Os hamedanitas ou Banu Hamedane () são uma grande tribo árabe do Iêmem, pertencente ao ramo dos catanitas. Descendem tradicionalmente de Hamedane (Auçala) ibne Maleque, cuja genealogia remonta a Catã por intermédio de e Sabá. Desde a Antiguidade ocupam extensas áreas do norte do Iêmem, onde seus dois principais ramos, e haxiditas, permanecem estabelecidos até os dias atuais.

Antes do advento do islã, os hamedanitas constituíam uma das mais importantes confederações tribais da Arábia Meridional. Seu território estendia-se de Saná a Sadá, e do mar Vermelho até Maribe, abrangendo regiões férteis, centros urbanos, fortalezas, áreas de mineração e importantes zonas de criação de gado. A confederação dividia-se principalmente entre os ramos dos baquilitas, a leste, e dos haxiditas, a oeste, embora essa separação nunca tenha sido absoluta em razão da distribuição de diversos clãs por ambas as regiões.

Os hamedanitas converteram-se ao islã nos últimos anos da vida de Maomé e participaram ativamente das primeiras conquistas muçulmanas, combatendo nas campanhas da Síria, do Iraque, do Egito e, posteriormente, da Península Ibérica. Muitos estabeleceram-se em Cufa, onde se tornaram conhecidos pelo firme apoio a Ali ibne Abi Talibe e a seus descendentes, enquanto outros permaneceram no Iêmem ou se fixaram na Síria e no Egito. Ao longo da história islâmica, a tribo produziu numerosos militares, governantes, poetas e estudiosos, mantendo influência política e social até a atualidade.

Origens

Os hamedanitas descendem tradicionalmente de Hamedane, também chamado Auçala, filho de Maleque, cuja genealogia remonta a Catã por intermédio de Zaíde, Rebia, Auçala, Quiar, Zaíde, Calane, Sabá, Iasjube e Iarube. Algumas fontes apresentam variantes dessa linhagem, mas todas concordam em situar a tribo entre os principais ramos dos catanitas do sul da Arábia. A tribo dividiu-se desde cedo em dois grandes ramos, e haxiditas, descendentes de netos de Hamedane, dos quais se originaram numerosos clãs que preservaram sua identidade ao longo dos séculos. Embora cada ramo ocupasse tradicionalmente uma área distinta do norte do Iêmem, a distribuição geográfica nunca foi rígida, pois diversos grupos estabeleceram-se em territórios pertencentes ao outro ramo. Essa organização tribal permaneceu suficientemente estável para que baquilitas e haxiditas continuassem constituindo as principais confederações hamedanitas até a época contemporânea.

Antes do advento do islã, os hamedanitas ocupavam uma vasta região situada ao norte de Saná, estendendo-se para leste até Maribe e Najrã, para norte até Sadá e para oeste até a costa do mar Vermelho, nas proximidades de Abu Arixe. Os baquilitas predominavam na porção oriental desse território, enquanto os haxiditas concentravam-se na metade ocidental. As terras dos baquilitas destacavam-se pela fertilidade, produzindo frutas, hortaliças e cereais, além de abrigarem cidades, fortalezas, montanhas apropriadas à pecuária e extensas planícies agricultáveis. A região de era particularmente conhecida pela criação de camelos. Além da agricultura e da criação de animais, os hamedanitas dedicavam-se à mineração, extraindo e trabalhando ouro e prata, atividades que contribuíram para sua prosperidade econômica antes do surgimento do islã.

História

A história dos hamedanitas remonta à Antiguidade, quando integravam o Reino de Sabá, cuja principal divindade era Almacá, objeto de culto em numerosos templos espalhados pelo Iêmem. Posteriormente, durante o período em que a tribo adquiriu maior autonomia política, os hamedanitas passaram a venerar uma divindade própria denominada , cujo ídolo, situado no , era visitado após campanhas militares e durante as festividades da colheita. Fontes medievais indicam ainda que parte da tribo teria aderido ao judaísmo durante o reinado de Dunaas , enquanto outros grupos aceitaram o cristianismo, provavelmente em consequência da atividade missionária promovida pelo Império Bizantino a partir do . Às vésperas do advento do islã, entretanto, a maioria dos hamedanitas continuava praticando o politeísmo, venerando divindades como Iauque, Iagute, Suá, Uade e Nasre, além de participar das peregrinações a Meca e da circunvolução da Caaba. Os hamedanitas participaram de diversos conflitos durante o período pré-islâmico. Quando Abramo marchou contra Meca, uniram-se ao príncipe iemenita na tentativa de impedir a expedição. Também combateram ao lado dos alharititas na Segunda Batalha de Culabe e derrotaram repetidamente seus vizinhos da tribo dos muraditas, obtendo vitórias em Mulaha, no Jaufe, e posteriormente em . Segundo a tradição, a primeira dessas batalhas ocorreu no mesmo dia da Batalha de Badre.

