Abu Huraira (; Iêmen, c. 600 — Medina, 678/679), também conhecido como Abederramão ibne Sacre Adauci (), foi um companheiro de Maomé, tradicionalmente considerado o mais prolífico transmissor de hádices do islão. Pertencia aos daucitas, ramo da tribo dos azeditas, e converteu-se ao islão em 628, durante a campanha de Caibar. Embora tenha convivido com Maomé por apenas cerca de três anos, permaneceu continuamente ao seu lado nesse período como membro dos , dedicando-se integralmente ao aprendizado dos ensinamentos do profeta. Segundo a tradição islâmica, transmitiu mais de cinco mil hádices, tornando-se uma das figuras centrais da literatura tradicional sunita.
Após a morte de Maomé, participou da administração dos primeiros califados, exercendo funções judiciais e administrativas no Barém durante os governos de Omar e, posteriormente, desempenhando missões em Medina durante o califado de . Embora tenha apoiado Otomão durante a crise que culminou em seu assassinato, manteve posição de neutralidade nas guerras civis entre Ali ibne Abi Talibe e Moáuia, recomendando repetidamente que os muçulmanos evitassem participar dos conflitos internos. Além de transmissor de hádices, destacou-se como mestre de recitação corânica, emissor de pareceres jurídicos e professor de numerosos companheiros e sucessores, influenciando profundamente o desenvolvimento das ciências islâmicas.
A figura de Abu Huraira ocupa posição singular na história intelectual do islão. Sua extraordinária produção de hádices foi amplamente aceita pelos estudiosos sunitas desde os primeiros séculos, mas também se tornou objeto de críticas de alguns companheiros, de determinados juristas, de autores xiitas e, posteriormente, de orientalistas modernos. Essas controvérsias fizeram dele uma das personalidades mais debatidas da tradição islâmica, ao mesmo tempo em que consolidaram sua reputação como um dos principais depositários da memória sobre a vida e os ensinamentos de Maomé.
Vida
Abu Huraira nasceu no Iêmen, entre os daucitas, um ramo da tribo dos azeditas, embora a data exata de seu nascimento permaneça desconhecida. As fontes antigas divergem quanto ao seu nome antes da conversão ao islão, registrando variantes como Abede Xemece, Abede Anre, Sucaine e Anre ibne Abede Gane. Segundo a tradição islâmica, Maomé alterou posteriormente seu nome para Abederramão ou Abedalá. Também há divergências acerca dos nomes de seus pais, embora a maioria das tradições identifique sua mãe como Umaima ou Maimuna binte Subai. A origem de sua célebre cúnia é tradicionalmente atribuída ao hábito de carregar pequenos gatos nas dobras da roupa quando pastoreava rebanhos, motivo pelo qual passou a ser chamado "Abu Huraira" ("pai da gatinha"). Alguns relatos indicam, entretanto, que ele próprio preferia ser chamado de Abu Hir, forma pela qual ocasionalmente era tratado pelo próprio Maomé. Embora tenha afirmado ter crescido órfão, indícios preservados pelas fontes apontam que pertencia a uma família respeitada entre os daucitas, tendo um tio que exerceu a chefia tribal durante os califados de Abu Becre e Omar , circunstância que contrasta com a imagem, por vezes difundida na literatura moderna, de que teria origem social obscura. Abu Huraira converteu-se ao islão no início de 628, provavelmente por intermédio de , que havia levado a nova religião aos daucitas. Pouco depois, integrou uma caravana formada por dezenas de famílias de sua tribo que partiu para Medina a fim de encontrar Maomé. Ao chegarem, souberam que o profeta se encontrava em campanha contra Caibar e seguiram até lá, participando das fases finais da expedição e da conquista de algumas fortalezas. A partir desse momento, Abu Huraira estabeleceu-se definitivamente entre os muçulmanos de Medina.
