A Siderurgia Nacional foi uma empresa portuguesa dedicada à produção de aço, criada em dezembro de 1954 com o objetivo de estabelecer uma indústria siderúrgica de base no país.Escritura pública de constituição da Siderurgia Nacional, S.A.R.L. Diário do Governo, III Série, n.º 305, 31-12-1954. Nota: o ficheiro digital encontra-se incompleto no DRE.
A Siderurgia Nacional tinha a sua sede na Rua Braamcamp, em Lisboa, e a sua principal unidade industrial na Aldeia de Paio Pires, no concelho do Seixal, onde se concentrou a maior parte da atividade produtiva do complexo siderúrgico.
História
A história da empresa é habitualmente dividida em três períodos. O primeiro corresponde à fase de criação e desenvolvimento inicial, entre 1954 e 1975, marcada pelo impulso estatal e pela ligação ao grupo empresarial de António Champalimaud.
A base legal que permitiu a criação da empresa foi estabelecida pela Licença de Instalação Industrial publicada em julho de 1954, que fixou uma capacidade mínima obrigatória de 150 000 toneladas anuais.Licença de Instalação Industrial para a montagem da indústria siderúrgica. Diário do Governo, II Série, julho de 1954.
Durante a fase de construção das instalações da Siderurgia Nacional em Paio Pires, ocorreu um grave acidente de trabalho a 31 de Agosto de 1959, quando se deu a derrocada da cobertura destinada à secção de laminagem. O aluimento provocou a morte de oito trabalhadores e causou ferimentos em catorze outros operários, constituindo um dos mais graves acidentes ocorridos durante a construção do complexo industrial. O acontecimento mereceu cobertura do Noticiário Nacional da RTP, cujas imagens documentam os estragos provocados pelo desmoronamento e a presença de operários junto dos escombros.
A produção experimental teve início em março de 1961 e a laboração regular arrancou a 24 de agosto do mesmo ano, data da inauguração oficial do complexo siderúrgico.
Em Novembro de 1961, poucos meses após a inauguração oficial das instalações, o Noticiário Nacional da RTP documentou a actividade produtiva da Siderurgia Nacional no Seixal, evidenciando as operações industriais ligadas ao fabrico do aço e o trabalho desenvolvido nas diversas secções fabris. As imagens testemunham a entrada em funcionamento do complexo siderúrgico português e a sua importância no fornecimento de materiais destinados a diversos sectores da actividade económica.
Após a Revolução de 25 de Abril, a empresa foi nacionalizada em 1975, entrando num período prolongado de gestão pública, modernização gradual e dificuldades estruturais, num contexto de transformação do setor siderúrgico europeu.
Nos anos 1990 iniciou-se o processo de privatização, que conduziu à reorganização das unidades industriais. O encerramento do alto-forno do Seixal em 2001 assinalou o fim da Siderurgia Nacional enquanto empresa pública e o termo do ciclo siderúrgico integrado em Portugal.
Unidades industriais
Ao longo da sua história, a Siderurgia Nacional desenvolveu a sua actividade industrial em duas grandes unidades produtivas localizadas no Seixal e na Maia. Embora distintas nos processos produtivos utilizados, ambas desempenharam um papel relevante no desenvolvimento da indústria siderúrgica portuguesa ao longo de várias décadas. Complexo industrial do Seixal
O complexo industrial do Seixal foi concebido segundo o modelo da siderurgia integrada, reunindo num único espaço as diferentes etapas do processo produtivo do aço. A sua implantação junto ao estuário do Tejo facilitava a recepção das matérias-primas e o escoamento dos produtos siderúrgicos através do cais privativo da empresa. Durante grande parte da existência da Siderurgia Nacional, constituiu a sua principal unidade produtiva e assegurou o fabrico de uma ampla gama de produtos siderúrgicos utilizados em diferentes sectores industriais.
Unidade industrial da Maia
A unidade industrial da Maia, localizada em São Pedro de Fins, iniciou a sua actividade produtiva em 1976. Ao contrário do complexo industrial do Seixal, concebido segundo o modelo da siderurgia integrada, foi projectada como uma mini-siderurgia baseada na utilização de fornos eléctricos alimentados por sucata ferrosa reciclada. A sua produção centrou-se sobretudo no fabrico de produtos longos destinados à indústria e à construção civil.
