A jiboinha-da-serra (nome cientifico: Tropidophis preciosus) é uma espécie de serpente da família dos tropidofiídeos (Tropidophiidae), endêmica de Minas Gerais, no Brasil. Descrita em 2012 a partir de exemplares provenientes da porção meridional da Serra do Espinhaço, integra o pequeno grupo de espécies continentais do gênero Tropidophis, cuja diversidade está concentrada principalmente nas Índias Ocidentais. Trata-se de uma serpente de pequeno porte, com menos de 50 centímetros de comprimento total, corpo robusto e lateralmente comprimido, cauda curta e preênsil e padrão de coloração formado por numerosas manchas escuras distribuídas em séries longitudinais sobre fundo marrom, castanho ou creme. A espécie distingue-se das demais formas brasileiras do gênero pelo elevado número de escamas ventrais, pelas características da escutelação e por um conjunto particular de caracteres cromáticos. Estudos posteriores à descrição original revelaram a existência de dimorfismo sexual nas contagens de escamas ventrais e subcaudais, além de ampliarem o conhecimento sobre sua variação morfológica e distribuição geográfica.

A espécie é conhecida exclusivamente de áreas montanhosas situadas acima de mil metros de altitude na porção meridional da Serra do Espinhaço e no Quadrilátero Ferrífero, onde ocorre em ambientes de campo rupestre, frequentemente em transição com floresta estacional semidecidual. Os registros confirmados incluem as regiões de Diamantina, Ouro Preto, Mariana, Caeté e Santo Antônio do Itambé. Diferentemente da maioria de seus congêneres, geralmente associados a formações florestais, a jiboinha-da-serra parece estar adaptada a ambientes rupestres de altitude, apresentando possível associação com córregos e áreas úmidas. Sua história natural permanece pouco conhecida, mas os registros disponíveis indicam hábitos discretos, predominantemente noturnos, com utilização tanto do solo rochoso quanto da vegetação arbustiva e de ambientes florestais adjacentes. Como outras espécies do gênero, provavelmente é vivípara e alimenta-se principalmente de pequenos vertebrados, especialmente anfíbios e lagartos.

Embora atualmente seja conhecida em apenas cinco áreas e considerada rara, a jiboinha-da-serra está classificada como quase ameaçada (NT) em âmbito nacional e como deficiente de dados (DD) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). As principais ameaças identificadas decorrem da expansão da atividade minerária e dos incêndios recorrentes que afetam os campos rupestres do Quadrilátero Ferrífero e da Serra do Espinhaço. Em razão de sua distribuição restrita e da necessidade de ampliar o conhecimento sobre sua ecologia e dinâmica populacional, a espécie foi incluída em 2024 no Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna Ameaçada de Extinção do Sudeste (PAN Herpetofauna do Sudeste), figurando entre os táxons prioritários para ações de pesquisa, monitoramento e conservação.

Taxonomia e sistemática

Tropidophis preciosus é uma serpente da família dos tropidofiídeos e do gênero Tropidophis, um grupo de pequenas serpentes vivíparas popularmente conhecidas como jiboias-anãs. O gênero compreende cerca de trinta espécies distribuídas predominantemente nas Índias Ocidentais, onde se concentra a maior parte de sua diversidade, especialmente em Cuba. Apenas poucas espécies ocorrem na porção continental da América do Sul, formando um conjunto relativamente isolado em relação à radiação caribenha. As espécies do gênero caracterizam-se pelo pequeno porte, corpo robusto, hábitos principalmente noturnos e dieta composta sobretudo por anfíbios e lagartos. Algumas apresentam ainda características fisiológicas incomuns entre serpentes, como a capacidade de alterar parcialmente a coloração corporal e a emissão reflexa de sangue como mecanismo defensivo. A sistemática de Tropidophis permaneceu durante décadas centrada quase exclusivamente nas espécies caribenhas. As primeiras revisões abrangentes do grupo foram realizadas por Stull (1928), Bailey (1937) e Schwartz & Marsh (1960), que investigaram principalmente os táxons das Antilhas. Esses estudos demonstraram que muitos caracteres tradicionalmente empregados para distinguir espécies, como o grau de quilhamento das escamas dorsais, podem variar consideravelmente dentro de uma mesma população. Como consequência, tornou-se evidente que diagnósticos confiáveis deveriam basear-se na combinação de múltiplos caracteres morfológicos, e não em traços isolados. Outro aspecto que dificultou historicamente a taxonomia do gênero foi a raridade da maioria das espécies, frequentemente conhecidas por poucos exemplares, o que limitou a avaliação da variação geográfica e individual.

