Incêndio florestal é um incêndio de vegetação não planeado ou não controlado que se desenvolve em áreas florestais ou arborizadas, utilizando como combustível a biomassa vegetal viva ou morta presente no solo, no sub-bosque e nas copas das árvores.

O termo designa uma modalidade de incêndio de vegetação definida sobretudo pelo ambiente e pelos combustíveis atingidos, distinguindo-se, assim, de incêndios agrícolas, urbanos ou industriais. Não se confunde igualmente com o fogo controlado, que consiste no uso planeado do fogo, em condições técnicas previamente definidas, para objectivos de gestão do território ou de conservação.

Ignição e comportamento

A combustão depende da presença de combustível, de um agente oxidante e de energia de ignição. Num incêndio florestal, a ignição pode resultar de causas naturais, como descargas atmosféricas, ou de actividades humanas acidentais, negligentes ou intencionais.

O comportamento do incêndio é condicionado pelas características dos combustíveis, pela meteorologia e pela topografia. A carga, continuidade, estrutura vertical, dimensão e humidade dos combustíveis influenciam a facilidade de ignição e a velocidade de propagação. Ventos fortes, temperaturas elevadas e baixa humidade relativa favorecem a secagem dos combustíveis e podem aumentar a intensidade e a rapidez do fogo. Em terreno inclinado, a propagação tende a acelerar na subida, pois as chamas e os gases quentes pré-aquecem os combustíveis situados acima da frente de fogo.

Modos de propagação

Os incêndios florestais podem desenvolver-se simultaneamente em diferentes estratos da vegetação e do solo. O fogo de subsolo ou de solo propaga-se em matéria orgânica acumulada, raízes, turfa ou horizontes orgânicos do solo, podendo manter combustão lenta e pouco visível durante períodos prolongados. O fogo de superfície propaga-se através da serapilheira, ervas, ramos caídos, arbustos e restante combustível localizado sobre ou junto ao solo. E o fogo de copas atinge a folhagem e os ramos das árvores, podendo propagar-se entre as copas quando existe continuidade vertical e horizontal de combustível.

A passagem de um fogo de superfície para um fogo de copas é facilitada pela presença de combustíveis de escada, isto é, vegetação que estabelece continuidade entre o solo e a copa das árvores. Em incêndios intensos, partículas incandescentes, conhecidas como projecções, podem ser transportadas pelo vento e originar focos secundários à frente da frente principal.

Intensidade, severidade e regime de fogo

A intensidade de um incêndio corresponde à energia libertada pela frente de fogo, enquanto a severidade descreve o grau de alteração causado no ecossistema, incluindo efeitos sobre a vegetação, o solo e os organismos. Os dois conceitos estão relacionados, mas não são equivalentes, pois incêndios de intensidade semelhante podem produzir efeitos ecológicos diferentes consoante a estação do ano, os combustíveis, o solo e a capacidade de recuperação das espécies presentes.

O regime de fogo corresponde ao padrão de ocorrência de fogo característico de um ecossistema, incluindo a frequência, a estação, a intensidade, a severidade e a extensão espacial dos incêndios. A história evolutiva de numerosas formações florestais foi influenciada por regimes recorrentes de fogo, que favoreceram adaptações como casca espessa, rebentação após o fogo e libertação ou germinação de sementes estimulada pelo calor.

Efeitos ecológicos

O fogo é um processo ecológico importante em alguns ecossistemas florestais, podendo renovar a vegetação, modificar a disponibilidade de recursos e criar mosaicos de habitats em diferentes fases de recuperação. Porém, os efeitos dependem da relação entre o incêndio e o regime de fogo a que cada ecossistema está adaptado. Incêndios demasiado frequentes, extensos ou severos podem impedir a recuperação da vegetação, simplificar comunidades ecológicas e favorecer a erosão ou a invasão por espécies oportunistas.

A remoção da cobertura vegetal e da serapilheira pode aumentar o escoamento superficial e tornar os solos queimados mais susceptíveis à erosão, sobretudo quando ocorrem chuvas intensas após o incêndio.

Impactos sobre as populações

Os incêndios florestais podem provocar mortes, ferimentos, evacuações, danos em habitações, infra-estruturas e actividades económicas, especialmente nas zonas de contacto entre áreas florestais e povoações.

O fumo dos incêndios contém gases e partículas que podem degradar a qualidade do ar a grandes distâncias da área ardida. A exposição não profissional ao fumo de incêndios florestais tem sido associada a efeitos respiratórios e cardiovasculares, com maior vulnerabilidade entre crianças, idosos e pessoas com doenças pré-existentes.

Alterações climáticas

As alterações climáticas antropogénicas contribuem para o aumento das condições meteorológicas propícias ao fogo em várias regiões, nomeadamente através de períodos mais quentes e secos e de alterações na disponibilidade de humidade. Contudo, a ocorrência, dimensão e gravidade de cada incêndio dependem também das fontes de ignição, da gestão do território, da continuidade dos combustíveis, do uso do solo e da capacidade de supressão.

Prevenção, gestão e supressão

A gestão do risco de incêndio florestal abrange medidas de prevenção, preparação, detecção, supressão, recuperação pós-incêndio e adaptação da paisagem. Entre as medidas de redução do perigo encontram-se a diminuição da continuidade dos combustíveis, a criação de mosaicos de usos do solo, a manutenção de faixas de gestão de combustível, a sensibilização para comportamentos de risco e o planeamento da protecção de povoações expostas.

O fogo prescrito e outras técnicas de gestão de combustível podem reduzir a disponibilidade de biomassa inflamável e limitar o comportamento de futuros incêndios, mas a sua eficácia depende das condições meteorológicas, da vegetação, da escala da intervenção e da manutenção posterior das áreas tratadas.

A supressão procura conter e extinguir o incêndio através de acções directas sobre a frente de fogo, de acções indirectas de criação ou aproveitamento de descontinuidades de combustível e da protecção de pessoas, habitações e infra-estruturas ameaçadas. Após a extinção, as medidas de estabilização e recuperação devem atender à erosão, à protecção das linhas de água, à segurança de infra-estruturas e à regeneração da vegetação.

Terminologia em Portugal

No regime jurídico português aplicável ao território continental, o Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais define incêndio rural como a deflagração ou progressão de fogo não planeada ou não controlada, em território rural, que requer acções de supressão.

O mesmo diploma considera territórios rurais os territórios florestais e agrícolas, e inclui nos territórios florestais as florestas, os matos, as pastagens espontâneas, as superfícies agroflorestais e a vegetação esparsa. Assim, no contexto desse regime, um incêndio em área florestal integra normalmente a categoria mais ampla de incêndio rural, mas nem todo o incêndio rural é um incêndio florestal em sentido estrito. O decreto-lei distingue ainda fogo rural, entendido como qualquer fogo exterior a edifício em território rural, do incêndio rural, que pressupõe ocorrência não planeada ou não controlada e necessidade de supressão.

Categoria:Incêndios florestais Categoria:Ecologia florestal Categoria:Gestão florestal