María Loucel Viñerta (1893 – 1961) foi uma escritora, professora, sufragista e ativista salvadorenha, cuja trajetória articulou produção literária, engajamento político e ação social no século XX. Autora do livro de poemas Ilapso (1936), no qual homenageia figuras masculinas importantes, como o poeta Arturo Ambrogi (1875-1936), Augusto César Sandino, Agustín Barrios Mangoré e Hugo Lindo HolivaresLOUCEL, María. Ilapso. New York, EUA, L & S. Pitting Company, 1936, 100. p. 5; 12; 79 e 99, que evidencia as estratégias mobilizadas pela autora para se inserir no debate público. Ademais, os poemas apresentam um caráter transnacional, perceptível na diversidade da origem das personalidades homenageadas, ultrapassando as fronteiras de El Salvador. A inclusão, na obra, da tradução do francês para o espanhol do poema “Figuras de oriente” revela ainda, sua proficiência linguística. Outros temas recorrentes em sua produção são a maternidade, a religiosidade, o envelhecimento e o luto, especialmente a partir da morte precoce de sua filha, experiência que marcou profundamente sua escrita.
Paralelamente, Loucel teve papel relevante na resistência à ditadura de Maximiliano Hernández Martínez, participando de mobilizações políticas e defendendo o sufrágio feminino inclusive por meio da imprensa e do rádio. Sua escrita também reflete o engajamento político, a exemplo da obra Reseña general de representativos femeninos en el reino de Cuscatlán (1947), na qual resgata a participação de mulheres na história salvadorenha. Sua produção intelectual evidencia a intersecção entre literatura, feminismo e construção da cidadania, consolidando-a como uma figura importante na luta pelos direitos das mulheres e na valorização de sua presença na cultura e na política partidária.
Vida e Carreira Infância e vida pessoal María Loucel Viñerta, nascida no município de San Miguel, El Salvador, destacou-se como sufragista, escritora, docente e feminista que lutou contra a ditadura (1882-1966) do general Maximiliano Hernández Martínez. Filha de Adelaida de Jesús Viñerta e de Don Joaquín Valerio Loucel y Avila (1859-s.d), a autora homenageia o pai com o poema “Padrecito amado” LOUCEL, María. Ilapso. New York, EUA, L & S. Pitting Company, 1936, 100. p. 16 e 17. Proveniente de uma família de origem francesa estabelecida na região desde o período colonial, sua trajetória insere-se em um contexto de formação letrada.MESSIDORO, Maria Teresa. Maria Loucel, maestra e filantropa salvadoregna. Vitamine Vaganti, 17 ago. 2024. Disponível em: https://vitaminevaganti.com/2024/08/17/maria-loucel-maestra-e-filantropa-salvadoregna/. Acesso em: 15 ago. 2025.FALLA SÁNCHEZ, Juan José. La familia Martín del Cerro, fundadora de la Villa de San Vicente de Austria. Revista de la Academia Guatemalteca de Estudios Genealógicos, Heráldicos e Históricos, n. 3-4, p. 157-260, 1969-1970. Disponível em: https://biblioteca.ufm.edu/imagenes/falla/Genealog%C3%ADa_FamiliaMartinCerro_JJFS.pdf. Acesso em: 15 ago. 2025.
María Loucel estudou no Colégio do Sagrado Coração em San Salvador, “instituição capaz de fornecer uma sólida educação cristã às jovens salvadorenhas ricas”, onde formou-se como professoraGONZÁLEZ HUGUET, Carmen. “Escritoras de El Salvador”. In: CASTILLO, Lucía (coord.). Desde los márgenes a la centralidad: escritoras en la historia literaria de América Central. Aguascalientes: Universidad Autónoma de Aguascalientes, 2020. p. 310.. Casou-se com o cafeicultor Atílio Canessa Ávila (1893-1956), com quem teve uma filha, Matilde Lourdes Canessa Loucel (1932), que morreu no mesmo ano por doença desconhecidaGONZÁLEZ HUGUET, Carmen. “Escritoras de El Salvador”. In: CASTILLO, Lucía (coord.). Desde los márgenes a la centralidad: escritoras en la historia literaria de América Central. Aguascalientes: Universidad Autónoma de Aguascalientes, 2020. p. 277-416.. O matrimônio terminou em divórcio.
