Cyphocharax jagunco, popularmente chamado saguiru, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos (Curimatidae), endêmica do Brasil e conhecida exclusivamente da bacia do rio Jequitinhonha, em Minas Gerais. Foi descrita em 2016 a partir de exemplares coletados na Vereda Volta da Capoeira, afluente do ribeirão da Areia, durante expedições realizadas nas cabeceiras dos rios Jequitinhonha e São Francisco. Pertence ao gênero Cyphocharax, um dos mais diversos da família Curimatidae, embora as relações filogenéticas internas do grupo permaneçam pouco resolvidas.
É uma espécie de pequeno porte, alcançando pouco mais de cinco centímetros de comprimento padrão, caracterizada por uma série de manchas escuras irregulares distribuídas ao longo da linha lateral, padrão compartilhado com poucas congêneres. Habita um pequeno curso de água associado a ambientes de vereda, com águas límpidas de fluxo lento, solos hidromórficos ricos em matéria orgânica e vegetação dominada por gramíneas, arbustos e buritis (Mauritia flexuosa). A região abriga diversos peixes de distribuição restrita, incluindo espécies de Hyphessobrycon, Rhamdiopsis, Corydoras e Aspidoras, além do peixe-anual criticamente ameaçado Simpsonichthys espinhacensis.
A distribuição extremamente limitada da espécie a torna particularmente vulnerável à degradação ambiental. Levantamentos realizados entre 2014 e 2018 registraram C. jagunco apenas na localidade-tipo, resultando em uma área de ocupação estimada em apenas km². Em avaliação concluída em 2021 e publicada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade em 2025, a espécie foi classificada como criticamente em perigo (CR), devido à contínua degradação de seu habitat causada pela expansão da silvicultura, pecuária, captação de água, queimadas e outras alterações hidrológicas que afetam as veredas da região.
Etimologia
Cyphocharax jagunco é conhecida localmente como saguiru. O termo é provavelmente de origem tupi, embora sua etimologia permaneça obscura. O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa "curvado" ou "corcunda", e chárax (), nome aplicado a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico jagunco deriva de "jagunço", termo da língua portuguesa que provavelmente se originou do iorubá jagun-jagun, com o sentido de "guerreiro". No Brasil, o vocábulo passou a designar homens armados vinculados a chefes políticos, proprietários rurais ou grupos que atuavam nos sertões. O nome também constitui uma homenagem ao romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, cuja narrativa é protagonizada e conduzida por um jagunço e se desenvolve no norte de Minas Gerais, região que abrange a localidade-tipo da espécie. O epíteto é um substantivo em aposição.
Taxonomia
Cyphocharax jagunco é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2016 por Guilherme Moreira Dutra, Iago de Souza Penido, Gabriel Caetano Guimarães de Mello e Tiago Casarim Pessali, juntamente com uma população então denominada C. lundi, atualmente reconhecida como C. albula. A descrição resultou de expedições realizadas nas cabeceiras das bacias dos rios Jequitinhonha e São Francisco, em Minas Gerais, nas quais foram encontradas espécies com um padrão peculiar de pigmentação corporal e diferenças na contagem de escamas. O holótipo, catalogado como MCNIP 1612, é um exemplar com 48,5 milímetros de comprimento padrão, coletado em 2 de janeiro de 2015 na Vereda Volta da Capoeira, afluente do ribeirão da Areia, no município de Olhos-d'Água, em Minas Gerais. Foram designados três parátipos, coletados juntamente com o holótipo e medindo entre 42,7 e 51,9 milímetros de comprimento padrão, depositados no Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e no Museu Paraense Emílio Goeldi. A atribuição da espécie a Cyphocharax baseou-se principalmente em caracteres externos, uma vez que não havia exemplares disponíveis para diafanização e coloração e, consequentemente, não foi possível verificar todas as características osteológicas tradicionalmente empregadas na sistemática dos curimatídeos. O gênero não é definido por uma sinapomorfia exclusiva e sua monofilia não havia sido recuperada nas análises filogenéticas disponíveis, nas quais suas espécies apareciam em uma politomia juntamente com representantes de Curimatella, Pseudocurimata e Steindachnerina.
Cyphocharax jagunco foi diferenciada de Curimata pela ausência de três abas carnosas proeminentes e respectivas abas secundárias no teto da boca; de Curimatella, pela ausência de escamas cobrindo a nadadeira caudal; de Curimatopsis, pela linha lateral completa; de Potamorhina, por possuir entre 29 e 30 escamas na linha lateral, em comparação com 85 a 100; de Psectrogaster, pelo segmento simples e tubular do canal sensorial do sexto infraorbital; e de Steindachnerina, pela ausência de processos lobulados projetados para o interior da cavidade oral, de três abas longitudinais espessas no teto da boca e de uma mancha escura conspícua na base dos raios medianos da nadadeira dorsal. Embora não fossem conhecidos caracteres externos que a separassem de Pseudocurimata, a distribuição exclusivamente cisandina da espécie e a ocorrência dos representantes desse último gênero apenas a oeste dos Andes favoreceram sua inclusão em Cyphocharax. A espécie compartilha com C. albula, C. punctatus e C. vanderi uma série médio-lateral de manchas escuras irregulares acompanhando a linha lateral. Esse padrão havia sido anteriormente interpretado como uma possível sinapomorfia exclusiva de C. punctatus e C. vanderi, mas a descoberta das duas espécies mineiras ampliou sua ocorrência dentro do gênero. Em C. punctatus, contudo, as manchas são verticalmente alongadas e alcançam aproximadamente três fileiras de escamas, enquanto em C. jagunco, C. albula e C. vanderi possuem aproximadamente uma escama de altura.