As tradições sobre a conversão dos hamedanitas ao islã apresentam diferenças. Segundo alguns relatos preservados por Ibne Sade, indivíduos da tribo já teriam abraçado a nova religião durante o período de Meca e contribuído para sua difusão entre seus parentes. É certo, contudo, que após o retorno de Maomé da Expedição de Tabuque, em 630 ou 631, uma delegação chefiada por dirigiu-se a Medina para declarar a submissão da tribo e sua adesão ao islã. Na ocasião, Maomé confirmou aos hamedanitas a posse de suas terras e pastagens enquanto cumprissem suas obrigações religiosas e tributárias, colocando-os sob a proteção da comunidade muçulmana. Outras tradições atribuem a conversão de parte da tribo à missão de Ali ibne Abi Talibe ao Iêmem em 631 ou 632. Entretanto, alguns historiadores muçulmanos clássicos, entre eles Atabari, consideraram que esses relatos não se referiam especificamente aos hamedanitas ou foram elaborados posteriormente para enaltecer a figura de Ali. Durante as Guerras da Apostasia, embora alguns grupos demonstrassem inclinação à revolta, a maior parte da tribo permaneceu fiel ao islã e ao califa Abu Becre, reafirmando sua lealdade por intermédio de seus líderes. Os hamedanitas constituíram um dos principais contingentes tribais dos primeiros exércitos islâmicos. Juntamente com os madijitas e os himiaritas, formavam um sétimo das forças militares organizadas durante o período das primeiras conquistas. Participaram das campanhas contra o Império Sassânida e o Império Bizantino, combatendo nas batalhas de Jarmuque, Cadésia e Niavende, além de tomar parte nas conquistas de Hómece, Lataquia, Ctesifonte, Hamadã e Coração.

Durante a conquista do Egito, combateram sob o comando de Anre ibne Alas e participaram da tomada da fortaleza da Babilônia, onde empregaram máquinas de cerco. Na época dos omíadas, alguns de seus membros integraram as forças responsáveis pela conquista da Península Ibérica, estabelecendo-se posteriormente nos arredores de Granada. Com a expansão do califado, os hamedanitas dispersaram-se pelas terras conquistadas, embora uma parcela significativa permanecesse em seu território ancestral no Iêmem. Em Cufa formaram uma das mais influentes comunidades tribais da cidade e tornaram-se conhecidos pelo firme apoio a Ali ibne Abi Talibe e a seus descendentes. Cerca de doze mil hamedanitas teriam integrado o exército de Ali na Batalha de Sifim, na qual seu chefe desempenhou papel de destaque. A tradição atribui ao próprio Ali a afirmação de que, se fosse guardião das portas do Paraíso, convidaria os hamedanitas a entrar em segurança, e também a comparação da tribo às suas "lanças e armaduras". Nem todos os ramos da tribo, entretanto, seguiram a mesma orientação política. Enquanto os hamedanitas estabelecidos em Cufa permaneceram ligados à causa de Ali, seus filhos e outros membros da Ahl al-Bayt, participando de diversas revoltas contra os omíadas — entre elas a liderada por Ibne Alaxate contra Alhajaje ibne Iúçufe —, aqueles que se estabeleceram em Damasco, Hómece e Lataquia apoiaram e o governo omíada, ocupando diversos cargos administrativos e militares. No Egito, uma comunidade hamedanita permaneceu estabelecida em Gizé durante longo período, enquanto no Iêmem a tribo preservou sua identidade e deu origem posteriormente aos hamedânidas, mantendo sua presença na região até a atualidade.

Legado

Os hamedanitas exerceram influência duradoura na história política, militar e intelectual do mundo islâmico. Além de sua participação nas primeiras conquistas e nos principais acontecimentos do período dos califas bem-guiados e dos omíadas, a tribo produziu numerosos poetas, tradicionalistas, juristas e estudiosos. Entre seus membros mais célebres destacam-se o geógrafo e genealogista Abu Maomé Haçane Alhamedani, autor de , bem como diversos estudiosos conhecidos pelo nisba Alhamedani. A tradição poética da tribo também se destacou desde o período pré-islâmico, sendo conhecidos cerca de quarenta e cinco poetas da Jailia, cujos versos preservados empregam o dialeto de Meca. Apesar da dispersão de numerosos ramos após as conquistas islâmicas, as confederações de baquilitas e haxiditas permaneceram como as principais representantes dos hamedanitas no norte do Iêmem, onde continuam desempenhando importante papel na organização tribal e na vida política da região.

Bibliografia

Categoria:Hamedanitas