O Escritório Naval Imperial (em alemão: Reichsmarineamt) foi uma agência governamental do Império Alemão estabelecido em abril de 1889 depois da dissolução do Almirantado Imperial e divisão de suas funções. O escritório era responsável por lidar com as questões administrativas da Marinha Imperial Alemã, incluindo construção e manutenção da frota, bem como aprovação de orçamentos. Era chefiada por um Secretário de Estado subordinado ao Chanceler, mas tinha contato direto com o Imperador. Apesar de originalmente não desempenhar questões estratégicas, o poder do escritório cresceu após 1899 com a abolição do Alto Comando da Marinha. Era dividido em diversos departamentos que supervisionavam todas as funções sob a direção do órgão.
Em seus primeiros anos, o escritório conseguiu aprovação tanto de navios grandes quanto de navios menores, uma reflexo de uma confusão estratégica causada pela Jeune École. O contra-almirante Friedrich Hollmann, o segundo Secretário de Estado, assumiu em 1890 e teve grandes dificuldades pelos sete anos seguintes de articular uma visão clara para a Marinha Imperial e consequentemente conseguir aprovação para navios grandes. Foi substituído em 1897 pelo contra-almirante Alfred von Tirpitz, que era a favor de uma poderosa frota centrada em couraçados, trabalhando para aumentar a importância do órgão e garantir navios futuros por meio de várias Leis Navais. O escritório naval foi abolido em 1919 depois da derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
Criação O Império Alemão foi fundado em 1871 e a estrutura de comando da Marinha Imperial ficou com o Almirantado Imperial. O imperador Guilherme II aboliu o almirantado no final de março de 1889 e em seu lugar criou três órgãos: O Alto Comando Naval, o Gabinete Naval e o Escritório Naval Imperial em 20, 28 e 30 de março, respectivamente. Esses departamentos reportavam-se diretamente a Guilherme, que mantinha o poder como comandante da marinha. O vice-almirante Max von der Goltz foi nomeado o primeiro chefe do alto comando, o capitão de mar Gustav von Senden-Bibran o chefe do gabinete e o contra-almirante Karl Eduard Heusner o secretário de estado do escritório.
Função O comando naval exercia o controle operacional da frota, desenvolvia estratégias e doutrinas táticas e organizava os exercícios de treinamento anuais. O gabinete aconselhava Guilherme e planejava nomeações de oficiais para vários postos. O escritório naval cuidava de questões administrativas, incluindo construção e manutenção da frota. O controle do escritório naval ficava com um Secretário de Estado, que era subordinado ao Chanceler, porém ele tinha uma audiência direta com o imperador. Como originalmente concebida, a agência não desempenharia papel algum em questões estratégicas ou como os navios da frota seriam usados. Uma de suas principais responsabilidades era garantir a aprovação do projeto de lei de apropriações navais anual na Dieta Imperial, o que exigia a apresentação dos gastos planejados para debate parlamentar.
O então contra-almirante Alfred von Tirpitz foi nomeado para o cargo de Secretário de Estado em 1897, iniciando uma campanha para reduzir o poder do alto comando e fortalecer a sua posição na estrutura de comando naval. Ele inicialmente tentou e fracassou em abolir completamente o órgão, mas conseguiu dois anos depois convencer Guilherme a reorganizar o departamento de acordo com suas próprias ideias. O Alto Comando da Marinha foi consequentemente abolido em março de 1899 e boa parte de suas responsabilidades de comando foram transferidas para o recém criado Estado-Maior do Almirantado Naval, porém o controle tático ficou com o comandante geral da frota alemã. Esta estrutura de comando fragmentada da frota criou espaço para que Tirpitz exercesse pessoalmente maior influência em questões operacionais.
Organização thumb|esquerda|250px|Antigo edifício sede do Escritório Naval Imperial em Bendlerblock, Berlim O Escritório Naval Imperial era formado por vários departamentos que supervisionavam todas as funções sob a direção do órgão, com esses crescendo em número e tamanho pelo decorrer de sua existência. Os departamentos incluíam:
Departamento Central (M) Departamento de Estaleiros (B) Departamento Administrativo (C) Departamento de Armamentos (W) Departamento Médico (G) Escritório de Notícias (N) Departamento Geral da Marinha (A) Departamento de Construção (K) Departamento Náutico (H) Departamento Jurídico (J)
O Departamento Administrativo coordenava a construção de navios entre os vários elementos envolvidos, como especialistas técnicos, oficiais navais e estaleiros públicos e particulares. Reuniões periódicas eram organizadas para monitorar progressos em programas de construção, questões orçamentárias e esforços de pesquisa; compareciam representantes de todos os departamentos do Escritório Naval Imperial. O Departamento de Construção supervisionava diretamente o projeto e construção de novas embarcações. Ele por sua vez era subdividido em quatro ramos: "KI", que cobria os processos gerais de construção; "KII", que coordenava com estaleiros e outros contratantes de maquinários; "KIII", que organizava os testes iniciais e testes marítimos dos navios recém construídos; e "KIV", que monitorava a construção dos navios a fim de garantir que os devidos protocolos estavam sendo seguidos. O Departamento de Construção também mantinha um inspetoria para tais supervisões, trabalhando junto do Departamento Técnico nessa questão.
