Sajá binte Auce () ou Sajá binte Alharite (; m. 661 ou depois) foi uma líder tribal, adivinha, profetisa e pretendente à profecia ativa durante as Guerras da Apostasia, no período imediatamente posterior à morte de Maomé. Pertencente aos tamimitas por ascendência paterna e aparentada aos taglibitas por parte de mãe, reuniu numerosos seguidores entre tribos do norte da Arábia e da Mesopotâmia, procurando explorar a fragmentação política que sucedeu à morte do profeta. Seu movimento representou uma das mais importantes rebeliões contra a autoridade de Medina durante o governo do califa Abu Becre .

As fontes preservam escassas informações sobre sua doutrina, mas indicam que empregava prosa rimada (saj'), pronunciava revelações a partir de um púlpito e mantinha organização religiosa própria, com muezim e camareiro. Sua carreira culminou na aproximação com Muçailima, líder religioso estabelecido em Iamama, episódio cuja natureza permanece incerta. Enquanto as tradições islâmicas apresentam diferentes versões, algumas delas marcadamente lendárias, a historiografia moderna interpreta esse encontro sobretudo como uma aliança política entre dois movimentos rivais da autoridade medinense. Segundo a tradição mais difundida, Sajá posteriormente abandonou sua pretensão profética, converteu-se ao islão e morreu em Baçorá, onde teria sido sepultada segundo os ritos islâmicos.

Nome

As fontes divergem quanto à genealogia de Sajá. Algumas a identificam como Sajá binte Auce ibne Hique ibne Uçama, enquanto outras registram a forma Sajá binte Alharite ibne Suaide ibne Uquifane. A análise de sua trajetória levou Vacca e Juynboll a considerar mais provável a genealogia que a vincula aos tamimitas, conclusão reforçada pelo apoio que recebeu dessa tribo ao longo de sua atuação política e religiosa. Nas fontes árabes é frequentemente designada pela cúnia Ume Sadir. Pouco se conhece acerca de seus ensinamentos, embora as tradições preservem que o nome pelo qual se referia a Deus era "Senhor das Nuvens" (Rabb al-Saḥāb).

Vida

Sajá pertencia aos tamimita, mais precisamente ao ramo , por ascendência paterna, enquanto sua mãe era oriunda dos taglibitas, tribo que contava com expressiva população cristã. Antes de reivindicar a profecia, era provavelmente cristã ou, pelo menos, possuía amplo conhecimento dessa religião adquirido junto aos parentes maternos. As fontes também a descrevem como adivinha, atividade que provavelmente contribuiu para sua posterior autoridade religiosa. Embora quase nada tenha sido preservado sobre suas revelações ou doutrina, sabe-se que proclamava suas mensagens em saj' a partir de um púlpito, sendo assistida por um muezim e por um camareiro, elementos que indicam certo grau de organização de seu movimento religioso. Sajá surgiu como liderança durante as Guerras da Apostasia, logo após a morte de Maomé, quando diversas tribos árabes procuraram romper os vínculos políticos estabelecidos com Medina. Segundo uma tradição preservada por Ceife ibne Omar, ela proclamou-se profetisa na Mesopotâmia, reunindo seguidores entre os rebiaítas, taglibitas, anamiritas, iaditas e xaibanitas, marchando então em direção aos territórios ocupados pelos tamimitas. Vacca e Juynboll observam, entretanto, que essa versão provavelmente procura apresentá-la como uma estrangeira oportunista e minimizar a participação dos tamimitas nas Guerras da Apostasia. Em sua interpretação, Sajá era efetivamente membro da tribo e já havia conquistado, provavelmente ainda antes da morte de Maomé, amplo apoio entre seus conterrâneos, cuja adesão ao islão teria sido sobretudo pragmática e facilmente revertida diante da crise sucessória. Naquele momento, os tamimitas encontravam-se profundamente divididos. Enquanto alguns segmentos permaneceram fiéis ao califado, outros recusaram o pagamento do zacate e aderiram à revolta. Entre estes destacavam-se os iarbuítas, liderados por , e outro ramo chefiado por , ambos favoráveis à resistência contra Medina. Sajá encontrou-se com esses chefes em Hazne, obtendo inicialmente seu apoio. Contudo, parte da aristocracia tribal opôs-se à aliança e abandonou o movimento, circunstância que enfraqueceu sua posição e alterou seus planos militares.

As forças de Sajá iniciaram a campanha militar atacando a confederação dos , em obediência, segundo a tradição, a uma de suas revelações. A expedição, porém, terminou em derrota. Recuando para , na região de Iamama, seus seguidores enfrentaram novamente os , sofrendo nova derrota. Em consequência desses reveses, Sajá comprometeu-se a deixar o território dos tamimitas. Apesar do fracasso militar, parte dos iarbuítas permaneceu ao seu lado, e a profetisa decidiu dirigir-se a Iamama, onde ainda predominava a autoridade de Muçailima. O encontro entre Sajá e Muçailima constitui um dos episódios mais conhecidos das Guerras da Apostasia, mas também um dos mais problemáticos do ponto de vista historiográfico. Segundo Vacca e Juynboll, não existe relato contemporâneo ou suficientemente confiável que permita reconstruir com segurança o ocorrido, sendo as versões preservadas pelas fontes posteriores amplamente contraditórias. Todas concordam que ambos buscavam unir forças diante do avanço dos exércitos enviados por Abu Becre , mas divergem profundamente quanto aos termos do entendimento alcançado. De acordo com uma tradição preservada por Ceife ibne Omar, Muçailima, alarmado com a aproximação de Sajá e de seus numerosos seguidores, enviou-lhe presentes e solicitou salvo-conduto para uma reunião. Durante o encontro, teria reconhecido sua missão profética, proposto uma aliança e declarado que Deus destinara metade da Arábia aos hanifaítas e a outra metade a Sajá, uma vez que os coraixitas não haviam aceitado compartilhar o poder. Em troca da retirada de suas forças, prometeu-lhe metade da produção agrícola de Iamama naquele ano e a outra metade na colheita seguinte. Sajá aceitou o acordo, deixou representantes encarregados de recolher o restante do tributo e retornou à Alta Mesopotâmia, abandonando sua pretensão profética. A segunda parcela, contudo, jamais foi entregue em razão da derrota e morte de Muçailima na Batalha de Iamama.