Desde sua chegada a Medina, dedicou-se quase exclusivamente ao aprendizado da religião. Passou a viver entre os , grupo de muçulmanos sem recursos que residia junto à Mesquita do Profeta, e abandonou praticamente toda atividade econômica para permanecer constantemente na companhia de Maomé. O próprio Abu Huraira relatou que suportava períodos de extrema fome e privação para não perder nenhuma oportunidade de ouvir os ensinamentos do profeta, chegando por vezes a desmaiar de fraqueza. Quando Maomé lhe perguntou se desejava receber parte dos despojos de guerra, respondeu que preferia aprender aquilo que Deus havia ensinado ao mensageiro. Durante esse período acompanhou a maior parte das campanhas militares finais da vida de Maomé, incluindo parte da conquista de Caibar, a Unra da Compensação, além de diversas expedições menores, desempenhando também missões de confiança, como a condução dos animais destinados ao sacrifício. Após a morte de Maomé, Abu Huraira acompanhou Alalá ibne Alhadrami ao Barém, inicialmente durante as campanhas contra os movimentos de apostasia que sucederam a morte do profeta e, posteriormente, na reorganização administrativa da província durante o califado de Abu Becre. Embora algumas tradições tenham dado a entender que permaneceu continuamente na região até a morte de Alalá ibne Alhadrami, as fontes indicam que este foi substituído ainda durante a vida de Maomé, sendo novamente nomeado por Abu Becre apenas por ocasião das guerras da apostasia. A permanência de Abu Huraira no Barém explica por que ele próprio afirmava ter convivido com Maomé durante cerca de três anos, apesar de terem transcorrido aproximadamente quatro anos entre sua chegada a Medina e a morte do profeta.
Durante o califado de Omar, Abu Huraira exerceu sucessivamente funções judiciais, religiosas e administrativas no Barém. Inicialmente foi encarregado de dirigir as orações e julgar litígios na província e, mais tarde, foi nomeado governador em duas ocasiões. Ao regressar a Medina após um de seus mandatos, foi submetido à rigorosa fiscalização patrimonial que Omar costumava impor aos governadores. Questionado sobre a origem de cerca de vinte mil dirrãs que trazia consigo, explicou que a quantia provinha do comércio, da criação de cavalos, dos salários acumulados e dos rendimentos obtidos por seus servos. Apesar de algumas tradições relatarem que Omar o teria censurado severamente e determinado a incorporação de parte de seus bens ao tesouro público, outras informam que a investigação concluiu não haver qualquer apropriação indevida de recursos estatais. Segundo essas narrativas, o califa insistiu para que Abu Huraira reassumisse o governo da província, mas este recusou a oferta por não desejar voltar a ser alvo de suspeitas e constrangimentos. Durante a crise que culminou no assassinato de Otomão , Abu Huraira permaneceu ao lado do califa e chegou a apresentar-se armado para defendê-lo durante o cerco à sua residência. Otomão, contudo, proibiu qualquer reação armada que pudesse provocar derramamento de sangue entre os muçulmanos, levando Abu Huraira a depor as armas. Após esse episódio, passou a condenar repetidamente os conflitos internos da comunidade islâmica, sustentando que, diante das guerras civis, o melhor caminho seria evitar o uso da força. Assim, quando eclodiram os confrontos entre Ali ibne Abi Talibe e Moáuia I, adotou posição de neutralidade, à semelhança de outros companheiros proeminentes, recusando-se a combater em qualquer dos lados. Embora algumas fontes xiitas posteriores afirmem que teria apoiado Moáuia na Batalha de Sifim, os principais relatos sunitas e mesmo algumas das mais antigas narrativas sobre o conflito não registram sua participação militar, razão pela qual essa tradição é geralmente considerada destituída de fundamento histórico.
