Trigona hypogea é uma espécie de abelha sem ferrão neotropical, pertencente ao gênero Trigona e à tribo Meliponini. É uma das três únicas espécies conhecidas de abelhas no mundo que são necrófagas obrigatórias, ou seja, utilizam exclusivamente carniça (tecidos de animais mortos) como fonte de proteína, em vez de pólen. Por esse comportamento incomum, São popularmente conhecidas como abelha-abutre, abelha-carniceira ou mombuca-carniceira.Roubik, D.W. (1982). "Obligate necrophagy in a social bee". Science. 217 (4564): 1059–1060. doi:10.1126/science.217.4564.1059.Camargo, J.M.F.; Roubik, D.W. (1991). "Systematics and bionomics of the apoid obligate necrophages: the Trigona hypogea group (Hymenoptera: Apidae; Meliponinae)". Biological Journal of the Linnean Society. 44 (1): 13–39. doi:10.1111/j.1095-8312.1991.tb00604.x.
Juntamente com Trigona crassipes e Trigona necrophaga, forma o chamado "grupo Trigona hypogea", cujas espécies compartilham o hábito de necrofagia obrigatória.
Taxonomia A espécie foi descrita pelo entomólogo italiano Filippo Silvestri em 1902. O comportamento necrófago obrigatório foi documentado cientificamente em 1982 por David W. Roubik. Estudos detalhados sobre a bionomia da espécie no Brasil foram realizados a partir da década de 1990, especialmente por pesquisadores como João M. F. Camargo, Fernando B. Noll, Ronaldo Zucchi e Sidnei Mateus.Noll, F.B.; Zucchi, R.; Jorge, J.A.; Mateus, S. (1996). "Food collection and maturation in the necrophagous stingless bee, Trigona hypogea (Hymenoptera: Meliponinae)". Journal of the Kansas Entomological Society. 69 (4): 287–293.
Descrição As operárias de Trigona hypogea apresentam coloração marrom-avermelhada, com poucos pelos claros no tórax, e medem entre 6 a 7 mm de comprimento. Possuem mandíbulas fortes e serrilhadas, adaptadas para rasgar carne de carcaças. As corbículas (estruturas nas pernas posteriores usadas por outras abelhas para transportar pólen) são reduzidas, refletindo a ausência de coleta de pólen. Como todas as abelhas sem ferrão, não possuem ferrão funcional para defesa, mas podem apresentar hábito defensivo ao forragear e utilizam recrutamento por feromônios para explorar recursos.
Distribuição e habitat A espécie ocorre em florestas tropicais úmidas e áreas de Cerrado da América do Sul, com registros confirmados no Brasil (Amazônia, Mato Grosso, Minas Gerais — onde ninhos foram redescobertos após 52 anos —, São Paulo e outros estados), Bolívia, Colômbia, Peru e Guianas. Os ninhos são encontrados em cavidades de árvores, barrancos ou locais subterrâneos, frequentemente com distribuição agregada.Siqueira, E.N.L. et al. (2007). "Hábitos de nidificação e distribuição de ninhos de abelhas sem ferrão em uma região do vale do Rio Araguari, Araguari-MG" (PDF). Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil.
Biologia e comportamento Diferentemente da grande maioria das abelhas, T. hypogea não coleta pólen nem néctar floral como fonte proteica principal. As forrageiras cortam pedaços de carne de carcaças de vertebrados (aves, répteis, mamíferos e até peixes) utilizando as mandíbulas fortes e transportam a carne no papo até o ninho. No interior da colônia, o material proteico regurgitado é depositado em potes de cera separados e posteriormente misturado com secreções açucaradas obtidas de frutos ou nectários extraflorais.
Essa mistura é deixada para maturar por cerca de duas semanas, transformando-se em uma substância viscosa, amarelada e doce. Os potes permanecem inicialmente abertos por cerca de um dia e depois são fechados.
O microbioma intestinal da espécie é especializado, contendo bactérias acidófilas (como *Lactobacillus* e bactérias acéticas) que auxiliam na digestão de carne em decomposição e na detoxificação de substâncias tóxicas presentes na carniça.Figueroa, L.L. et al. (2021). "Why Did the Bee Eat the Chicken? Symbiont Gain, Loss, and Retention in the Vulture Bee Microbiome". mBio.
Embora sejam necrófagas obrigatórias para proteína, as abelhas podem ocasionalmente exibir comportamento predatório, atacando crias de vespas sociais abandonadas para obter recursos proteicos adicionais.Mateus, S.; Noll, F.B. (2004). "Predatory behavior in a necrophagous bee Trigona hypogea (Hymenoptera; Apidae, Meliponini)". Naturwissenschaften. 91 (2): 94–96. doi:10.1007/s00114-003-0497-1.
Conservação Como outras abelhas sem ferrão, Trigona hypogea é sensível à perda de habitat, desmatamento e uso de agrotóxicos. Seu papel ecológico como decompositor secundário (reciclando nutrientes de carcaças) é único entre as abelhas.
Categoria:Trigona