Outras tradições apresentam uma narrativa bastante diferente. Segundo elas, Muçailima convenceu Sajá a encontrá-lo em particular, reconheceu sua condição de profetisa e ambos celebraram um casamento, descrito por algumas fontes como tendo durado apenas três dias. Relatos preservados por Atabari acrescentam diálogos obscenos atribuídos aos dois e afirmam que Muçailima teria abolido as orações da alvorada e da noite como dote matrimonial, depois de Sajá protestar por não ter recebido qualquer presente pela união. Vacca e Juynboll consideram esses detalhes muito provavelmente fictícios e interpretam o casamento, caso tenha efetivamente ocorrido, como uma aliança política entre dois movimentos religiosos que buscavam unir forças diante da expansão do poder medinense, e não como o episódio burlesco descrito pela tradição posterior. Independentemente da natureza de seu entendimento com Muçailima, a carreira de Sajá terminou pouco depois desses acontecimentos. Segundo Vacca e Juynboll, seu movimento foi absorvido pelo de Muçailima ou simplesmente perdeu relevância após as derrotas militares sofridas em Iamama, desaparecendo das fontes quase imediatamente. A tradição preserva que ela regressou ao convívio de sua tribo e abandonou definitivamente qualquer reivindicação profética. As notícias sobre Sajá após a derrota de Muçailima são escassas e derivam quase exclusivamente da tradição islâmica posterior. Segundo Ibne Alcalbi, citado por Albaladuri e outros autores, ela regressou ao convívio dos tamimitas e abandonou definitivamente sua pretensão profética. Quando sua família se estabeleceu em Baçorá, cidade que se tornou o principal centro dos tamimitas durante o período omíada, Sajá teria abraçado o islão, passando o restante da vida como muçulmana. A tradição acrescenta que morreu em Baçorá e foi sepultada segundo os ritos islâmicos.

Doutrina

Pouco se conhece sobre a doutrina de Sajá. Nenhuma coletânea de suas revelações sobreviveu, e as fontes preservam apenas referências esparsas à organização de seu movimento religioso. Segundo a The Encyclopaedia of Islam, ela proclamava suas mensagens a partir de um púlpito e utilizava a prosa rimada (saj'''), forma de expressão tradicionalmente associada aos adivinhas da Arábia pré-islâmica. Mantinha ainda um muezim, responsável pelo chamamento dos fiéis, e um camareiro (hájibe), indicando que seu movimento possuía certa estrutura cerimonial e administrativa. As tradições também registram que Sajá empregava para Deus o título de "Senhor das Nuvens" (Rabb al-Saḥāb), uma das raras informações preservadas sobre seu sistema religioso. Não há, entretanto, elementos suficientes para reconstituir suas crenças ou determinar em que medida elas incorporavam influências do cristianismo, religião com a qual provavelmente manteve contato desde a juventude por intermédio de seus parentes taglibitas. A origem cristã atribuída a Sajá pelas fontes talvez explique parte dessas influências, embora os dados disponíveis sejam insuficientes para estabelecer relações mais precisas.

Historiografia

A vida de Sajá é conhecida quase exclusivamente por meio de cronistas e genealogistas muçulmanos que escreveram décadas ou séculos após as Guerras da Apostasia. As principais narrativas foram preservadas por autores como Atabari, Albaladuri e Ceife ibne Omar, cujos relatos apresentam divergências significativas acerca de sua origem, de suas campanhas militares e, sobretudo, de seu encontro com Muçailima. Os estudos modernos consideram que parte dessas tradições foi moldada por interesses políticos e tribais posteriores. Vacca e Juynboll observam, por exemplo, que algumas versões procuram retratar Sajá como uma aventureira proveniente da Mesopotâmia, interpretação que tenderia a minimizar a participação dos tamimitas nas revoltas contra Medina. Em contrapartida, a análise de sua genealogia e de sua atuação política sugere que ela era efetivamente membro da tribo e que já desfrutava de amplo apoio entre os tamimitas antes mesmo da morte de Maomé, refletindo um movimento de oposição cuja origem antecedia as Guerras da Apostasia. A aproximação entre Sajá e Muçailima constitui outro ponto controverso. Embora a tradição tenha preservado relatos sobre um casamento acompanhado de episódios extravagantes e obscenos, a The Encyclopaedia of Islam'' considera inexistir um relato confiável do encontro e entende que tais elementos provavelmente pertencem ao campo da elaboração lendária. Nessa perspectiva, caso tenha existido uma união entre ambos, ela deve ser interpretada principalmente como uma aliança política destinada a reunir dois movimentos rivais da autoridade medinense diante da ofensiva conduzida por Calide ibne Alualide, e não como o episódio caricatural descrito por parte das fontes posteriores.

Bibliografia

Categoria:Árabes do século VI Categoria:Mulheres do século VI Categoria:Taglibitas Categoria:Iarbuítas Categoria:Pessoas proclamadas messias Categoria:Convertidos do cristianismo ao islamismo Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras da Apostasia Categoria:Pessoas do Califado Ortodoxo