O incêndio florestal de Vouzela de 2026 é um incêndio florestal que deflagrou pelas 03h04 de 2 de julho de 2026, em Tourelhe, na freguesia de Cambra, no concelho de Vouzela, distrito de Viseu. Até 3 de julho, propagou-se aos concelhos de Oliveira de Frades e Tondela, também no distrito de Viseu, e ao de Águeda, no distrito de Aveiro.
Segundo uma estimativa do Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS), divulgada na noite de 3 de julho, nesse dia o incêndio já tinha consumido 12 160 hectares de floresta e mato, tornando-se o maior incêndio ocorrido em Portugal em 2026 até então. A estimativa, baseada em dados dos sensores VIIRS e MODIS, apontava também para um perímetro superior a 50 quilómetros. No balanço divulgado pela Protecção Civil na noite de 4 de julho, a área ardida foi indicada como 13 000 hectares. Em 5 de julho, a RTP referiu que a área ardida se aproximava dos 14 000 hectares.
Em 5 de julho, a RTP referiu que a área ardida se aproximava dos 14 000 hectares. Posteriormente, a RTP noticiou que o incêndio tinha queimado pelo menos 15 000 hectares de floresta.
Contexto
O incêndio tem lugar durante uma vaga de calor que afecta várias regiões de Portugal continental. Em 3 de julho, doze distritos do continente estavam sob aviso vermelho devido ao calor e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) classificava quase todo o território continental com perigo máximo ou muito elevado de incêndio.
No próprio dia da deflagração, o Governo declarou a situação de alerta em todo o território continental, com vigência entre as 00h00 de 3 de julho e as 23h59 de 6 de julho, face às previsões de agravamento significativo do risco de incêndios rurais e à elevação do estado de alerta especial do Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro.
Segundo a Câmara Municipal de Águeda, o vento forte e as temperaturas elevadas contribuíram para uma progressão rápida do incêndio e para numerosas projecções, que fizeram as chamas atravessar dezenas de localidades em poucas horas.
Evolução O incêndio iniciou-se na madrugada de 2 de julho em Tourelhe. Na noite seguinte, alastrou ao concelho de Águeda, entrando pelo território através da aldeia de Macieira de Alcôba, depois das 22h00. Segundo a Câmara Municipal de Águeda, o vento forte e as temperaturas elevadas favoreceram uma progressão rápida, com projecções que atravessaram dezenas de localidades; cerca das 04h30, verificavam-se focos de incêndio em zonas de vegetação da área urbana da cidade de Águeda.
A evolução do fogo estendeu-se também às vertentes da Serra do Caramulo, no concelho de Tondela. Durante a manhã de 3 de julho, foram evacuadas as aldeias de Matadagas e Mançores, na freguesia de São João do Monte. Ainda nesse dia, pelas 17h30, as autoridades evacuaram também a aldeia de Belazeima do Monte, igualmente no concelho de Tondela, depois de já terem retirado pessoas de Mançores.
Combate e proteção civil
Pelas 14h00 de 3 de julho, o incêndio era combatido por 986 operacionais, apoiados por 324 veículos e 11 meios aéreos, segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. A Protecção Civil (ANEPC) identificou como localidades sob especial atenção Bolfiar, Chã, Carvalhal de Vermilhas, Cambra e São Tiaguinho; parte da população foi retirada para zonas de acolhimento.
A Câmara Municipal de Águeda ativou o respetivo Plano Municipal de Emergência de Protecção Civil às 00h30 de 3 de julho, referindo a existência de frentes activas nas freguesias de Agadão, Águeda, Castanheira do Vouga, Valongo do Vouga e na União das Freguesias de Préstimo e Macieira de Alcoba. A ANEPC informou igualmente que os municípios de Vouzela e Águeda tinham activado os seus planos municipais de emergência. Também o Município de Tondela activou o seu Plano Municipal de Emergência e Protecção Civil pelas 13h00 de 3 de julho, depois de o incêndio ter entrado no concelho na noite anterior; a autarquia indicou ainda ter auxiliado preventivamente a evacuação de Matadagas e Mançores.
