O lufenurão é um composto químico pertencente à classe das benzoilureias, amplamente utilizado na medicina veterinária e na agricultura como um potente regulador do crescimento dos insetos (IGR). A sua principal característica farmacodinâmica reside na inibição da síntese de quitina, um polímero de N-acetilglucosamina que constitui o principal componente estrutural do exosqueleto rígido dos artrópodes. Diferente dos inseticidas convencionais que atuam no sistema nervoso, o lufenurão não mata o inseto adulto por contacto direto imediato, mas interfere criticamente no processo de ecdise (muda), impedindo que as larvas consigam desenvolver um novo exosqueleto funcional após a descamação do antigo, o que invariavelmente resulta na morte do organismo durante as fases juvenis de desenvolvimento.
No contexto da clínica de pequenos animais, o lufenurão é frequentemente administrado por via oral ou injetável a cães e gatos para o controlo de populações de pulgas (Ctenocephalides felis). Após a ingestão, o composto é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal e armazenado no tecido adiposo do animal, sendo gradualmente libertado na corrente sanguínea ao longo de várias semanas. Quando uma pulga fêmea pica o hospedeiro e ingere o sangue contendo o fármaco, este é transferido para os seus ovos; consequentemente, a síntese de quitina nos embriões é bloqueada, impedindo a eclosão ou resultando em larvas inviáveis que não conseguem progredir para o estado de pupa. Esta abordagem é considerada uma estratégia de «controlo de natalidade» de parasitas, sendo extremamente eficaz na interrupção do ciclo de vida ambiental da pulga, embora muitas vezes exija a combinação com adulticidas se o animal já apresentar uma infestação severa e sintomática.
Para além da sua aplicação entomológica, o lufenurão tem demonstrado propriedades antifúngicas significativas, uma vez que a quitina é também um componente essencial da parede celular de muitos fungos patogénicos. Na medicina veterinária, tem sido explorado como um tratamento adjuvante para dermatofitoses, como a tinha causada por Microsporum canis, embora a sua eficácia absoluta neste campo seja alvo de debate académico e varie conforme o protocolo utilizado. A sua segurança farmacológica é considerada elevada para os mamíferos, dado que estes organismos não sintetizam quitina e, portanto, carecem dos alvos moleculares sobre os quais o fármaco atua. Os efeitos adversos em animais domésticos são raros, geralmente limitando-se a distúrbios gastrointestinais leves ou reações no local da injeção, o que o torna uma escolha popular para programas de prevenção a longo prazo.
Na agricultura, o lufenurão é aplicado no controlo de pragas de Lepidoptera e Coleoptera que atacam culturas de citrinos, algodão, milho e hortícolas. A sua seletividade é uma vantagem ecológica considerável, pois apresenta uma toxicidade relativamente baixa para insetos polinizadores e predadores naturais quando comparada com organofosforados ou piretroides de largo espetro. No entanto, devido à sua persistência ambiental e elevada lipofilia, o lufenurão é rigorosamente regulamentado para evitar a bioacumulação em cadeias alimentares aquáticas, onde pode ser tóxico para pequenos crustáceos e outros invertebrados que dependem da quitina. O estudo contínuo das suas propriedades químicas visa otimizar a sua biodisponibilidade e reduzir o impacto ecológico, mantendo a sua eficácia como uma ferramenta indispensável na gestão integrada de pragas.
Referências
https://medicines.health.europa.eu/veterinary/lv/documents/download/e03d28e0-0e55-464c-9ac5-60acf92c9279
https://www.fao.org/fileadmin/templates/agphome/documents/Pests_Pesticides/JMPR/Report2015/LUFENURON.pdf
https://www.adapar.pr.gov.br/sites/adapar/arquivos_restritos/files/documento/2022-01/lufenuronnortox.pdf https://sds.edqm.eu/pdf/SDS/EDQM_201600539_1.0_SDS_PT.pdf?ref=1531651660 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/32-2006-683842
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