Loucel homenageou a filha com os seguintes poemas, reunidos em Ilapso: “Mi hija”; “¡Santita!”; “Dia de Lourdes”; “Hoy que quiero rezar” e “Canción de cuna”. Os poemas dedicados à filha, falecida ainda bebê, expressam um profundo saudosismo em relação à sua breve vida e revelam o luto. Conforme destacam os trechos: “Foi tão plena minha alegria ao seu lado, como é cruel meu martírio em sua ausência (...) em ti depositei minha crescente ventura, e hoje, arrasto, sem fé a existência”LOUCEL, María. Ilapso. New York, EUA, L & S. Pitting Company, 1936, 100 p. 31.
Os versos de Loucel também destacam a dimensão católica, característica de vários de seus poemas, como “¡Señor!”, “Inri”, “Cristo-Rey” e “Oda Eucarística”. Em “Dia de Lourdes”, por exemplo, observa-se que o nome da filha constitui uma homenagem à Nossa Senhora de Lourdes, como indica o trecho: “Tu levas o nome que ostenta Maria (te deu sua velha [sua mãe], como uma benção)LOUCEL, María. Ilapso. New York, EUA, L & S. Pitting Company, 1936, 100 p. 34. No poema, Nossa Senhora de Lourdes passa a se encarregar dos cuidados da filha, que é elevada a uma dimensão de santidade: “Te beijou a Virgem, como fazia eu (...) e em sua cabecinha colocou uma auréola com brilho de sol”.
Além disso, foi proprietária da fazenda Yologual, localizada em Conchagua, no município de La Unión, El Salvador. Homenageou a fazenda com um poema de mesmo nome, que sugere maturidade e possível envelhecimento, marcados pela valorização do contato com a natureza, do cotidiano e por uma postura de desapego material. Como indicam os versos iniciais: “Já nada ambiciono (...) basta meu mar, minha mula e meu cachorro”.
Após o divórcio, passou a se dedicar à filantropia, tornou-se a primeira presidenta da Associação de Damas da Caridade de São Vicente de Paulo. Essa organização administrou, em San Miguel, o Asilo São Antônio de Paulo (construído em 1946), a Escola Santa Sofia (1952) e os Hospitais São Camilo e São Camilito, destinados ao acolhimento de adultos e crianças com tuberculose.
Ativismo A trajetória de María Loucel se desenvolveu ao longo do século XX, articulando-se à expansão do sistema educativo feminino e à consolidação do magistério como uma profissão socialmente reconhecida. Destacou-se como precursora (1841-1898), ao lado das escritoras Ana Dolores Arias (1859-1888) Victoria Magaña Menéndez de Fortín (1865-1961), Rafaela Contreras Cañas (1869-1893), Florinda B. González (1878-2952) e Prudencia Ayala(1885-1936), do movimento sufragista.
Nesse contexto, destaca-se sua ação em oposição ao governo ditatorial de Maximiliano Hernández Martínez (1932-1944), que governou El Salvador por 13 anos. “Foi uma época de grande efervescência política, apesar da repressão política contra a oposição, a qual também atingiu as mulheres”GONZÁLEZ HUGUET, Carmen. “Escritoras de El Salvador”. In: CASTILLO, Lucía (coord.). Desde los márgenes a la centralidad: escritoras en la historia literaria de América Central. Aguascalientes: Universidad Autónoma de Aguascalientes, 2020. p. 326..
À época, Maria Loucel e outras mulheres de classe média letradas incursionaram nos campos das artes, da escrita, das ciências, da docência e dos meios de comunicação, como periódicos e o rádio, o que possibilitou sua participação no debate público. Tornaram-se, assim, vozes importantes na construção de uma consciência cívica, na resistência contra tiranias e reivindicação de direitos políticos. Por meio da primeira rádio privada de El Salvador, YSP, A Voz de Cuscatlán, fundada em 1935, por exemplo, essas mulheres desempenharam um papel importante na difusão de temas como “a prostituição, a família, o sufrágio feminino, a maternidade e outros”TICAS, Sonia P. Intelectuales salvadoreñas de los anõs cuarenta: negociando lo privado y lo público. Istmo, 2005b. Disponível em: http://istmo.denison.edu/n11/articulos/intelectuales.html. Acesso em: 11 de agosto de 2025..
Quando o ditador Maximiliano Hernández Martínez tentou mudar a Constituição para reeleger-se, María Loucel e Matilde Elena López arriscaram suas vidas ao convocar a população a participar de uma rebelião contra a ditadura. Mulheres de distintas classes sociais uniram-se às mobilizações, entre elas a chamada “greve de braços caídos”, que pôs fim aos treze anos de ditadura em maio de 1944. Elas foram destacadas como “mártires e patriotas”, fama que ultrapassou o território salvadorenho, e chamou atenção de organizações internacionais como a Comissão Interamericana de Mulheres (CIM), no âmbito dos debates sobre a cidadania de mulheres. Durante esse período, Loucel chegou a ser presa.
Com a queda do governo de Martínez, Loucel continuou a lutar pelo sufrágio feminino. Chegou a coordenar a ala feminina do Partido da União Democrática (PUD), defendendo o direito ao voto irrestrito como parte do processo de construção da nação. Em seus escritos, afirmava: “Tempo é que se reconheça, sem reticências, que a mulher pensa, trabalha, luta e triunfa com igual visão cívica que o homem (...) que se deixe romper os obstáculos para que, assim, o resultado de seu companheirismo seja para El Salvador (masculino) ou a pátria (feminina) para a prosperidade nacional”.
Não há registro do uso de pseudônimo por María Loucel, o que poderia interpretar-se como melhor aceitação, no início do século XX, da autoria de mulheres. No entanto, o poema “Sospecho que estás loco” (Loucel, 1936), no qual critica a censura à escrita de mulheres indica sua escolha por uma forma mais radical de defesa do direito feminino à emancipação intelectual. Nesse sentido, “escrever a partir de uma perspectiva feminina representa um ato de poder”. Cabe destacar que María Loucel, “na década de 1940, se tornou uma feminista proeminente”.
Morte Após sua morte, foi homenageada em periódicos de El Salvador. Em nota publicada na revista Cultura, ressalta-se: “Nos últimos dias do mês de outubro, circulou no país a notícia da morte de María Loucel, que dedicou grande parte de sua vida às letras. Morreu longe desta terra que tanto havia amado e cujas peculiaridades típicas enalteceu com fervor e difundiu no estrangeiro. Seu nome será sempre recordado com carinho”CULTURA: revista del Ministerio de Educación. Director: Mario Hernández-Aguirre. San Salvador, n. 22, out.–dez. 1961. Disponível em: http://www.redicces.org.sv/jspui/bitstream/10972/883/1/Cultura22ocr.pdf Acesso em: 5 mar. 2026..
Obras Em 1936, publicou o livro de poemas Ilapso, cuja edição física encontra-se na biblioteca central Carlos Monge Alfaro da Universidade da Costa Rica. A obra reúne 60 poemas, muitos dos quais já haviam sido publicados anteriormente de forma isolada. O volume se incia com o poema intitulado Ilapso, no qual a voz narrativa afirma: “E eu me deixei levar suavemente pela feliz loucura de criar versos”LOUCEL, María. Ilapso. New York, EUA, L & S. Pitting Company, 1936, 100 p. 5. A obra segue com o poema “La colección, poeta”, dedicado ao escritor Arturo Ambrogi, dizendo: “uma clara expressão de sofrimento e desejo, onde banhei a alma nua de mulher (...) ensaio doloroso, sobre canções quebradas, numa lira triste com muitas cordas rompidas.
Os poemas apresentam conteúdo metafórico e uso de hipérbolesBARRANTES, Trino. La enseñanza de los estudios sociales a través de la poesía. Revista Estudios, n. 26, p. 231-258, 2013. Disponível em:https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=5467040, bem como uma expressão marcada por perspectivas antropológicas e novas linguagensTABARES, Omar Julián Álvarez. La poesía, el poeta y el poema. Una aproximación a la poética como conocimiento. Escritos, v. 21, n. 46, p. 223-242, 2013. Disponível em: http://scielo.org.co/pdf/esupb/v21n46/v21n46a09.pdf. Sua interpretação requer a compreensão do panorama poético em que foram produzidos, a fim de evitar anacronismos e essencializaçõesMARXEN, Eva; GONZÁLEZ, Luis Felipe. Pensar las artes y la poesía en la investigación cualitativa crítica en Latinoamérica e Iberoamérica. Enfermería: Cuidados Humanizados, v. 14, n. 1, 2025. Disponível em https://doi.org/10.22235/ech.v14i1.4303 .