Uiaina ibne Hisne Alfazari (), também conhecido como Uiaina ibne Badre, foi um chefe dos fazaraítas, um dos principais ramos dos gatafanitas, que viveu durante a transição entre a Arábia pré-islâmica e o surgimento do islão. Seu nome verdadeiro era Huzeifa, mas ficou conhecido pelo apelido Uiaina ("o de olhos pequenos"), recebido em razão de uma paralisia facial sofrida na juventude. Sucedeu ao pai na chefia dos fazaraítas e destacou-se inicialmente como um dos principais adversários de Maomé, comandando o contingente de sua tribo durante o Cerco de Medina e participando de diversas ações contra os muçulmanos. Após a Conquista de Meca, aderiu ao islão e tomou parte nas campanhas de Hunaine e do Cerco de Taife, sendo posteriormente encarregado por Maomé de comandar a expedição contra os ambaritas, um ramo dos tamimitas. Depois da morte de Maomé, uniu-se inicialmente ao falso profeta Tulaia ibne Cuailide, durante as Guerras da Apostasia, mas, capturado pelas forças de Calide ibne Alualide, voltou a professar o islão e foi perdoado por Abu Becre. As fontes islâmicas o retratam como um líder tribal influente, porém também como um homem de temperamento rude e impulsivo, característica frequentemente associada à sua origem beduína.

Vida

Uiaina nasceu com o nome de Huzeifa e era filho de Hisne ibne Huzeifa ibne Badre ibne Anre, pertencendo ao ramo dos fazaraítas, uma das principais subdivisões dos gatafanitas. Seus antepassados gozavam de grande prestígio militar entre as tribos do norte da Arábia. Segundo a tradição, seu pai comandou os exércitos dos fazaraítas e dos gatafanitas, enquanto seu avô, bisavô e trisavô também exerceram a chefia militar de sua tribo e de outros grupos pertencentes à confederação gatafanita. Após a morte do pai, Uiaina assumiu a liderança dos fazaraítas. Seu apelido, Uiaina ("o de olhos pequenos"), decorreu de uma paralisia facial que teria reduzido o tamanho aparente de seus olhos, embora algumas fontes também o designem como Uiaina ibne Badre, em referência ao seu avô. Antes do advento do islão, adquiriu fama como guerreiro e chefe tribal. As fontes mencionam que recebeu ainda o epíteto de Uatabe ("o que salta" ou "o que investe"), por causa de incursões militares realizadas contra outras tribos árabes, entre elas os taglibitas. A tradição atribui-lhe igualmente o ataque ao mercado de Ucaz, episódio que desencadeou a Segunda Guerra Sacrílega, conflito travado entre importantes tribos da Arábia ocidental durante o período pré-islâmico.

Maomé encontrou-se pela primeira vez com Uiaina durante a Primeira Expedição de Dumate Aljandal, quando uma severa estiagem obrigara os fazaraítas a conduzirem seus rebanhos para áreas próximas do território controlado pelos muçulmanos. Na ocasião, o profeta autorizou Uiaina a utilizar temporariamente as pastagens de , situadas na região de Uádi Alcura, garantindo a passagem segura de seus homens e animais. O acordo vigorou por cerca de três meses, até que o fim da seca permitiu aos fazaraítas regressarem às suas terras. Apesar desse entendimento temporário, Uiaina voltou a enfrentar os muçulmanos pouco depois. Durante a Batalha da Trincheira, comandou o contingente fazaraíta integrado à coalizão que sitiou Medina. Com o prolongamento do cerco, Maomé tentou persuadi-lo a retirar suas forças oferecendo-lhe um terço da produção anual de tâmaras de Medina, proposta que Uiaina recusou ao exigir metade da colheita. Embora o acordo estivesse prestes a ser concluído, a oposição de , Sade ibne Ubada e Sade ibne Muade, que declararam preferência por continuar combatendo, levou Maomé a abandonar as negociações. Cerca de quatro meses mais tarde, em junho de 627, Uiaina conduziu quarenta cavaleiros numa incursão noturna contra Algaba, ao norte de Medina, onde eram apascentadas as camelas leiteiras pertencentes a Maomé. Durante o ataque, matou o filho de Abu Darre Alguifari, capturou sua esposa e apoderou-se de vinte camelas. Um destacamento enviado em sua perseguição alcançou os invasores, matou dois de seus filhos, Cubaibe e Abederramão, além de seu sobrinho Maçada, recuperando parte dos animais roubados. Maomé reuniu-se aos perseguidores em , onde permaneceu durante vários dias à espera do inimigo antes de regressar a Medina.

