Louise Bezerra (Belém, Brasil, 19 de fevereiro de 1980 – Utrecht, Países Baixos, 5 de fevereiro de 2025) foi uma artista visual, fotógrafa, historiadora e gestora esportiva brasileira. Sua produção artística reuniu fotografia, bordado, colagem digital, vídeo e pesquisa histórica, abordando temas como memória, ancestralidade, feminismos, espiritualidade, migração e relações entre corpo e território. Antes de dedicar-se integralmente às artes visuais, atuou na gestão do esporte brasileiro como diretora executiva da Atletas pelo Brasil.
Primeiros anos e formação
Louise Bezerra nasceu em Belém, no estado do Pará, em 19 de fevereiro de 1980. Filha de Cecília Mendes Bezerra, cresceu na Amazônia brasileira, cujas paisagens, narrativas e cosmologias se tornaram referências recorrentes em sua produção artística.
Na vida adulta, aprofundou o contato com sua família paterna hondurenha, experiência que influenciou sua reflexão sobre identidade, ancestralidade e pertencimento.
Aos 17 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde cursou História na Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação desenvolveu interesse pela fotografia e pelas artes visuais, realizando formação no Ateliê da Imagem e estudos em Artes Visuais e Fotografia Expandida na Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Sua formação como historiadora influenciou sua pesquisa sobre arquivos, memória e narrativas históricas.
Carreira
Antes de dedicar-se exclusivamente às artes, Louise trabalhou em organizações da sociedade civil voltadas para participação social, educação e direitos humanos. Atuou como facilitadora, gestora de projetos e consultora em iniciativas relacionadas ao fortalecimento institucional e à construção de políticas públicas, experiência que influenciou sua abordagem artística e seu interesse por processos coletivos de memória e justiça social.
Atuação no Esporte
Na década de 2010, Louise Bezerra atuou na gestão esportiva brasileira. De 2013 a 2016 foi coordenadora da "Rede Esporte pela Mudança Social" (REMS) que reúne organizações que atuam usando o esporte como fator de desenvolvimento humano. De 2016 a 2019 foi diretora executiva da Atletas pelo Brasil, organização fundada por atletas olímpicos e ex-atletas de alto rendimento.
Nessas entidades participou da articulação de propostas voltadas ao aperfeiçoamento da governança esportiva, como a aprovação do artigo 18-A da Lei Pelé, um marco na governança esportiva do Brasil e à formulação de políticas públicas para o esporte nacional.
Em 2017 representou a Atletas pelo Brasil na conferência internacional Play the Game, realizada na cidade de Eindhoven, dedicada à governança e à integridade no esporte, onde participou de debates sobre cooperação internacional e políticas de esporte para todos, incluindo discussões sobre o Plano de Ação de Kazan, da UNESCO.
Trabalhou ao lado de atletas como Ana Moser, Magic Paula, Raí e Flávio Canto, participando da interlocução entre entidades esportivas, poder público e organizações da sociedade civil. Também atuou no Pacto pelo Esporte, iniciativa voltada ao desenvolvimento do esporte e da governança esportiva no Brasil.
Segundo obituário publicado pela Folha de S.Paulo, Louise era reconhecida pela capacidade de mediação e articulação entre diferentes setores do esporte brasileiro. A ex-presidente da Atletas pelo Brasil, Ana Moser, afirmou que ela desempenhava papel decisivo na resolução de conflitos e na construção de consensos dentro da organização.
Carreira artística
Em 2019 mudou-se para Utrecht, nos Países Baixos. Nesse período passou a dedicar-se integralmente à produção artística, desenvolvendo pesquisas que articulam fotografia, bordado, cartografia, imagem digital e arquivos históricos.
Sua produção investiga as relações entre memória, território, corpo e transformação, utilizando fotografias próprias, imagens encontradas, mapas, documentos históricos e imagens de satélite como matéria-prima para intervenções com bordado, colagem e vídeo. Em seus escritos, descreveu parte dessas obras como "foto-feitiços", conceito utilizado para definir imagens voltadas à regeneração simbólica e à transformação das experiências individuais e coletivas.
Nos Países Baixos integrou redes feministas, latino-americanas e de artistas migrantes. Participou do coletivo feminista queer La Batuta e desenvolveu projetos colaborativos com artistas e instituições culturais locais.