Descrição
Cyphocharax jagunco é uma espécie de pequeno porte e corpo robusto, conhecida, na série-tipo, por exemplares com 42,7 a 51,9 milímetros de comprimento padrão. O perfil dorsal da cabeça é convexo desde a margem do lábio superior até a vertical que passa pela narina anterior e quase reto desse ponto até o espinho supraoccipital. O perfil dorsal do corpo é convexo entre o espinho supraoccipital e a origem da nadadeira dorsal, ligeiramente convexo ao longo da base dessa nadadeira, quase reto entre seu último raio e a origem da nadadeira adiposa e levemente côncavo até a origem do primeiro raio procorrente dorsal da caudal. O perfil ventral é convexo até a base do último raio anal e côncavo daí até o primeiro raio procorrente ventral da caudal. A maior altura corporal situa-se na vertical que atravessa a origem da nadadeira dorsal. A cabeça é comprimida lateralmente e atinge sua maior altura na nuca. A boca é terminal, com a maxila superior ligeiramente mais longa que a inferior. As narinas são próximas entre si e separadas por uma fina aba de pele. A narina anterior é circular e situa-se aproximadamente a meio caminho entre a ponta do focinho e a margem anterior do olho; a posterior é semilunar e está mais próxima do olho do que da extremidade do focinho. A pálpebra adiposa restringe-se à margem anterior do olho, que se localiza na metade anterior da cabeça. As membranas branquiais encontram-se unidas ao nível do istmo.
Na série-tipo, a maior altura corporal corresponde a 34,2–37,3% do comprimento padrão, com média de 36,1%. A distância entre o focinho e a origem da nadadeira dorsal representa 49,2–52,7% do comprimento padrão; entre o focinho e a peitoral, 27,6–28,5%; entre o focinho e a pélvica, 57,2–61,7%; entre o focinho e a anal, 81,3–85,4%; e entre o focinho e o ânus, 74,8–77,6%. A distância entre a origem da dorsal e a articulação hipural equivale a 52,2–56,2% do comprimento padrão; entre as origens da dorsal e da anal, 42,3–44,4%; entre as origens da dorsal e da pélvica, 33,9–36,7%; e entre as origens da dorsal e da peitoral, 37,3–40,4%. A altura do pedúnculo caudal corresponde a 13,1–13,4% do comprimento padrão. O comprimento das nadadeiras peitorais representa 16,4–18%; o das pélvicas, 16,9–18,7%; e o da dorsal, 20,4–24,5%. A cabeça mede 25,4–27,2% do comprimento padrão. Em relação ao comprimento da cabeça, o focinho representa 29,3–32,5%, o diâmetro orbital 26–27,8%, a distância pós-orbital 41,6–44,3% e a largura interorbital 44,7–47,3%. A linha lateral é completa e todas as suas escamas são perfuradas por um canal laterossensorial primário reto. Existem 29 ou 30 escamas perfuradas entre o supracleitro e a articulação hipural, seguidas por uma ou duas escamas perfuradas sobre a base da nadadeira caudal. Entre a origem da dorsal e a linha lateral há quatro fileiras e meia ou cinco fileiras de escamas; entre a origem da anal e a linha lateral, cinco; e entre o ânus e a origem da anal, uma ou duas. A série mediana dorsal entre a região posterior do espinho supraoccipital e a origem da nadadeira dorsal compreende de dez a doze escamas. A porção proximal dos raios caudais é coberta por escamas de tamanho semelhante ao das escamas situadas na parte posterior do pedúnculo caudal.
A nadadeira peitoral é pontiaguda e possui um raio simples e de doze a catorze raios ramificados; quando adpressa, sua extremidade alcança a vertical que atravessa a oitava escama da linha lateral. A dorsal também é pontiaguda e apresenta dois raios simples e nove ramificados. Seu primeiro raio simples mede aproximadamente metade do segundo, enquanto os primeiros raios ramificados são os mais longos e diminuem gradualmente em direção posterior. A nadadeira pélvica é emarginada e possui um raio simples e oito ramificados; sua origem situa-se na vertical que atravessa o quarto raio ramificado da dorsal e sua extremidade alcança o ânus. A anal é emarginada, com dois raios simples e sete ramificados; o primeiro raio simples mede aproximadamente um terço do segundo, e o primeiro ramificado é o mais longo. A nadadeira adiposa está presente. A caudal é bifurcada, com lobos moderadamente pontiagudos, e apresenta um raio simples, nove raios ramificados no lobo superior, oito no inferior e outro raio simples. A espécie distingue-se da maioria das congêneres pela série de manchas escuras irregulares dispostas ao longo da linha lateral. Diferencia-se de C. punctatus e C. vanderi por apresentar entre dez e dezessete manchas, incluindo a mancha do pedúnculo caudal, em comparação com quatro ou cinco em C. punctatus e quatro a seis em C. vanderi, além de possuir apenas uma ou duas escamas perfuradas posteriores à articulação hipural, contra três ou quatro nessas espécies. Distingue-se ainda de C. punctatus pela linha lateral completa. Em relação a C. albula, caracteriza-se pela ausência de pequenas manchas castanho-claras acima da linha lateral, por possuir 29 ou 30 escamas na linha lateral, em vez de aproximadamente 36, e quatro fileiras e meia ou cinco fileiras de escamas acima da linha lateral, em vez de cinco fileiras e meia a seis fileiras e meia.