Os hudailitas ou Banu Hudail () foram uma tribo árabe do Hejaz, pertencente aos modaritas e tradicionalmente descendente de Hudail ibne Mudrica. Divididos principalmente entre os ramos dos saditas e dos liianitas, eram estreitamente aparentados aos coraixitas e ocupavam desde a Jailia uma extensa região montanhosa nos arredores de Meca, prolongando-se em direção a Taife e abrangendo os vales de Nacla e Marre Azarã, atual Uádi Fátima. Seu território, situado no que chegou a ser denominado o "coração do Hejaz", incluía importantes rotas entre Meca e o restante da região e o mercado pré-islâmico de , realizado nas proximidades de Arafate.

No período pré-islâmico, os hudailitas participaram de numerosos conflitos com tribos vizinhas e aparecem nas tradições relacionadas à história de Meca e da Caaba. Praticavam a religião politeísta árabe e estavam particularmente associados ao culto de Suá, cujo santuário era guardado pelos liianitas, além de possuírem ou compartilharem com os cuzaaítas o santuário de Manate em Cudaide. Durante o conflito entre Maomé e os coraixitas, a maior parte da tribo permaneceu inicialmente ao lado destes, participando de confrontos com os muçulmanos até a Conquista de Meca, em 630, após a qual os hudailitas aderiram ao Islã e seus principais santuários pagãos foram destruídos. Ramos da tribo posteriormente se dispersaram durante as conquistas islâmicas pela Síria, Egito e Norte da África, embora parte considerável dos hudailitas permanecesse em seu território tradicional no Hejaz.

Os hudailitas alcançaram particular renome na cultura árabe por sua abundante produção poética e pelo prestígio atribuído a seu dialeto. A tribo produziu dezenas de poetas, muitos deles mucadrames, e seu corpus poético foi preservado no Divã Hudailita (Dīwān al-Hudhaliyyīn), o único divã tribal árabe conhecido por ter sobrevivido integralmente. A poesia hudailita tornou-se uma importante fonte para gramáticos e filólogos, que recorriam a seus versos e à fala da tribo como testemunhos do vocabulário e da gramática do árabe clássico. A antiga presença dos hudailitas no Hejaz perdurou até a época contemporânea descrita pelas fontes, quando comunidades da tribo continuavam estabelecidas nas montanhas entre Meca e Taife e preservavam a tradicional divisão territorial entre Hudail Axame e Hudail Iamane.

Origens

Segundo a tradição genealógica árabe, os hudailitas descendiam de Hudail ibne ibne ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Integravam o ramo hindifita dos modaritas, assim denominado em referência a Hinde, mãe de Ilias ibne Modar. O ancestral epônimo, Hudail, teve dois filhos, Sade e Liiane, dos quais se originaram os dois principais ramos da tribo, os saditas e os liianitas. Os hudailitas eram aparentados de perto aos coraixitas. Enquanto Hudail descendia de Mudrica, os coraixitas provinham de Quinana, filho de Cuzaima, irmão de Hudail. Além da proximidade genealógica e territorial, ambas as tribos mantiveram estreitas relações desde o período pré-islâmico, embora os hudailitas permanecessem, em grande medida, sob a influência política dos coraixitas até a Conquista de Meca de 630.

Na Jailia, os hudailitas ocupavam uma extensa região montanhosa imediatamente a leste e a oeste de Meca, prolongando-se pelas montanhas em direção a Taife e alcançando, ao norte, o vale de Marre Azarã, atualmente conhecido como Uádi Fátima, entre Meca e Gidá. Não há tradição de que a tribo tenha migrado para essa região a partir de outro território, e sua área chegou a ser denominada "coração do Hejaz". Grande parte de seus domínios era formada pelos vales e encostas da serra de Sarate, conhecida nas fontes como Sarate de Hudail. Seus dois principais núcleos populacionais localizavam-se em Naquelate Axâmia e Naquelate Iamânia, as duas porções de Nacla, cujos habitantes eram conhecidos, respectivamente, como Hudail Axame e Hudail Iamane. As fronteiras hudailitas confinavam com os territórios dos coraixitas, soleimitas, quinanaítas, famitas e aduanitas. Próximo de Meca, no vale de Uacique, dentro dos limites de Arafate, realizavam o célebre mercado de , um dos principais centros comerciais da Arábia pré-islâmica, aberto anualmente durante os primeiros dias de Dulrija até a véspera do início da peregrinação.

