The Omar Herz Show é uma conta do Instagram na qual os amigos palestinos Omar Shareed e Mohammed Herzallah documentavam seu cotidiano durante a guerra em Gaza. A conta rapidamente ganhou milhões de seguidores e recebeu atenção da imprensa internacional.

Em agosto de 2024, ficaram em 17º lugar na lista da Rolling Stone dos "25 Criadores Mais Influentes de 2024", com a redatora Steffi Cao observando que os amigos "compartilharam uma perspectiva que nenhum outro meio de comunicação seria capaz de oferecer, registrando os mínimos detalhes de como os civis se adaptam e sobrevivem".

Eles eram amigos do também criador palestino Medo Halimy, que morreu em agosto de 2024 após um ataque aéreo israelense e teve sua morte repercutida pelo mundo.

História Omar e Mohammed se conheceram na escola na Cidade de Gaza, mas não eram muito próximos naquela época. Eles tinham acabado de entrar na faculdade (Omar em Engenharia e Mohammed em Economia ou Administração de Empresas ) quando Israel começou a bombardear Gaza em resposta aos ataques de 7 de outubro .

A família de Mohammed deixou a casa e os pertences que tinham e se abrigou no apartamento de um estranho, enquanto a família de Omar (um irmão mais novo e um mais velho, um deles doente e dependente de medicamentos que precisam de refrigeração, e sua mãe, uma jornalista e ex-aluna da Universidade de Al-Aqsa ) fugiu primeiro para Nuseirat e depois para Deir al-Balah, onde se tornaram bons amigos depois de descobrirem que eram os únicos de seu grupo da escola lá.

Em abril de 2024, com 18 (Omar) e 19 (Mohammed) anos, eles começaram a documentar a sua rotina diária na guerra e atingiram a marca de 1,5 milhões de seguidores no Instagram em dois meses e 1,6 milhões em três. A dupla começou a compartilhar vídeos enquanto evacuavam de uma tenda de abrigo para outra. Ao se aproximarem da fronteira entre o Egito e Gaza, eles adquiriram um eSIM com o qual puderam começar a editar e enviar vídeos, com a intenção inicial de promover seu negócio de vendas de eSIMs. A dupla então decidiu reconectar sua comunidade à internet para que houvesse uma fuga das notícias geralmente negativas sobre sua área; ao mesmo tempo, investiam no negócio para financiar mais evacuações e despesas familiares e fundavam o Clube de Xadrez Karawan para crianças deslocadas (com seu amigo Mustafa Saleh, então com 17 anos), que eventualmente conseguiu um patrocínio do Chess.com.

Os vídeos também os retratavam organizando partidas de futebol, conectando outros palestinos com eSIMs adicionais e cozinhando com recursos limitados e ingredientes vendidos a preços inflacionados, além de outras atividades cotidianas. As produções, em inglês, geralmente eram intitulados "rotina diária na zona de guerra" e eles frequentemente apareciam vestindo camisas de futebol.

Em 13 de dezembro de 2024, Omar foi aceito no Dartmouth College . Em uma tentativa anterior, ele passou a véspera de Ano Novo de 2023 lutando para terminar sua ''Common Application'' e tentou atravessar cerca de 20 quilômetros de zona de guerra a pé até a região mais próxima onde seu eSIM funcionaria para concluí-la, tudo isso enquanto se escondia de sua mãe, que o proibiu de arriscar sua vida dessa maneira. Ele desistiu no meio do caminho. A aplicação bem-sucedida foi construída sobre uma aplicação fracassada de 2022 e melhorada e revisada com a ajuda de um amigo. Após receber a aprovação, Shared entrou em contato com outros estudantes e recebeu ajuda para sair do país por meio de uma campanha no Change.org que o conectou a uma agência humanitária desconhecida. Após uma jornada de três meses por Khan Yunis, pela passagem de fronteira de Kerem Shalom e por Boston, ele finalmente chegou a Hanover. Antes desta campanha, eles também haviam iniciado outra arrecadação de fundos no GoFundMe para cobrir o custo de 5 mil dólares para deixar a Faixa de Gaza. Omar também usou a página do Instagram para postar suas dificuldades para entrar em Dartmouth.

