A asa-de-sabre-do-espinhaço (nome científico: Campylopterus diamantinensis) é uma espécie de ave troquiliforme da família dos troquilídeos (Trochilidae) ou beija-flores e do gênero Campylopterus. É endêmica do Brasil, restrita aos campos rupestres da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Pertence à família dos troquilídeos e integra o complexo da asa-de-sabre-da-guiana (Campylopterus largipennis). Originalmente descrita por Augusto Ruschi em 1963 como uma subespécie da asa-de-sabre-da-guiana, foi elevada ao nível específico em 2017 com base em evidências morfológicas, ecológicas e biogeográficas. Estudos filogenéticos sugerem que sua linhagem divergiu da asa-de-sabre-da-mata-seca (Campylopterus calcirupicola) durante o Pleistoceno, possivelmente em decorrência de eventos de vicariância entre os campos rupestres quartzíticos da Serra do Espinhaço e os afloramentos calcários associados às florestas estacionais secas do interior do Brasil.
Trata-se de um beija-flor de grande porte para o gênero, com cerca de 13 centímetros de comprimento, bico longo e ligeiramente curvado e plumagem predominantemente verde-bronzeada. Distingue-se das demais espécies do complexo principalmente pela combinação de caracteres da cauda, incluindo a presença de extensas pontas brancas nas retrizes externas e a coloração verde-bronze brilhante na base dessas penas. A espécie habita ambientes montanos acima de mil metros de altitude, especialmente córregos florestados, vales protegidos do vento e outros microambientes associados aos campos rupestres. É considerada residente e pouco se conhece sobre sua biologia, alimentação e reprodução, embora seu comportamento geral provavelmente seja semelhante ao das demais asas-de-sabre.
A distribuição da espécie está restrita às porções mais elevadas da Serra do Espinhaço, onde ocorre em áreas inseridas nos biomas Cerrado e Mata Atlântica. Embora esteja presente em diversas unidades de conservação, incluindo os parques nacionais da Serra do Cipó e das Sempre Vivas, sua área potencial de ocorrência é limitada e fragmentada. As principais ameaças identificadas incluem mudanças climáticas, incêndios, mineração, expansão agropecuária, silvicultura e outras alterações ambientais que afetam os campos rupestres de altitude. Em razão da escassez de informações populacionais, a espécie foi considerada dados insuficientes pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em 2018, mas posteriormente foi classificada como espécie quase ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), que reconheceu sua elevada vulnerabilidade às mudanças climáticas e à redução futura de habitats adequados.
Etimologia
O nome genérico masculino Campylopterus é composto pelas palavras gregas kampýlos (), que significa "curvado" ou "curvo", e pterón (), que significa "asa". O epíteto específico diamantinensis faz referência à localidade-tipo, Diamantina, em Minas Gerais.
Taxonomia
A asa-de-sabre-do-espinhaço (Campylopterus diamantinensis) é monotípica. Trata-se de uma espécie de beija-flor da família dos troquilídeos, pertencente ao complexo da asa-de-sabre-da-guiana (Campylopterus largipennis). Foi originalmente descrita por Augusto Ruschi em 1963 como uma subespécie, sob o nome Campylopterus largipennis diamantinensis, a partir de material coletado no Córrego das Pedras, no município de Diamantina, em Minas Gerais. O holótipo encontra-se depositado no Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque. A forma foi historicamente tratada como uma das quatro subespécies da asa-de-sabre-da-guiana, ao lado de C. l. largipennis, C. l. obscurus e C. l. aequatorialis. Nessa classificação tradicional, C. l. diamantinensis era considerada restrita à Serra do Espinhaço, no sudeste do Brasil, enquanto as demais formas eram associadas principalmente a florestas úmidas amazônicas. Em uma revisão taxonômica publicada em 2017, Leonardo Esteves Lopes, Marcelo Ferreira de Vasconcelos e Luiz Pedreira Gonzaga reconheceram a asa-de-sabre-do-espinhaço como espécie plena, com base em evidências morfológicas, ecológicas e biogeográficas. Os autores também separaram as populações de matas secas do Brasil central e oriental em uma nova espécie, a asa-de-sabre-da-mata-seca (Campylopterus calcirupicola), e propuseram que o complexo da asa-de-sabre-da-guiana fosse composto por quatro espécies: a asa-de-sabre-da-guiana propriamente dita, a asa-de-sabre-de-cauda-escura (C. obscurus), a asa-de-sabre-do-espinhaço e a asa-de-sabre-da-mata-seca.