Durante a tarde de 3 de julho, as chamas lavravam muito próximo de Cambarinho, na vertente norte da Serra do Caramulo. Pelas 19h30, o dispositivo de combate era composto por 1 128 operacionais, 367 meios terrestres e oito meios aéreos. Em conferência de imprensa, o comandante nacional de emergência e protecção civil, Mário Silvestre, afirmou que, durante a noite anterior, o incêndio atingira uma velocidade de propagação de dois quilómetros por hora e consumira, em média, 600 hectares por hora. Na noite de 3 de julho, o sector do incêndio no concelho de Tondela estava circunscrito, não havendo aldeias em risco nem vias cortadas.
Na manhã de 4 de julho, o comandante regional de Emergência e Protecção Civil, José Neves, afirmou que o combate evoluíra favoravelmente durante a noite, apesar das dificuldades causadas pelo vento. Foram eliminados cerca de 50% do perímetro do incêndio, embora o lado esquerdo continuasse activo em cerca de 80% do seu perímetro, concentrando-se a maior preocupação em aproximadamente cinco quilómetros lineares. Pelas 11h30, a ANEPC indicava estarem mobilizados 1 174 operacionais, 390 meios terrestres e dez meios aéreos.
Pelas 12h15, Carla Antunes Borges, presidente da Câmara Municipal de Tondela, declarou que o incêndio mantinha várias frentes activas na encosta da serra do Caramulo, na freguesia de São João do Monte, sem que houvesse populações em risco, nem indicação de casas de primeira habitação destruídas no concelho.
Às 15h32 de 4 de julho, o registo do incêndio no Fogos.pt indicava que a ocorrência continuava em curso, com 1 124 operacionais, 381 meios terrestres e cinco meios aéreos mobilizados. Durante a tarde, as chamas aproximaram-se de habitações em São João do Monte, no concelho de Tondela, tendo as descargas de água no local permitido controlar a situação. No concelho de Vouzela, o vereador da Protecção Civil, Pedro Cardoso, declarou que persistiam duas frentes activas e que o calor, o vento e a baixa humidade dificultavam o combate, embora não houvesse então habitações em risco.
A situação agravou-se em Daires, na serra do Caramulo, freguesia do Guardão, identificada como a frente que mais preocupava as autoridades no concelho de Tondela. Pelas 20h50, a presidente da Câmara Municipal de Tondela afirmou que o incêndio tinha chegado à aldeia de Daires e continuava a lavrar com intensidade junto de várias povoações das freguesias de São João do Monte e do Guardão, sem necessidade de evacuações nesse momento.
Na localidade de Cercosa, em Campia, a frente de fogo chegou a ficar a cerca de um quilómetro da povoação, levando à intervenção de meios aéreos da Força Aérea. Às 19h00, o incêndio encontrava-se mais estabilizado e iria receber reforço de meios, embora continuasse a concentrar a preocupação da ANEPC. Ao início da noite, a situação em Cercosa encontrava-se mais calma. Pelas 20h30, a frente de Cercosa continuava activa e descontrolada, apresentando, no entanto, sinais de cedência; a frente aproximou-se da aldeia, embora não tenha sido necessário evacuá-la. Às 01h05 de 5 de julho, o registo da ocorrência principal no Fogos.pt indicava que o incêndio permanecia em curso, com 1 340 operacionais e 447 meios terrestres mobilizados, sem meios aéreos activos naquele momento.
Na manhã de 5 de julho, o combate evoluiu favoravelmente. Segundo o comandante regional de Emergência e Protecção Civil Simão Velez, uma das frentes encontrava-se 100% em consolidação e vigilância, enquanto a outra estava 80% dominada, em consolidação e vigilância, e 20% activa, com intensidade moderada, mantendo ainda alguns pontos com potencial para reactivação forte. Pelas 08h00, o incêndio mobilizava cerca de 1 200 operacionais e 407 meios terrestres. Ainda durante a manhã o incêndio deixou de apresentar frentes activas, permanecendo cerca de 1 200 bombeiros no terreno para consolidação e prevenção de reactivacções. Pelas 12h40, foi dado como dominado, embora os bombeiros mantivessem atenção aos reacendimentos em todo o perímetro. Às 20h25 do mesmo dia, o Fogos.pt passou a registar a ocorrência como estando em resolução.
