Mãe é um drama em quatro atos de José de Alencar, escrito no Rio de Janeiro em 1859 e dedicado, no prefácio, à mãe do autor. Foi representada pela primeira vez em 24 de março de 1860, no Ginásio Dramático do Rio de Janeiro, sob o título Mãi, sendo publicada logo em seguida. A peça é considerada, junto a O Demônio Familiar, como uma das duas obras teatrais de Alencar que tratam diretamente do tema da escravidão, apresentando uma mulher negra e escravizada como protagonista e figura moralmente central da trama.SIMÕES, David Soares. A peça "Mãe" de José de Alencar: um olhar sobre o lugar da mãe escravizada no Brasil do século XIX. Em Tese, Florianópolis, v. 22, p. 1-17, 2025. DOI: https://doi.org/10.5007/1806-5023.2025.e106943. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/emtese/article/view/106943. Acesso em: 25 jul. 2026.
A estreia, inicialmente marcada para 15 de março de 1860, foi adiada em razão da morte do pai do escritor, ocorrida naqueles dias. Encenada por nove vezes, a peça foi um sucesso de público para os padrões da época e recebeu elogios da crítica, entre eles uma resenha entusiástica do jovem Machado de Assis, então com pouco mais de vinte anos, publicada na "Revista Dramática" do Diário do Rio de Janeiro em 29 de março de 1860. Para Machado, a peça revelava alguém "que reúne os requisitos necessários a um autor dramático".
Com Mãe, José de Alencar passou a ser considerado, por crítica e público, o maior dramaturgo brasileiro de seu tempo.
Enredo Joana, mulher escravizada, teve um filho, Jorge, com Soares, homem livre que a comprara. Antes de morrer, Soares pede ao amigo Dr. Lima, médico de posses modestas, que cuide de Joana e da criança. Joana esconde de Jorge que é sua mãe biológica, e exige que o Dr. Lima também esconda, temendo que a origem escrava do filho o exponha ao preconceito social; ele cresce, portanto, acreditando que sua mãe é uma figura ausente e desconhecida, enquanto Joana o cria com o dinheiro que ganha como escrava de ganho, trabalhando fora e prestando serviços à família vizinha.
Já adulto, Jorge é professor de piano e línguas e apaixona-se por Elisa, filha do funcionário público Gomes, sua vizinha e aluna. Quando o pai de Elisa se vê ameaçado por dívidas e uma ordem de despejo, à beira do desespero e do suicídio, Jorge consegue reunir os recursos necessários para socorrê-lo, o que permite a união do casal. O verdadeiro núcleo dramático da peça, contudo, é revelado apenas no desfecho, quando Joana, para saldar uma dívida contraída por Jorge, se oferece para ser vendida, e a revelação de que ela é a mãe do rapaz vem à tona. Ao saber da origem escrava de Jorge, Gomes recua da promessa do casamento; Jorge responde reivindicando a dignidade da mãe que se sacrificou por ele, deixando em aberto, no final da peça, a questão da liberdade de Joana.FANINI, A. M. R., & VENTURA, M. D. P. (2019). A peça Mãe de Alencar e as vozes sociais sobre a questão afro-brasileira. Bakhtiniana. Revista De Estudos Do Discurso, 14(3), