Sauvetage en rivière (em português: Salvamento no rio) é um curta-metragem francês de filme mudo e atualidade reconstituídaUma atualidade reconstituída é um tipo de filme dos primórdios do cinema que encena deliberadamente um evento dramático com atores em locação real, misturando características do documentário e da ficção. Diferentemente de um documentário puro, o evento não foi filmado ao vivo — no caso de Sauvetage en rivière, seria impossível filmar um salvamento real com a tecnologia e o tempo de preparação disponíveis em 1896. O gênero foi praticado por vários pioneiros do cinema, entre eles Robert W. Paul e os Irmãos Lumière. de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Distribuído pela Star Film, o filme foi lançado em maio de 1896 em dois rolos consecutivos, registrados sob os números 22 e 23 no catálogo da produtora.O catálogo da Star Film registrava cada rolo de 20 metros como um número independente. Os dois rolos de Sauvetage en rivière (#22 e #23) eram tecnicamente vendidos de forma avulsa a exibidores, mas constituem uma narrativa única e inseparável — o rolo #22 não tem conclusão sem o #23 —, sendo considerado o primeiro filme de Georges Méliès composto por dois rolos, ainda que cada um represente um ponto de vista diferente do mesmo resgate. O IMDb os trata como dois títulos distintos (rolo 1: tt0000119; rolo 2: tt0000120); este artigo adota a mesma decisão editorial do artigo em inglês The Rescue on the River, tratando-os como obra única, à semelhança do que se faz com outros filmes de múltiplos rolos. Com aproximadamente 40 metros de película no total, foi inspirado no filme britânico Up the River (1896), de Robert W. Paul. Historicamente, é o primeiro experimento de Georges Méliès com cinema de múltiplos planos: ao narrar uma história ao longo de dois planos distintos em vez do formato de plano único que usara até então, marcou a primeira ruptura do cineasta com o modelo Lumière de atualidades e deu um passo decisivo em direção à narrativa cinematográfica complexa pela qual se tornaria célebre. Ambos os rolos são considerados perdidos.

Enredo

Como ambos os rolos estão perdidos e nenhuma descrição do conteúdo foi localizada nos catálogos da Star Film conhecidos até hoje, o enredo de Sauvetage en rivière é inteiramente desconhecido. A única base disponível para qualquer inferência é o filme que o inspirou — Up the River (também conhecido como Scene on the River Thames), realizado pelo pioneiro britânico Robert W. Paul no mesmo ano e cuja cópia sobreviveu. No filme de Paul, uma passageira a bordo de uma embarcação a vapor deixa cair acidentalmente uma criança no rio; um homem que observava da margem mergulha na água e a resgata. Se Méliès seguiu o enredo de Paul, o rolo #22 poderia captar o incidente e o rolo #23 o salvamento — mas trata-se de pura especulação, sem qualquer fonte que a confirme.

Produção

Georges Méliès realizou Sauvetage en rivière em maio de 1896, poucos meses após iniciar sua carreira cinematográfica. A escolha de adaptar o filme de Robert W. Paul não foi casual: Paul era uma figura central para Méliès, pois fora dele que o cineasta havia adquirido, no início de 1896, o projetor que modificou para utilizá-lo como câmera — o ponto de partida de toda a sua produção cinematográfica. Ao tomar como modelo um filme do mesmo inventor que lhe fornecera o equipamento, Méliès estabelecia um diálogo direto com a nascente produção britânica.

A importância histórica de Sauvetage en rivière reside, porém, menos no enredo do que na sua estrutura formal. Todos os filmes anteriores de Méliès — assim como a grande maioria dos filmes realizados até então pelos Irmãos Lumière e por outros pioneiros — consistiam em um único plano contínuo filmado de uma posição fixa de câmera. Ao dividir a narrativa em dois rolos distintos, cada um captando um momento diferente da mesma história, Méliès experimentou pela primeira vez a possibilidade de narrar cinematograficamente por meio de planos sucessivos — o princípio básico da montagem cinematográfica que definiria a linguagem do cinema nas décadas seguintes. Nesse sentido, Sauvetage en rivière é um precursor direto das grandes produções de múltiplos rolos que Méliès realizaria a partir de 1899, culminando em obras como Voyage dans la Lune (1902).

Robert W. Paul e o filme original

Robert W. Paul (1869–1943) foi um engenheiro e pioneiro do cinema britânico que, entre 1895 e 1910, produziu centenas de filmes curtos e desenvolveu equipamentos de projeção fundamentais para a história do cinema. Seu filme Up the River — também conhecido como Scene on the River Thames — foi realizado em 1896 e é considerado um dos primeiros exemplos de atualidade reconstituída: embora filmado com câmera estática em locação real à beira do Tâmisa, encenou deliberadamente uma situação dramática com atores. A cópia do filme de Paul sobreviveu e encontra-se preservada no acervo do British Film Institute.

A relação entre Paul e Méliès não se limitava à influência cinematográfica. Foi Paul quem vendeu a Méliès, no início de 1896, o projetor Theatrograph que o cineasta francês adaptou para uso como câmera, dando início à sua produção cinematográfica. Ao imitar o filme de Paul poucos meses depois, Méliès prestava uma espécie de homenagem ao homem que inadvertidamente o havia lançado na carreira de cineasta.

Contexto no catálogo Star Film

Sauvetage en rivière ocupa os números 22 e 23 no catálogo da Star Film, empresa fundada por Méliès em 2 de dezembro de 1896. Os dois rolos foram registrados em sequência imediata no catálogo — prática que, no contexto das obras de plano único que os cercam, indica que Méliès os concebia como partes de uma mesma obra. O filme seguinte no catálogo, Le régiment (n.º 24), retorna ao formato de rolo único e ao estilo documental de atualidades, sugerindo que a experiência narrativa de Sauvetage en rivière foi, nesse momento, uma iniciativa isolada — cujos desdobramentos só se fariam sentir anos depois, nas grandes produções do estúdio de Montreuil.

Preservação

Ambos os rolos são classificados como perdidos. O suporte em nitrato de celulose era altamente inflamável e quimicamente instável; parte significativa dos negativos foi destruída pelo próprio Méliès durante a crise financeira que se seguiu à Primeira Guerra Mundial — as películas eram queimadas deliberadamente para fundir a emulsão e recuperar o nitrato de prata nela contido, que tinha valor comercial —, e outra parte foi requisitada pelo exército francês durante o conflito. Estima-se que, dos aproximadamente 520 filmes realizados por Méliès entre 1896 e 1912, apenas cerca de 200 tenham sobrevivido.

Notas

Ver também Georges Méliès Star Film Company Robert W. Paul Montagem cinematográfica Atualidade reconstituída Filme perdido Filme mudo

Ligações externas

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