A ética do cuidado na arte contemporânea é um campo de pesquisa emergente que examina como a ética do cuidado da forma à prática artística, à metodologia e à cultura institucional, articulando a filosofia feminista, as práticas coletivas e a crítica política na arte contemporânea.

Definição Desenvolvida por teóricas feministas desde a década de 1980, a ética do cuidado enfatiza a relacionalidade, a interdependência e a responsabilidade para com os outros como fundamentos da vida moral. Na arte contemporânea, esses princípios são reformulados em práticas de criação, coletivas e materiais que formatam a maneira como as obras são produzidas, disseminadas e recebidas.

As práticas artísticas interseccionais baseadas no cuidado priorizam o processo em relação ao produto e a manutenção coletiva em relação à autoria individual. Elas se baseiam em perspectivas feministas, interseccionais e ecológicas para oferecer modos de criação enraizados no apoio mútuo, na vulnerabilidade e no conhecimento situado.

História

Contexto teórico A ética do cuidado surgiu na filosofia feminista como uma crítica aos modelos éticos abstratos e individualistas, argumentando que as relações éticas estão enraizadas em contextos concretos e relações de poder. Sua aplicação à arte contemporânea se baseia em três principais fontes teóricas.

Carol Gilligan, em "Uma voz diferente" (1982), estabelece a distinção fundamental entre uma ética de justiça, baseada nos direitos individuais e na imparcialidade, e uma ética de cuidado, baseada nos relacionamentos, na responsabilidade e na empatia.

Joan C. Tronto (1993), baseando-se em trabalhos anteriores com Berenice Fisher, define o cuidado como uma atividade política que abrange todas as práticas necessárias para manter, perpetuar e reparar o mundo. Ela identifica quatro fases: cuidar (reconhecer uma necessidade), assumir o controle (assumir a responsabilidade), cuidar (responder à necessidade) e receber cuidado (observar a resposta), ao qual ela acrescenta uma quinta dimensão de solidariedade coletiva e cidadania (2013). Essas fases foram adotadas por teóricos e praticantes da arte para descrever a dinâmica relacional de projetos de arte socialmente engajados.

María Puig de la Bellacasa, em Matters of Care (2017), estende a teoria do cuidado para além do humano, situando-a em estruturas ecológicas e mais-que-humanas. Ela define o cuidado como simultaneamente trabalho, afeto e ética/política. Sua perspectiva pós-humanista e materialista influenciou práticas artísticas relacionadas ao cuidado ambiental, relações interespecíficas e a agência de entidades não humanas.

Práticas artísticas pioneiras Uma das primeiras e mais influentes contribuições artísticas para a ética do cuidado é a obra da artista americana Mierle Laderman Ukeles . Seu Manifesto para uma Arte da Manutenção — Proposta para uma Exposição “CUIDADOS", 1969 (tradução do Manifesto em inglês! ARTE DA MANUTENÇÃO – Proposta para uma Exposição "CUIDADO", 1969) Ukeles, Mierle Laderman. (1969). Manifesto for Maintenance Art 1969! https://queensmuseum.org/wp-content/uploads/2016/04/Ukeles-Manifesto-for-Maintenance-Art-1969_5-pages.pdf questiona a valorização do "desenvolvimento" criativo: Inovação, progresso, genialidade individual; em detrimento do manutenção: preservação, repetição, reparo. Ukeles argumenta que o trabalho de manutenção, historicamente feminizado e mal remunerado, é um ato vital e criativo que merece reconhecimento como arte. Seu trabalho é reconhecido por ter antecipado práticas artísticas feministas e ecológicas subsequentes, bem como a mudança institucional em direção a estruturas baseadas no cuidado.

O foco de Ukeles no cuidado como tema artístico faz parte de uma tradição mais ampla de prática artística feminista que questionou a divisão de trabalho baseada no gênero e a desvalorização do trabalho reprodutivo. Artistas como Ana Mendieta e Fina Miralles exploraram a relação entre o corpo, o cuidado e o meio ambiente por meio da performance e da land art. Mais tarde, coletivos como o Group Material se engajaram na produção artística comunitária e politicamente situada, enfatizando modos de trabalho colaborativos e relacionais.

Bibliografia

GILLIGAN, Carol. Uma voz diferente: psicologia da diferença entre homens e mulheres da infância à idade adulta. Tradução de Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1982. GILLIGAN, Carol. Uma voz diferente. Tradução de Renan Marques Birro. Rio de Janeiro: Vozes, 2021. PUIG DE LA BELLACASA, Maria et al. O pensamento disruptivo do cuidado. Anuário Antropológico, v. 48, n. 1, 2023. Disponível em: http://journals.openedition.org/aa/10539. Acesso em: 21 abr. 2026. DOI: https://doi.org/10.4000/aa.10539. GARCIA, Carolina. Mierle Ukeles entre a arte e o trabalho de manutenção. Interseções, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2, p. 382-407, set. 2021. FOKIANAKI, Iliana. The Bureau of Care: introductory notes on the care-less and care-full. E-flux Journal, n. 113, 2020. MILLNER, Jacqueline; COOMBS, Gretchen. Care Ethics and Art. Abingdon: Routledge, 2022.

Leitura complementar

Mothering Myths: An ABC of Art, Birth and Care : livro (2025, Valiz: Amsterdã) editado por Laurie Cluitmans e Heske ten Cate, enraizado nas artes visuais, reúne uma pluralidade de vozes para questionar e desconstruir representações históricas e contemporâneas da maternidade. Com contribuições de Rosemarie Buikema, Alexis Pauline Gumbs, Camille Henrot, bell hooks, Bart Rutten e outros. Contém projetos de Isaziso, Sijben Rosa, Rineke Dijkstra, Mierle Laderman Ukeles e See Red Women's Workshop. Visible: Art As Policies for Care (2024, NERO Editions), editado por Martina Angelotti, Matteo Lucchetti e Judith Wielander, sobre arte socialmente engajada (2010–em andamento), apresentando projetos de Tania Bruguera, Forensic Architecture e Zanele Muholi, explorando a arte como uma forma de política de cuidado em relação a questões sociais, políticas e ecológicas. Radicalizing Care: Feminist and Queer Activism in Curating (2021, Berlim) : Sternberg Press) por Lesia Prokopenko, Nataša Petrešin-Bachelez, Edna Bonhomme e outros, explorando como a ética feminista e queer do cuidado informa as práticas curatoriais através de ensaios, estudos de caso e manifestos. What's Love (or Care, Intimacy, Warmth, Affection) Got to Do with It? (2017, Berlim): Publicado pela Sternberg Press e pela e-flux Books, com contribuições de Paul Chan, Martha Rosler, Fred Moten e outros, o livro examina como o cuidado, a intimidade e o desejo têm sido abordados e teorizados em práticas e escritos socialmente engajados desde 2009.

Referências

Ver também Ética do cuidado · Arte feminista · Mierle Laderman Ukeles · Ecofeminismo · Arte comunitária

Categoria:Arte Categoria:Filosofia Categoria:Feminismo interseccional Categoria:Feminismo Categoria:Sociologia