Durante o governo de Moáuia, Abu Huraira permaneceu residindo principalmente em Medina. Algumas fontes afirmam que exerceu interinamente o governo da cidade em ocasiões nas quais Maruane ibne Aláqueme se ausentava, presidindo as orações públicas, julgando causas e desempenhando outras funções administrativas. Apesar de manter boas relações com o califa, relatos preservados pela tradição islâmica registram que advertia Maruane sempre que julgava que este se afastava dos princípios defendidos por Maomé. Nos últimos anos de vida retirou-se para sua propriedade em Dul Hulaifa ou na região de Alaquique, nas proximidades de Medina, onde faleceu em 678 ou 679, com cerca de setenta e oito anos de idade. Seu corpo foi levado para Medina, onde recebeu as honras fúnebres na presença de diversos companheiros sobreviventes, sendo sepultado no Cemitério de Albaqui. Após receber a notícia de sua morte, Moáuia determinou que fossem concedidos dez mil dirrãs aos seus familiares e recomendou que fossem tratados com consideração.
Personalidade
As fontes islâmicas descrevem Abu Huraira como um homem de pele morena, barba avermelhada pela hena e constituição física robusta. Era conhecido pelo bom humor, pela simplicidade e pela facilidade de relacionamento com pessoas de diferentes origens, características que contribuíram para sua popularidade entre os companheiros e sucessores. Diversos relatos preservam episódios em que utilizava expressões bem-humoradas sem perder a sobriedade esperada de um transmissor de hádices. Apesar da pobreza que marcou os primeiros anos de sua permanência em Medina, sua situação financeira melhorou gradualmente após as conquistas islâmicas e o exercício de cargos administrativos, permitindo-lhe adquirir propriedades rurais nas proximidades da cidade. Ainda assim, as fontes enfatizam que manteve hábitos de vida relativamente modestos, destinando parte de sua renda à caridade e ao sustento de familiares e dependentes. Sua mãe permaneceu inicialmente afastada do islão e, segundo a tradição, chegou a dirigir palavras ofensivas contra Maomé, fato que causou grande sofrimento a Abu Huraira. Os relatos afirmam que ele procurou o profeta e lhe pediu que orasse por sua conversão, oração que teria sido atendida pouco tempo depois, quando sua mãe abraçou o islão. O episódio tornou-se um dos relatos mais conhecidos sobre a devoção filial de Abu Huraira, frequentemente citado pelos estudiosos muçulmanos como exemplo da importância atribuída ao respeito e à benevolência para com os pais. Depois da conversão, continuou vivendo próximo da mãe e demonstrava-lhe profundo afeto, saudando-a e pedindo suas bênçãos sempre que saía ou retornava à residência.
Abu Huraira casou-se depois da morte de Maomé com Busra binte Gazuane, irmã do companheiro Oteba ibne Gazuane, de quem teve filhos, entre eles Almuarrir. Algumas tradições também mencionam descendentes que se destacaram posteriormente como estudiosos e transmissores de hádices. Além da família, possuía servos e escravos, circunstância comum entre membros da elite muçulmana após as conquistas do . As fontes registram, contudo, que costumava libertar escravos e recomendava tratamento benevolente aos cativos, preservando a reputação de homem piedoso e generoso construída desde os tempos em que vivia entre os Companheiros da Sufa. Sua vida religiosa era marcada por intensa dedicação ao culto. Era conhecido por prolongar as orações voluntárias, jejuar frequentemente e dedicar parte considerável da noite à recitação do Alcorão e à devoção. Segundo alguns relatos, dividia as horas noturnas entre si, a esposa e uma filha, de modo que sempre houvesse alguém da família em oração durante toda a noite. A literatura biográfica também registra seu apreço pela hospitalidade e pela alimentação simples, bem como sua constante preocupação em seguir os hábitos atribuídos a Maomé mesmo nos aspectos mais cotidianos da vida. Essas características contribuíram para consolidar sua imagem como um dos exemplos clássicos de ascetismo moderado e devoção entre os primeiros muçulmanos.
Transmissão de hádices