Período pré-islâmico

As fontes clássicas preservam relativamente poucas informações sobre os hudailitas, situação que também se verifica para o início do período islâmico. Apesar da proximidade geográfica com Meca, os cronistas mequenses raramente lhes dedicaram atenção. Segundo , quando os coraixitas assumiram o controle da Caaba e da administração de Meca, os hudailitas passaram a invejá-los e procuraram convencer o rei himiarita a marchar contra a cidade e destruir o santuário. Outra tradição, transmitida por Ibne Hixame a partir de Ibne Isaque, afirma, porém, que os chefes hudailitas agiram com a intenção de conduzir o soberano à ruína, pois sabiam que qualquer tentativa de profanar a Caaba acarretaria sua destruição. Advertido por sábios judeus de que se tratava de uma armadilha, o rei abandonou o plano, executou os responsáveis pela intriga e dirigiu-se a Meca para prestar homenagem à Caaba, cobrindo-a, segundo a tradição, com um valioso manto pela primeira vez na história. A tradição considera essa segunda versão mais plausível, uma vez que os árabes pagãos atribuíam grande caráter sagrado à Caaba. Os hudailitas também desempenham papel destacado nos relatos lendários sobre a expedição de Abramo contra Meca, no Ano do Elefante. Enquanto se buscava persuadir o invasor a desistir do ataque por meios diplomáticos, um dos dois chefes tribais que acompanharam Abede Almotalibe em sua audiência com Abramo pertencia aos hudailitas.

Na Jailia, os hudailitas envolveram-se em numerosos conflitos com as tribos vizinhas. Entre seus adversários estavam os famitas, contra os quais o célebre poeta e guerreiro compôs uma famosa ode de vingança depois que os hudailitas mataram seu tio. As fontes mencionam ainda a , na qual o ramo dos sofreu um ataque dos soleimitas, e a , ou Mulei, quando Maleque ibne Aufe Anáceri, dos naceritas hauazinitas, capturou membros do ramo dos liianitas. Os hudailitas perseguiram os invasores e conseguiram libertar os prisioneiros em Mulei. Outro confronto ocorreu em Ajelã, território dos cuzaaítas, onde estes combateram os hudailitas. Os prisioneiros capturados pelos próprios hudailitas nesses conflitos eram por vezes vendidos como escravos em Meca. Segundo Ibne Alcalbi, os hudailitas teriam sido os primeiros descendentes de Abraão a abandonar a religião de seu antepassado e a adotar a idolatria. Seu principal santuário era dedicado ao ídolo Suá, representado sob forma feminina, cuja guarda cabia ao ramo dos liianitas.

Ibne Alcalbi situa o santuário em Ruate, nas proximidades de Iambo, enquanto Açucari identifica Bátene Ruate, o único lugar desse nome mencionado pelos poetas hudailitas, como situado no território dos hilalitas, a três noites de viagem de Meca. Rentz considera mais provável que o santuário estivesse próximo de Meca, possivelmente em Nacla, na região de Naquelate Iamânia. O verbete dedicado a Suá na Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi situa-o em Ruate, em Bátene Nacla, entre Meca e Taife. Seus devotos realizavam peregrinações ao santuário e ofereciam ao ídolo animais valiosos em sacrifício. O culto a Suá era compartilhado pelos quinanaítas, muzainaítas e alguns ramos dos caicitas. Os hudailitas possuíam ainda, ou compartilhavam com os cuzaaítas, o santuário de Manate, constituído por uma pedra situada em Cudaide, na estrada entre Meca e Iatrebe. Segundo Ibne Alcalbi, Manate, considerado o mais antigo dos grandes ídolos árabes, era uma pedra negra pertencente aos hudailitas, situada em , nas proximidades de Cudaide. Junto dela havia uma construção dedicada à divindade, uma câmara onde eram depositadas oferendas e um guardião. Segundo o mesmo autor, seus guardiões pertenciam aos hudailitas, enquanto Alasraqui atribui essa função às tribos azeditas e gassanitas. Além dessas divindades, os hudailitas também prestavam culto a outros importantes ídolos da Arábia pré-islâmica.