Em contraste com os táxons caribenhos, as espécies continentais permaneceram pouco estudadas durante grande parte do . Essa situação decorreu tanto da reduzida diversidade conhecida na América do Sul quanto da escassez de exemplares depositados em coleções zoológicas. Até o início da década de 2010 eram reconhecidas apenas três espécies continentais: Tropidophis battersbyi, conhecido apenas pelo espécime-tipo procedente do Equador; a jiboia-anã-brasileira (T. paucisquamis), distribuído pela Mata Atlântica do sudeste brasileiro; e T. taczanowskyi, registrado no Equador e no Peru. As distinções entre essas formas baseavam-se principalmente em contagens de escamas ventrais, número de fileiras dorsais e padrões gerais de coloração, embora vários desses caracteres apresentassem variação insuficientemente documentada. Durante o exame de material proveniente da Mata Atlântica brasileira, Curcio, Nunes, Argôlo, Skuk e Rodrigues verificaram que exemplares coletados em Minas Gerais e na Bahia não podiam ser adequadamente atribuídos à jiboia-anã-brasileira. A comparação detalhada com uma amostragem ampliada das espécies continentais revelou a existência de duas linhagens distintas e previamente não reconhecidas, posteriormente descritas como T. grapiuna e a jiboinha-da-serra (Tropidophis preciosus). O estudo revisou simultaneamente a taxonomia de todas as espécies sul-americanas conhecidas, redefinindo seus diagnósticos com base em séries mais representativas e ampliando o conhecimento sobre sua variação geográfica e morfológica.

A jiboinha-da-serra foi descrita em 2012 por Gabriel Skuk, Antônio Jorge Suzart Argôlo, Pedro M.S. Nunes, Felipe F. Curcio e Miguel Trefaut Rodrigues a partir de exemplares provenientes da porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. A espécie distingue-se das demais formas continentais por uma combinação exclusiva de caracteres, incluindo o elevado número de escamas ventrais, a presença de 23 fileiras dorsais na região mediana do corpo, o aumento das escamas vertebrais na porção posterior do tronco, a ausência de escamas interparietais e um padrão de coloração formado por numerosas manchas pequenas distribuídas em oito séries longitudinais. Entre as espécies sul-americanas, apresenta as maiores contagens ventrais conhecidas, alcançando mais de duzentas escamas nessa região do corpo. As relações filogenéticas entre as espécies continentais e caribenhas de Tropidophis permanecem insuficientemente compreendidas. Estudos morfológicos demonstraram que várias espécies sul-americanas, incluindo a jiboinha-da-serra, possuem hemipênis quadrifurcados, uma conformação extremamente incomum entre serpentes. A distribuição desse caráter em espécies continentais e insulares sugere uma história evolutiva complexa para o gênero, cuja monofilia e estrutura interna ainda dependem de análises filogenéticas mais abrangentes. Até o momento, a jiboinha-da-serra é considerada um representante endêmico da radiação sul-americana do gênero.

O holótipo da jiboinha-da-serra é uma fêmea adulta registrada sob o número MZUSP 17957 (Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo), coletada em setembro de 1989 em Conselheiro Mata, pequena vila localizada cerca de 40 quilômetros a leste do município de Diamantina, em Minas Gerais. O parátipo é uma fêmea adulta registrada como LZVUFOP 913 S (Coleção Herpetológica do Laboratório de Zoologia dos Vertebrados da Universidade Federal de Ouro Preto), coletada no Parque Estadual do Itacolomi, entre os municípios de Mariana e Ouro Preto, também em Minas Gerais. O nome genérico Tropidophis deriva dos termos gregos tropís (; "quilha") e ophis (; "serpente"), aludindo às escamas quilhadas da espécie-tipo do gênero. O epíteto específico preciosus é um adjetivo latino no nominativo singular e faz referência à riqueza gemológica da região da localidade-tipo, especialmente associada aos municípios de Diamantina, Ouro Preto e Mariana.

Diagnóstico

A jiboinha-da-serra distingue-se das demais espécies continentais do gênero por uma combinação de caracteres morfológicos, merísticos e de coloração. Trata-se de uma serpente de pequeno porte, com menos de 50 centímetros de comprimento total, corpo robusto e lateralmente comprimido, cauda curta e preênsil e cabeça triangular nitidamente distinta do pescoço. Possui ausência de escama loreal, uma única pré-ocular grande, escamas dorsais lisas ou fracamente quilhadas, 21–23 fileiras dorsais anteriores, 23 (raramente 25) fileiras dorsais medianas e 17 posteriores, além de escamas da fileira vertebral distintamente mais largas em parte do tronco. A espécie apresenta ainda 177–203 ventrais e 27–34 subcaudais indivisas, com dimorfismo sexual evidente nessas contagens. A dentição maxilar inclui 19 dentes, progressivamente menores em direção à porção posterior da maxila. Embora os exemplares originalmente descritos não apresentassem escamas interparietais e possuíssem as parietais em amplo contato medial, espécimes posteriormente examinados revelaram variação nesse caráter, podendo ocorrer uma pequena fileira de escamas interparietais separando as parietais. O padrão de coloração caracteriza-se pela presença de múltiplas séries longitudinais de manchas escuras sobre fundo marrom, castanho ou creme, incluindo quatro fileiras principais de manchas dorsais e duas séries de manchas ventrolaterais maiores. As regiões temporal e occipital exibem conspícuas manchas claras, formando uma faixa dorsolateral que se estende em direção aos olhos. A espécie também apresenta elevado número de manchas ao longo do tronco, superior a cinquenta e podendo atingir 66 no parátipo. Entre as espécies brasileiras do gênero, distingue-se especialmente de T. grapiuna e a jiboia-anã-brasileira pelo maior número de ventrais e pelo conjunto de caracteres de coloração e escutelação.

Morfologia