Santo Tomé de Guayana foi uma povoação colonial espanhola e sede administrativa da Província da Guiana, estabelecida em sucessivos locais da região do baixo rio Orinoco entre o final do século XVI e 1764. Associada às expedições de Antonio de Berrío e à procura do El Dorado, serviu como ponto de apoio para a navegação no Orinoco, para a ocupação espanhola da Guiana e para a administração provincial. Foi destruída ou abandonada em diferentes ocasiões, em contexto de guerra, incursões estrangeiras e dificuldades de abastecimento.

Em 1764, a povoação foi transferida para a angostura — o estreitamento do Orinoco — recebendo a designação de Santo Tomé de la Nueva Guayana de la Angostura del Orinoco, geralmente abreviada para Angostura. Esse assentamento é o antecedente directo da actual Ciudad Bolívar, nome adoptado em 1846.

Alcance histórico do topónimo A designação Santo Tomé de Guayana não correspondeu, durante todo o período colonial, a uma única localização urbana contínua. A historiografia relaciona-a com vários estabelecimentos e transferências no curso inferior do Orinoco, ligados à defesa do rio e à colonização da Guiana. Por essa razão, a sua história não se confunde inteiramente com a da actual Ciudad Bolívar, apesar de a cidade fundada em Angostura, em 1764, constituir a sua sucessora institucional e urbana. Também não deve ser confundida com Ciudad Guayana, cidade fundada no século XX junto à confluência dos rios Orinoco e Caroní, que adoptou o nome histórico de Santo Tomé de Guayana em parte da sua nomenclatura.

Fundação e primeiras etapas A criação de Santo Tomé de Guayana esteve ligada às expedições de Antonio de Berrío, herdeiro das pretensões de Gonzalo Jiménez de Quesada sobre a governadoria de El Dorado. Entre 1583 e 1591, Berrío explorou os lhanos e as bacias do Meta, do Orinoco e do Caroní, procurando uma via de acesso ao interior da Guiana e à alegada cidade de Manoa ou El Dorado.

As fontes secundárias não são inteiramente uniformes quanto ao momento exacto que deve ser considerado a fundação da povoação. Algumas relacionam o primeiro estabelecimento fortificado com a terceira jornada de Berrío, iniciada em 1590 e conduzida até ao Caroní; outras situam a fundação da cidade depois de 1595, quando Berrío regressou ao Orinoco após o cativeiro imposto por Walter Raleigh em Trindade, pelo que Santo Tomé de Guayana parece ser mais rigorosamente entendida como o resultado de um processo de fundação, fortificação e povoamento desenvolvido por Berrío na década de 1590, e não como uma criação inequivocamente atribuível a uma única data.

A localidade desempenhava simultaneamente funções militares, administrativas e logísticas. A sua posição no Orinoco permitia controlar a navegação fluvial e servia de base para as entradas espanholas na Guiana. A expectativa de encontrar riquezas minerais no interior, alimentada pelos relatos sobre El Dorado, foi uma das razões principais da insistência de Berrío em consolidar uma povoação na região.

Antonio e Fernando de Berrío Antonio de Berrío morreu em Santo Tomé de Guayana, em 1597, sucedendo-lhe o filho Fernando de Berrío, que retomou a governação da Guiana e procurou reforçar a ocupação espanhola da região.

Sánchez Ramos emprega a designação Nueva Guipúzcoa del Dorado para a governadoria recebida por Fernando de Berrío após a morte do pai, expressão útil para identificar o contexto político e familiar da administração dos Berrío, mas que não deve ser tomada como nome único e invariável da entidade em toda a documentação colonial, uma vez que outras fontes utilizam fórmulas como Província da Guiana ou governadoria de Guiana.

Sob Fernando de Berrío, Santo Tomé de Guayana continuou ligada à exploração do interior guianense, à procura de El Dorado, à defesa do Orinoco e às relações comerciais da região, nomeadamente com Trindade e as zonas costeiras das Guianas.

Ataque da expedição de Raleigh A povoação foi atacada durante a última expedição de Walter Raleigh à Guiana, iniciada em 1617. Um destacamento inglês comandado por Lawrence Keymis subiu o Orinoco e entrou em conflito com os defensores de Santo Tomé de Guayana. Durante o combate, morreu Watt Raleigh, filho de Walter Raleigh, sendo morto o governador espanhol Diego Palomeque de Acuña. Os homens de Keymis tomaram a povoação, procurarando sem êxito as minas de ouro que esperavam encontrar, permanecendo na área durante várias semanas. Antes da retirada, pilharam e incendiaram Santo Tomé de Guayana. O ataque agravou a fragilidade da presença espanhola no baixo Orinoco, tornando mais urgente a reconstrução da sede governativa.

Reconstrução de 1619 Fernando de Berrío regressou à Guiana em 1619, munido de credenciais da Real Audiência de Santa Fé de Bogotá, e encontrou Santo Tomé de Guayana destruída. Chegou à povoação em 11 de março daquele ano, depois de seguir pelos rios Casanare, Meta e Orinoco.

A reconstrução foi empreendida nas imediações de Chirica, local mais defensável e mais apto ao cultivo do tabaco. A reconstrução da cidade implicou a reactivação da agricultura, do comércio e das comunicações fluviais, mas a posição isolada da Guiana, a escassez de recursos e a presença de potências estrangeiras nas zonas costeiras continuaram a limitar a consolidação do povoamento.

Presídio e transferência para Angostura No início do século XVIII, Santo Tomé de Guayana tinha importância estratégica, mas população reduzida. A propósito do governo de Agustín Arredondo, o Diccionario de Historia de Venezuela caracteriza a localidade como um presídio de escassa população.

A situação defensiva da povoação e a necessidade de controlar melhor a navegação no Orinoco estiveram entre os factores que levaram à decisão de a transferir. Em 5 de junho de 1762, a instrução dirigida a Joaquín Sabás Moreno de Mendoza ordenou que Santo Tomé de Guayana fosse deslocada para a angostura do Orinoco.

A transferência foi concretizada em 1764, quando Moreno de Mendoza estabeleceu a nova povoação no estreitamento do rio. O nome oficial adoptado foi Santo Tomé de la Nueva Guayana de la Angostura del Orinoco, mas a forma Angostura tornou-se corrente. A nova localização oferecia vantagens militares e de comunicação, marcando o fim das sucessivas fundações e traslados associados à antiga Santo Tomé de Guayana.

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