autor Negros no Brasil, no qual observava a recorrência do “assunto negro” sem a presença significativa de diretores negros. A formulação tornou-se referência para debates posteriores sobre representação racial no audiovisual brasileiro.
Na década de 1970, Zózimo Bulbul tornou-se figura central ao dirigir Alma no Olho, considerado marco do cinema negro brasileiro. Inspirado no movimento negro, Black is beautiful (em português, Negro é lindo), movimento cultural iniciado nos Estados Unidos da América na década de 1960 por afro-americanos. O curta utiliza performance corporal e linguagem experimental para narrar a experiência negra e denunciar violências históricas. Embora não tenha sido o primeiro negro a dirigir no país, Bulbul foi reconhecido como pioneiro ao assumir explicitamente uma autoria negra vinculada à sua obra.
No mesmo período, críticas ao cinema novo intensificaram-se. Intelectuais como Beatriz Nascimento questionaram representações estereotipadas da mulher negra em filmes como Xica da Silva de Carlos Diegues. O debate evidenciava que abordar personagens negros não significava necessariamente produzir um cinema comprometido com perspectivas negras.
Influência A partir dos anos 2000, a expressão Cinema Negro Brasileiro consolidou-se para designar um movimento plural e diverso em estéticas, formatos e trajetórias, unido pela crítica ao olhar colonial e à hegemonia branca no audiovisual. O movimento busca ampliar oportunidades de trabalho para profissionais negros, valorizar memórias históricas e produzir narrativas centradas em vivências negras. miniaturadaimagem|244x244px|Livro: Cinema negro - educação, arte, antropologia, 2021. Entre cineastas contemporâneos destacam-se Joel Zito Araújo, diretor de "A Negação do Brasil"; Viviane Ferreira, diretora de "Um Dia com Jerusa"; Jeferson De, autor do manifesto "Dogma Feijoada"; Sabrina Fidalgo; Yasmin Thayná, diretora de “Virginia e Adelaide; Joyce Prado, que recebeu o prêmio do júri de melhor vídeo em formato estendido no Music Video Festival Awards de 2020 por "Bom mesmo é dormir debaixo d'água" produzido para Luedji Luna; André Novais Oliveira, sócio-fundador da produtora Filmes de Plástico e Lázaro Ramos, diretor de "Medida Provisória".
Também são referências importantes atores e atrizes que ampliaram a presença negra no audiovisual brasileiro, como Grande Otelo, Ruth de Souza, Léa Garcia, Zezé Motta, Adélia Sampaio, Antônio Pitanga, Camila Pitanga, Taís Araújo e Lázaro Ramos.
Produções Academicas
As teorias sobre o cinema negro avançaram nas principais universidades brasileiras. Os professores dos cursos de Ciências Sociais e Cinema avançaram com teorias sobre o cinema negro. Vale destacar os trabalhos de Noel Carvalho (Unicamp), Edileuza Penha de Souza (UNB), Celso Prudente (UFMT), Janaina Oliveira (IFRJ), Pedro Lapera (UFF) entre outros. Muitos artigos, livros, teses e dissertações têm se dedicado ao cinema negro.
As produções acadêmicas também exercem um papel relevante na sistematização de memórias, na formulação crítica e na ampliação da legitimidade desse campo audiovisual. A articulação entre universidades, centros de pesquisa e mostras cinematográficas contribuiu para consolidar o cinema negro como objeto de estudo e como linguagem estética e política. A Faculdade de Educação da USP, por exemplo e o Núcleo de Estudos de Pesquisas Interdisciplinares criaram linhas de pesquisa sobre o Negro Brasileiro.
Dessa forma, as pesquisas desenvolvidas nos campos da Educação, das Artes, da Antropologia e da Comunicação passaram a analisar questões como autoria negra, representação racial, colonialidade das imagens, gênero, religiosidade, infância e diáspora africana no audiovisual. Esse movimento favoreceu a criação de bibliografias, arquivos, debates públicos e eventos especializados, ampliando a circulação de conhecimentos sobre o tema.
A aproximação entre academia e produção cultural também estimulou festivais, mostras e publicações dedicadas ao Cinema Negro, fortalecendo redes entre pesquisadores e realizadores. Dessa forma, a universidade tornou-se espaço estratégico para reconhecer trajetórias historicamente invisibilizadas, apoiar novas produções e contribuir para a consolidação do Cinema Negro como campo artístico, intelectual e político.
Assim, o Cinema Negro constitui simultaneamente um campo artístico, intelectual e político, cuja existência responde à histórica exclusão racial no audiovisual e afirma o direito de pessoas negras narrarem suas próprias histórias, produzindo novas imagens, memórias e perspectivas de futuro.
Encontro de Cinema Negro O Centro AfroCarioca de Cinema é uma instituição cultural fundada pelo cineasta Zózimo Bulbul em 2007, no Rio de Janeiro, dedicada à promoção da cultura afro-brasileira e ao desenvolvimento de atividades ligadas ao cinema e às artes. Sua atuação concentra-se na valorização das produções cinematográficas brasileiras, africanas e caribenhas, entendidas como instrumentos de formação cultural, transmissão de saberes, qualificação técnica e inclusão profissional.
Localizado no bairro da Lapa (Rio de Janeiro), o centro realiza oficinas, debates, seminários, mostras de filmes, lançamentos de livros e outras ações voltadas à difusão cultural. Entre seus objetivos estão o resgate histórico a partir do protagonismo negro, o reconhecimento da diversidade da cultura brasileira e a valorização da oralidade de matrizes africanas.
A instituição também se destaca pelo incentivo ao intercâmbio cultural entre Brasil e países africanos, especialmente por meio do evento Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe, que reúne cineastas e artistas de diferentes países. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como referência nacional e internacional na promoção do cinema negro, da memória e da formação de novos profissionais do audiovisual.
Ver também
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