Relações com Maomé

Durante o conflito entre os coraixitas e Maomé, os hudailitas mantiveram-se ao lado de seus parentes pagãos de Meca. Após a Batalha de Uude, , chefe do ramo dos liianitas, iniciou preparativos para atacar os muçulmanos, reunindo combatentes entre as tribos vizinhas. Informado desses preparativos, Maomé encarregou de eliminar o líder hudailita. Abedalá emboscou Calide em e o matou, frustrando a ofensiva antes que ela fosse lançada. Sua morte intensificou a hostilidade dos liianitas contra os muçulmanos, e membros do grupo procuraram seus parentes e para preparar uma vingança. Segundo a tradição, o plano consistia em solicitar a Maomé homens que lhes ensinassem o Islã, matar alguns deles em vingança por Calide e vender os demais aos coraixitas cujos parentes haviam morrido em Badre e Uude. Cerca de um mês depois, uma delegação de seis ou sete adalitas e caraítas chegou a Medina e solicitou instrutores. Maomé enviou com eles um grupo cuja composição varia nas fontes entre seis, sete e dez homens, incumbidos de ensinar o Islã e, segundo algumas tradições, recolher o zacate e obter informações sobre os coraixitas. Ao alcançarem a fonte de , na região de , em território hudailita entre Meca e Usfã, foram cercados por uma força de cem liianitas. Os atacantes declararam que pretendiam capturá-los para obter pagamento dos habitantes de Meca. Parte dos muçulmanos recusou-se a se render e morreu em combate; três aceitaram a promessa de que seriam poupados, mas um deles, , rompeu suas amarras durante a viagem e foi morto. Os dois sobreviventes, e , foram levados a Meca e vendidos a famílias que buscavam vingança pelos parentes mortos em Badre, sendo posteriormente executados.

Em resposta ao episódio, Maomé organizou a , realizada em 627. Avisados previamente da aproximação de cerca de duzentos muçulmanos, os hudailitas refugiaram-se nas montanhas, e a expedição terminou sem combate após dois dias de permanência na região. A oposição dos hudailitas aos muçulmanos perdurou até a Conquista de Meca. Durante a entrada do exército islâmico na cidade, jovens da tribo participaram do ataque lançado contra o contingente comandado por Calide ibne Alualide nas encostas do monte Handama, e quatro hudailitas figuraram entre os mortos nesse confronto. Após a conquista, a maior parte da tribo aderiu ao Islã em pouco tempo e seus principais santuários pagãos foram destruídos. Anre ibne Alas foi encarregado de demolir o ídolo Suá em Ruate. As tradições divergem quanto à destruição de Manate: segundo Karaarslan, a missão coube a , que destruiu o santuário em Almuxalal, enquanto Rentz registra uma tradição segundo a qual seis hudailitas, entre eles Ali, participaram de sua destruição. Embora a conversão coletiva tenha ocorrido apenas nessa época, alguns hudailitas já haviam aderido ao Islã nos primeiros anos da pregação de Maomé. O mais destacado foi Abedalá ibne Maçude, do ramo dos saditas, que se tornou um dos primeiros convertidos e companheiro e servidor próximo de Maomé. Seu irmão igualmente se converteu nos primeiros tempos do Islã. Entre os descendentes de Abedalá figuraram diversos estudiosos e tradicionalistas, como , um dos mais destacados sábios de Medina na geração dos tabis, além do historiador Almaçudi.

História posterior