Impacto
Na manhã de 3 de julho, o presidente da Câmara Municipal de Águeda declarou que o incêndio tinha atingido anexos e casas devolutas no concelho mas que, até às 09h00, não havia pessoas desalojadas. Pelas 14h00 de 3 de julho, a ANEPC contabilizava cinco feridos: três bombeiros com ferimentos ligeiros e dois civis com ferimentos graves, todos transportados para unidades hospitalares. O balanço de vítimas foi sendo actualizado durante os primeiros dias do combate. Em 5 de julho, o comandante operacional Simão Velês indicou à Renascença que o balanço de vítimas havia subido para 47 feridos, dos quais dois graves, 13 ligeiros e 32 assistidos no local. Os dois feridos graves foram um homem de 55 anos, que sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus ao tentar apagar o incêndio, e um homem de 34 anos, que sofreu um traumatismo craniano grave ao cair de uma carrinha particular que transportava água; ambos foram evacuados de helicóptero pelo INEM.
Uma fábrica da FTC Fuels, dedicada à produção de componentes de madeira e biomassa e situada na Zona Industrial 2 de Campia, em Vouzela, ficou totalmente destruída. Segundo Luís Lobo, um dos sócios da empresa, a unidade empregava 14 trabalhadores, resultara de um investimento de quatro milhões de euros realizado quatro anos antes, tendo sido atingida por uma projecção de uma das frentes do incêndio. Arderam a madeira armazenada, o armazém, a oficina, a zona de processamento e o escritório. Ocorreram ainda prejuízos em empresas, na agricultura, na agropecuária e no património natural. Segundo a estação, as chamas destruíram passadiços e uma reserva botânica, sendo as perdas industriais estimadas em milhões de euros.
O incêndio levou à suspensão temporária da circulação ferroviária na Linha do Vouga. Segundo a Infraestruturas de Portugal, a circulação entre Águeda e Sernada do Vouga foi posteriormente normalizada.
Na noite de 3 de julho, a A25 esteve cortada ao trânsito entre as 19h20 e as 21h40, entre o nó de Vouzela/São Pedro do Sul e o nó de Reigoso, no concelho de Oliveira de Frades, devido ao incêndio.
Resposta institucional
Em 2 de julho, o Governo declarou a situação de alerta em todo o território continental entre as 00h00 de 3 de julho e as 23h59 de 6 de julho, devido ao agravamento do risco de incêndios rurais. A medida implicou, entre outras restrições, a proibição de acesso a determinados espaços florestais, queimadas, utilização de maquinaria em áreas florestais e rurais e uso de fogo-de-artifício.
Em 3 de julho, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou a decisão de ativar o Mecanismo Europeu de Protecção Civil e os acordos bilaterais com Espanha e Marrocos, face aos incêndios que afetavam o país, declarando, no entanto, que a capacidade nacional de combate não se encontrava ainda esgotada. No âmbito do acordo bilateral entre Portugal e Espanha, activado em paralelo com o Mecanismo Europeu de Protecção Civil, Espanha disponibilizou uma das duas aeronaves Canadair solicitadas por Portugal para apoio ao combate aos incêndios rurais.
Na madrugada de 4 de julho, uma equipa da Unidade Militar de Emergências de Espanha, composta por 120 operacionais e 30 veículos, chegou a Portugal e iniciou o apoio ao combate ao incêndio pelas 02h30. No mesmo dia, uma fonte oficial da Comissão Europeia informou que 118 bombeiros e 45 veículos provenientes de Espanha tinham chegado a Portugal e que três aeronaves de combate a incêndios da rede rescEU, provenientes de Itália e de Espanha, estavam a caminho. Dois aviões anfíbios Canadair enviados por Itália deveriam ficar baseados na Base Aérea de Beja e intervir no incêndio de Vouzela.
Investigação