Outros departamentos incluíam o Escritório de Notícias, que era usado para disseminar propaganda pró-expansão naval para os grandes programas de construção da época de Tirpitz no comando. O Departamento Orçamentário avaliava a viabilidade de programas de construção em relação aos orçamentos aprovados, também interagindo com a Dieta Imperial para conseguir o orçamento necessário. O Escritório de Compras controlava a emissão de contratos com os vários estaleiros e fabricantes de componentes, coordenado com a inspetoria do Departamento de Construção a fim de garantir que os materiais fornecidos por essas empresas cumpriam as exigências.
A sede do Escritório Naval Imperial ficou entre 1914 e 1919 no complexo de edifícios Bendlerblock na Praça Leipziger em Berlim, compartilhando o mesmo prédio com o Estado-Maior do Almirantado e o Gabinete Naval. O escritório naval ficava no edifício principal, enquanto os outros dois departamentos ocupavam o anexo lateral da direita.
História Primeiros anos thumb|170px|Guilherme II em 1888 Heusner, o primeiro secretário de estado, conseguiu a aprovação de um orçamento naval significativamente expandido para o ano fiscal de 1890–1891, mas renunciou logo em abril de 1890 por causa de complicações de uma infecção que tinha pego em 1887 enquanto estava na África. Os navios para os quais ele havia conseguido financiamento eram de diferentes tipos, incluindo os quatro couraçados da Classe Brandenburg, vários navios de defesa de costa da Classe Siegfried e cruzadores pequenos e grandes. Estas embarcações representavam a confusão estratégica do final da década de 1880 e início da década de 1890, que tinha sido criada pela popularidade da Jeune École na França. Esta doutrina enfatizava ataques corsários contra navios comerciais e barcos torpedeiros para defesa costeira contra um inimigo equipado com couraçados caros.
O contra-almirante Friedrich Hollmann foi o substituto de Heusner, porém ele carecia de habilidades administrativas e de uma visão clara sobre a direção que a Marinha Imperial deveria seguir. Ele frequentemente fracassou em conseguir dinheiro para mais couraçados durante seus sete anos no cargo, parcialmente por sua incapacidade de articular um plano claro para os parlamentares. Hollmann mesmo assim conseguiu financiamento para construir vários cruzadores e navios de defesa de costa. Dinheiro para novos couraçados finalmente foram disponibilizados em 1895, a Classe Kaiser Friedrich III, bem como para quatro cruzadores grandes. Nesta altura, oposição contra o mandato de Hollmann tinha crescido consideravelmente, porém sua demissão foi temporariamente evitada por conta da encomenda desses navios, que eram apoiados por Guilherme.
Tirpitz começou na década de 1890 sua campanha para focar o desenvolvimento da frota alemã em uma força com um grande número de couraçados, em oposição à Jeune École. Isto era de acordo com as ideias do capitão estadunidense Alfred Thayer Mahan, expressadas em seu livro The Influence of Sea Power upon History. Tirpitz era o chefe do estado-maior do chefe do Alto Comando Naval, primeiro de Goltz e depois do almirante Eduard von Knorr, onde tinha influência sobre o uso operacional da frota mas nenhum poder sobre os projetos de construção, apesar de vários escritos sobre a questão. Suas opiniões mesmo assim chegaram a Guilherme em 1895, que respondeu favoravelmente. O imperador exigiu de Hollmann no início do ano seguinte uma proposta para uma frota grande de acordo com os pensamentos de Tirpitz, com este sendo enviado para comandar a Divisão da Ásia Oriental a fim de reforçar suas credenciais para sua eventual promoção a substituto de Hollmann.
Hollmann conseguiu convencer a Dieta Imperial a autorizar um segundo couraçado da Classe Kaiser Friedrich III e várias embarcações menores para o ano fiscal de 1896–1897, porém ao final do ano ficou convencido que o grande plano de Guilherme não tinha possibilidade de ser aprovado. Sua proposta de orçamento para 1897–1898, que incluía um terceiro couraçado, enfrentou grande resistência, porém o couraçado foi aprovado ao custo de reduções em outros projetos de construção. Este fracasso em conseguir convencer a Dieta Imperial fez Hollmann pedir demissão em 30 de março de 1897; Tirpitz, que ainda estava na Ásia, foi nomeado como seu substituto no dia seguinte.
Era Tirpitz thumb|esquerda|170px|Tirpitz em 1916 Knorr elaborou em abril de 1897 uma versão preliminar daquilo que se tonaria a primeira Lei Naval, que pedia por uma frota de 25 couraçados, oito cruzadores blindados, 46 cruzadores menores e mais de cem barcos torpedeiros, dentre outras embarcações, até 1910. Além disso, havia uma provisão que os couraçados deveriam ser substituídos a cada 25 anos, removendo a necessidade de aprovação parlamentar para cada substituto. Tirpitz chegou em Berlim em junho e apresentou sua própria versão da lei, aumentando em dois o número total de couraçados e fazendo outras mudanças para a estrutura da força, incluindo acelerar o ritmo da construção naval e estabelecer o prazo para 1905. Ele então iniciou uma campanha de relações públicas a fim de aumentar seu apoio, especialmente entre as elites das cidades Hanseáticas de Hamburgo, Bremen e Lübeck, que historicamente eram contra expansão naval. Também se encontrou com parlamentares poderosos, incluindo Ernst Lieber, o líder do Partido do Centro. O projeto de lei foi aprovado por uma pequena margem em 10 de abril de 1898, mas foi uma grande vitória para Tirpitz. Mais dois couraçados da Classe Kaiser Friedrich III foram encomendados imediatamente, seguidos pouco depois pelos cinco membros da Classe Wittelsbach.