Em 628, quando Maomé iniciou a campanha contra Caibar, procurou assegurar a neutralidade dos fazaraítas oferecendo vantagens a Uiaina e seus homens. Apesar disso, o chefe tribal preferiu manter-se ao lado dos judeus de Caibar. Pouco antes do confronto decisivo, entretanto, Maomé ameaçou marchar contra os territórios dos fazaraítas, levando Uiaina e seus seguidores a abandonar seus aliados e regressar às próprias terras. Após a vitória muçulmana, Uiaina compareceu a Medina para reclamar as recompensas que lhe haviam sido prometidas caso permanecesse neutro, mas seu pedido foi recusado. Alguns meses depois, quando se descobriu que pretendia apoiar uma nova incursão dos gatafanitas contra Medina, uma força de trezentos homens comandada por foi enviada contra ele, derrotando seus partidários. As tradições divergem quanto ao momento exato de sua conversão ao islão. Embora alguns relatos afirmem que Uiaina já havia abraçado a nova religião antes da Conquista de Meca, tanto sua própria declaração de que participara da conquista, da campanha de Hunaine e do Cerco de Taife apenas para obter despojos e escravas quanto sua inclusão entre os muallafa qulubuhum indicam que sua adesão efetiva ao islão provavelmente ocorreu somente após essas campanhas. Depois da vitória em Hunaine, Maomé concedeu-lhe cem camelos provenientes do espólio de guerra e um quarto de um lingote de ouro enviado por Ali ibne Abi Talibe desde o Iêmem, numa das distribuições destinadas a conquistar a fidelidade de importantes chefes tribais. No nono ano da Hégira (630), já integrado às forças muçulmanas, Uiaina recebeu o comando de cinquenta cavaleiros, todos fazaraítas, numa expedição enviada contra os tamimitas, que haviam impedido a cobrança da zacate. Ao encontrarem os tamimitas dispersos, seus homens atacaram os ambaritas, um ramo daquela tribo estabelecido na região, capturando numerosos prisioneiros e conduzindo-os a Medina. Posteriormente, uma delegação dos tamimitas compareceu diante de Maomé, declarou sua submissão ao islão e obteve a libertação dos cativos, parte sem resgate e parte mediante pagamento.

Após a morte de Maomé, em 632, Uiaina abandonou o islão e aderiu ao movimento de Tulaia ibne Cuailide, que reivindicava a condição de profeta entre os açaditas. Lutou ao lado de Tulaia durante as Guerras da Apostasia, mas acabou capturado pelas forças de Calide ibne Alualide e conduzido a Medina. Segundo a tradição, ao longo do caminho as crianças da cidade o insultavam, chamando-o de "inimigo de Alá" e perguntando-lhe se havia renegado a fé depois de tê-la abraçado. Uiaina respondeu que jamais acreditara verdadeiramente em Alá, declaração que reforçou a reputação de oportunismo atribuída a ele pelas fontes posteriores. Ainda assim, voltou a professar o islão e foi perdoado por Abu Becre , que lhe concedeu o perdão sem aplicar qualquer punição. Pouco tempo depois, Uiaina compareceu juntamente com e diante de Abu Becre para solicitar a concessão de algumas terras. O califa atendeu ao pedido e expediu um documento confirmando a doação, mas Omar recusou-se a reconhecê-la, argumentando que, após a consolidação do islão, já não havia necessidade de favorecer os muallafa qulubuhum para assegurar seu apoio político. Diante deles, rasgou o documento, e a reclamação apresentada posteriormente a Abu Becre não alterou sua decisão. As fontes indicam que Uiaina sobreviveu pelo menos até a segunda metade do califado de Otomão , embora a data de sua morte permaneça desconhecida. Segundo Ibne Hajar, existe uma tradição isolada, atribuída apenas a Axafii, segundo a qual Omar o teria executado em razão de sua apostasia. O próprio Ibne Hajar, contudo, rejeitou essa versão, observando que, caso fosse verdadeira, Uiaina não poderia ser considerado um companheiro de Maomé. Em sua avaliação, a reconversão de Uiaina ao islão explica por que Omar jamais ordenou sua execução.

Bibliografia

Categoria:Fazaraítas Categoria:Árabes do século VI Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras da Apostasia Categoria:Pessoas do Califado Ortodoxo