Com base em análises filogenéticas e biogeográficas, Chaves sugeriu que a divergência entre os ancestrais da asa-de-sabre-do-espinhaço e da asa-de-sabre-da-mata-seca resultou de um evento de vicariância entre os afloramentos quartzíticos dos campos rupestres da Serra do Espinhaço e os afloramentos calcários associados às florestas estacionais deciduais do interior do Brasil. Segundo o autor, essa separação teria ocorrido entre o Pleistoceno Inferior e Médio. A elevação de Campylopterus diamantinensis ao nível específico foi posteriormente aceita pelo Comitê de Classificação Sul-Americano (SACC). Segundo o comitê, as evidências apresentadas por Lopes, Vasconcelos e Gonzaga (2017) sustentavam o reconhecimento da espécie como distinta dentro do complexo da asa-de-sabre-da-guiana, levando à aprovação formal da proposta de separação taxonômica e ao estabelecimento de um nome comum em inglês para o táxon. No mesmo processo, a proposta para reconhecer a asa-de-sabre-de-cauda-escura como espécie independente não foi aprovada pelo comitê.
Diagnóstico
A asa-de-sabre-do-espinhaço diferencia-se das espécies amazônicas do complexo por caracteres de coloração da cauda e por sua associação ecológica com ambientes montanos de campos rupestres. Em comparação com a asa-de-sabre-de-cauda-escura e C. aequatorialis, apresenta pontas claras da cauda longas e brancas, em vez de curtas e acinzentadas. Em relação à asa-de-sabre-da-guiana, distingue-se pela base das retrizes externas de coloração verde-bronze brilhante, e não azul-negra brilhante. A espécie compartilha com a asa-de-sabre-da-mata-seca a base verde-bronze das retrizes externas e as pontas caudais brancas, mas difere desta por ser maior, mais pesada e por possuir pontas claras proporcionalmente mais curtas. Na chave diagnóstica proposta por Lopes, Vasconcelos e Gonzaga, a asa-de-sabre-do-espinhaço é reconhecida entre as formas de pontas caudais longas e brancas pela combinação de base das retrizes externas verde-bronze brilhante, peso corporal geralmente superior a 7,5 gramas, retrizes usualmente mais largas e menos pontiagudas, e soma do comprimento das pontas claras da segunda e terceira retrizes externas inferior a 44% do comprimento da asa.
Morfologia
A asa-de-sabre-do-espinhaço é uma das formas maiores do complexo da asa-de-sabre-da-guiana. Nos machos analisados, o cúlmen total mediu em média 30,0 milímetros, com variação de 28,2 a 31,5 milímetros; a asa mediu em média 75,2 milímetros, variando de 71,9 a 78,0 milímetros; a cauda teve média de 53,1 milímetros, com variação de 50,4 a 55,4 milímetros; e o peso médio foi de 9,1 gramas, variando entre 8,4 e 10,2 gramas. Nas fêmeas, o cúlmen total mediu em média 31,3 milímetros, com variação de 28,9 a 33,1 milímetros; a asa teve média de 71,0 milímetros, variando de 68,2 a 72,6 milímetros; a cauda mediu em média 51,5 milímetros, com variação de 49,7 a 54,4 milímetros; e o peso médio foi de 7,7 gramas, variando de 7,0 a 8,6 gramas. As pontas claras das retrizes externas são brancas e longas. Nos machos, a maior extensão da ponta clara da retriz externa mais lateral apresentou média de 23,2 milímetros, variando de 20,8 a 24,5 milímetros; na segunda retriz externa, média de 18,4 milímetros, variando de 16,4 a 21,4 milímetros; e na terceira, média de 10,5 milímetros, variando de 8,4 a 13,8 milímetros. Nas fêmeas, os valores correspondentes foram, respectivamente, 21,3 milímetros, com variação de 20,1 a 22,6 milímetros; 18,1 milímetros, com variação de 15,8 a 19,5 milímetros; e 10,1 milímetros, com variação de 8,6 a 11,3 milímetros. A quarta retriz externa geralmente não apresenta ponta clara ou a possui de forma vestigial.