De acordo com o perfil de Omar no LinkedIn, a página esteve ativa de maio de 2024 a janeiro de 2025.

Impacto Em sua dissertação de mestrado para a Universidade Ca' Foscari de Veneza, Chiara Guarino analisou que a dupla usa as mídias sociais para "compartilhar suas experiências e perspectivas, oferecendo uma visão alternativa à narrativa dominante, que não os convida a falar sobre o que estão vivenciando em primeira mão. Seus vídeos [...] têm um impacto global e permitem que o vasto público do TikTok, do Instagram e do YouTube acesse histórias e imagens que de outra forma permaneceriam invisíveis." Ela também comentou que eles “não apenas aumentam a conscientização sobre o impacto do conflito na vida dos jovens palestinos, permitindo que seus espectadores criem uma conexão empática por meio do terreno comum das redes sociais e práticas discursivas, mas também criam um espaço para a autorrepresentação, contribuindo para uma compreensão mais pessoal e com mais nuances do que significa viver em uma zona de guerra” e “chamando a atenção para as dificuldades estruturais e os efeitos cotidianos da ocupação, mas também para a capacidade da comunidade de manter uma vida normal apesar de tudo”. Ela também disse que eles "retratam o lado humano e pessoal de suas vidas, permitindo que os espectadores percebam a realidade atual da Palestina por meio de experiências cotidianas e momentos de normalidade".

Em uma reportagem para a NBC News sobre criadores de conteúdo palestinos durante a guerra, Daysia Tolentino e Marin Scott comentaram que contas como a The Omar Herz Show "oferecem uma visão alternativa da sobrevivência em Gaza que é pessoal e mais amigável aos algoritmos em comparação com conteúdo mais violento" e que o conteúdo produzido por jornalistas locais é frequentemente sinalizado como violento ou sensível, "o que muitas vezes pode resultar na limitação ou remoção do conteúdo no Instagram e no TikTok".

Timothy Laurie, da Faculdade de Artes e Ciências Sociais da Universidade de Tecnologia de Sydney, argumenta que a narrativa deles ajuda o público a passar de uma perspectiva meramente empática para uma posição mais compreensiva em relação à Palestina como uma nação tão complexa quanto qualquer outra. Ele também analisou que, como a mídia convencional geralmente enfatiza o alto número de mulheres e crianças mortas na guerra, o público em geral pode considerar as mortes de homens como "aceitáveis", mas o par de amigos mostra que até mesmo homens adultos também podem ser vítimas do estado de guerra. Ayesha Jehangir, da Universidade de Nova Gales do Sul, comentou que conteúdos como os publicados pela conta encurtam a distância entre os fatos e o público em geral.

Escrevendo para o jornal neerlandês De Correspondent, Valentijn De Hingh comparou as crônicas da dupla com a cobertura da revista conterrânea Libelle durante a Segunda Guerra Mundial, no sentido de que as preocupações das pessoas durante e antes da guerra não diferiam tanto, e os impactos da guerra estavam presentes de uma forma mais discreta em meio aos textos.

Marloes Geboers, da Universidade de Amsterdã, comentou que o fato de os dois amigos serem influenciados pela cultura ocidental "os torna algo com o que o público consegue se identificar e promove simpatia em um público mais amplo". Ela também disse que as redes sociais remodelaram a percepção das pessoas sobre a guerra porque "a fotografia de imprensa tradicional captura a intensidade da guerra, mas também cria uma sensação de distanciamento. O formato de vídeo curto oferecido pelo Instagram muda radicalmente a forma como vemos a guerra. Como espectador, você fica imerso no mundo deles; parece que você está caminhando ao lado dos meninos."

Ligações externas

Reportagem sobre The Omar Herz Show na revista belga Humo

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