Em 2022 iniciou orientação artística com a artista e curadora Karlla Girotto. No ano seguinte participou da exposição coletiva Pedi um Sonho, realizada no Canteiro Art, em São Paulo, apresentando obras da série Postais do Amanhã.
Também desenvolveu, em colaboração com a artista chilena Sonia Mena, o projeto Traiectum Affectionis, dedicado às relações entre memória, migração e cartografia na cidade de Utrecht.
Em 2024 realizou o workshop Memory Lines na instituição De Voorkamer.
Produção artística
A produção artística de Louise Bezerra articula fotografia, bordado, colagem digital, vídeo e pesquisa documental em uma investigação sobre memória, ancestralidade, espiritualidade e transformação.
A Amazônia ocupa posição central em seu imaginário artístico. Em diferentes trabalhos, referências às paisagens amazônicas, às narrativas orais, às cosmologias indígenas e afro-ameríndias e às práticas populares aparecem associadas a reflexões sobre identidade, pertencimento e decolonialidade.
Outro eixo recorrente é a representação do corpo feminino. A convivência por mais de uma década com um câncer de mama levou a artista a desenvolver uma pesquisa sobre vulnerabilidade, cuidado, regeneração e reinvenção do corpo. Autorretratos, frequentemente transformados por meio do bordado, tornaram-se parte significativa de sua produção.
Entre suas séries destacam-se:
Santas, conjunto de autorretratos que dialoga com a iconografia cristã e a representação do corpo feminino.
Postais do Amanhã (2023), série de fotografias e cartões-postais antigos bordados, voltada à reflexão sobre memória, colonialismo e território.
Gossip, inspirada no ensaio Sobre o Significado da Fofoca, de Silvia Federici, composta por intervenções sobre retratos de mulheres como Frida Kahlo, Nina Simone e Clarice Lispector, investigando formas de transmissão de memória entre mulheres.
Sua produção aproxima referências dos feminismos do Sul Global, do pensamento anticolonial, das cosmologias amazônicas e da história da fotografia.
Outros projetos
Paralelamente à atuação artística, Louise desenvolveu o projeto gastronômico Lou na Cozinha, criado em 2013. A iniciativa reunia pesquisa sobre alimentação, memória, ancestralidade e culinárias afro-ameríndias, promovendo jantares, oficinas e produção de conteúdo sobre gastronomia. O projeto foi mencionado em reportagem de O Globo sobre sua trajetória durante o tratamento do câncer, que destacava a culinária como parte de sua vida profissional e das redes de apoio construídas nesse período.
Após mudar-se para os Países Baixos, criou o projeto Lou in the Kitchen, dando continuidade à iniciativa por meio de uma proposta voltada à alimentação afetiva e intercultural.
Doença e falecimento
Louise Bezerra conviveu durante mais de uma década com um câncer de mama. Em 2024, o agravamento da doença, com metástases no fígado, levou à interrupção de parte de suas atividades públicas. Faleceu em Utrecht, em 5 de fevereiro de 2025, aos 44 anos.
Segundo a Folha de S.Paulo, continuou produzindo obras e preparando exposições até os últimos meses de vida. Amigos organizaram uma rede de cuidados em sua residência durante a fase final da doença.
Após seu falecimento, a Atletas pelo Brasil publicou nota de pesar destacando sua atuação como diretora executiva entre 2016 e 2019 e afirmando que Louise "contribuiu bastante com o esporte brasileiro", lembrando também seu trabalho na Rede Esporte pela Mudança Social (REMS) e no Pacto pelo Esporte.
Legado
A obra de Louise Bezerra estabelece diálogos entre fotografia contemporânea, bordado, memória, feminismos, ancestralidade e práticas de cura.
Após seu falecimento, familiares, pesquisadores e colaboradores iniciaram um processo de organização e preservação de seu acervo artístico e documental, com o objetivo de reunir obras, escritos e registros para futuras pesquisas, exposições e publicações.
Exposições selecionadas
Pedi um Sonho (2023), Canteiro Art, São Paulo.
Memory Lines (2024), De Voorkamer, Utrecht.
Ver também
Fotografia contemporânea Arte têxtil Arte feminista Fotografia no Brasil
Ligações externas
Perfil oficial de Louise Bezerra Lou in the Kitchen Arquivo Vivo – A Obra de Louise Bezerra
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