A espécie apresenta partes superiores e retrizes centrais ligeiramente mais douradas que as formas amazônicas do complexo. O ventre é levemente mais claro, descrito como cinza-claro. A base das três retrizes externas é verde-bronze brilhante, seguida por uma faixa cinza-olivácea escura, por vezes com reflexos azul-negros esparsos, antes das pontas brancas. O par subcentral de retrizes é quase inteiramente verde-bronze brilhante, com apenas uma pequena mancha terminal cinza-olivácea escura ou azul-negra brilhante, podendo esta mancha estar ausente em alguns exemplares. Medidas osteológicas do esterno também reforçam o maior porte da espécie em comparação com a asa-de-sabre-da-mata-seca. Nos machos da asa-de-sabre-do-espinhaço, o comprimento do esterno teve média de 22,3 milímetros, o comprimento da quilha 24,5 milímetros, a largura do esterno 7,3 milímetros e a profundidade da quilha 14,1 milímetros. Nas fêmeas, os valores médios foram, respectivamente, 19,5 milímetros, 20,0 milímetros, 6,5 milímetros e 12,0 milímetros. Embora os autores não tenham realizado testes estatísticos para esses dados devido ao pequeno tamanho amostral, as medidas foram consideravelmente maiores que as observadas em espécimes de matas secas. A asa-de-sabre-do-espinhaço é um beija-flor robusto, com cerca de 13,4 centímetros de comprimento e bico longo, forte e ligeiramente curvado para baixo. Apresenta uma pequena mancha pós-ocular branca. As íris são marrom-escuras; a maxila é preta, enquanto a mandíbula é esbranquiçada na base e marrom na porção distal; tarsos e dedos são pretos. Os sexos são semelhantes na coloração, embora as fêmeas possam apresentar tonalidade verde ligeiramente mais escura nas partes superiores. As plumagens juvenis permanecem desconhecidas.
Distribuição e habitat
A asa-de-sabre-do-espinhaço é endêmica do Brasil e ocorre nos campos rupestres da Serra do Espinhaço, no estado de Minas Gerais. A forma foi originalmente descrita de Diamantina e é associada a áreas montanas de elevada altitude, geralmente acima de mil metros. A revisão de 2017 restringiu a espécie às populações dos campos rupestres, separando dela as populações de matas secas de baixa altitude, que passaram a ser reconhecidas como a asa-de-sabre-da-mata-seca. A espécie ocupa ambientes de campos rupestres entre aproximadamente e dois mil metros de altitude, enquanto a asa-de-sabre-da-mata-seca ocorre em matas secas sobre afloramentos calcários entre 460 e 880 metros. As duas espécies apresentam distribuição parapátrica no Brasil oriental, com registros mais próximos separados por cerca de 25 quilômetros, mas vivem em habitats muito distintos e sem evidências de hibridização. As populações da asa-de-sabre-do-espinhaço estão separadas das espécies amazônicas do complexo da asa-de-sabre-da-guiana por quase 600 quilômetros de habitats predominantemente não florestais no Brasil central. Essa separação biogeográfica, associada à diferenciação ecológica e morfológica, foi um dos argumentos utilizados para seu reconhecimento como espécie plena.