No âmbito do processo de reestruturação da Siderurgia Nacional iniciado em 1994, a unidade foi autonomizada e posteriormente privatizada, passando em 1995 para a esfera do grupo espanhol Megasa. A extinção da Siderurgia Nacional em 2001 não determinou o encerramento das instalações industriais da Maia, cuja actividade produtiva prosseguiu sob a gestão das sociedades sucessoras resultantes do processo de privatização. Impacto ambiental miniatura|esquerda|500px|Actividade siderúrgica característica dos processos de produção do aço. Ao longo da sua actividade industrial, a Siderurgia Nacional esteve associada a impactos ambientais característicos da indústria siderúrgica pesada. As preocupações relacionadas com a qualidade do ar, a gestão de resíduos industriais e a modernização dos processos produtivos foram adquirindo crescente relevância ao longo das diferentes fases da história da empresa, acompanhando a evolução da legislação ambiental e das exigências técnicas do sector siderúrgico em Portugal e na Europa.
Desde a década de 1970 foram registados episódios de poluição atmosférica associados à actividade industrial das unidades siderúrgicas do Seixal e da Maia. A evolução tecnológica dos processos produtivos e o progressivo reforço das exigências ambientais conduziram à adopção de medidas destinadas à redução das emissões industriais e à mitigação do respectivo impacto ambiental.
A gestão dos resíduos industriais associados à actividade siderúrgica continuou a constituir um desafio ambiental após o processo de privatização da empresa. Entre os casos mais conhecidos encontra-se a deposição ilegal de resíduos provenientes da SN Maia nas antigas minas de São Pedro da Cova, cuja remoção e descontaminação ambiental mobilizaram sucessivas intervenções públicas nas décadas seguintes.
Impacto social
Ao longo de várias décadas, a Siderurgia Nacional constituiu um dos principais motores económicos do concelho do Seixal e, durante a década de 1970, tornou-se a maior entidade empregadora da região, empregando milhares de trabalhadores directa e indirectamente.
O encerramento do Alto-Forno em 2001 marcou simbolicamente o fim de um ciclo iniciado na década de 1950. Imagens preservadas pelo Arquivo RTP documentam as últimas operações de desactivação das instalações e registam testemunhos de trabalhadores no momento do encerramento. Datas marcantes
1954 – Constituição da empresa.Escritura pública de constituição da Siderurgia Nacional, S.A.R.L. Diário do Governo, III Série, n.º 305, 31-12-1954. 1955 – Emissão do Alvará n.º 1376, que concedeu o exclusivo nacional para a produção de gusa, aço e laminados.Alvará n.º 1376 – Concessão do exclusivo de fabrico de gusa, aço e laminados. Diário do Governo, 12-02-1955. 31 de março de 1961 – Produção do primeiro aço em forno elétrico, em fase de testes. 24 de agosto de 1961 – Inauguração oficial do complexo siderúrgico de Paio Pires e início da laboração regular. 1995 – Início do processo de reprivatização. 2001 – Extinção formal da Siderurgia Nacional, S.A.Dissolução da Siderurgia Nacional, S.A. Diário da República, 2001.
Aspeto social
A Siderurgia Nacional teve um impacto significativo na vida social e comunitária da região do Seixal. Em 1959 foi criado o Clube do Pessoal da Siderurgia Nacional (CPSN), destinado a proporcionar atividades desportivas, culturais e recreativas aos trabalhadores do complexo siderúrgico e às suas famílias.
O CPSN tornou‑se um dos principais polos associativos do concelho, com modalidades desportivas, salas de convívio, biblioteca, eventos culturais e iniciativas comunitárias. O clube preserva ainda hoje elementos da memória industrial da Siderurgia Nacional, incluindo:
a escultura em aço de cinco toneladas, criada por Moita Macedo em 1964 e atualmente instalada no hall de entrada do clube; exposições e atividades que evocam a história da empresa e o papel dos trabalhadores; a manutenção do nome e identidade original, refletindo a ligação histórica ao complexo siderúrgico.
A existência do CPSN constitui um dos principais testemunhos vivos do impacto social da Siderurgia Nacional na região.
Privatização e extinção
Em 1995 iniciou‑se o processo de reprivatização da empresa, no âmbito da reestruturação do setor siderúrgico nacional. As unidades industriais foram separadas e integradas em novos grupos empresariais, incluindo a SN Serviços e a SN Longos, que continuaram a operar no complexo de Paio Pires.
A sociedade original Siderurgia Nacional, S.A. manteve apenas funções residuais de gestão patrimonial e financeira até ser formalmente extinta em 2001.
Referências
Categoria:Seixal Categoria:Empresas sediadas no distrito de Setúbal Categoria:Empresas extintas sediadas em Portugal Categoria:Empresas siderúrgicas extintas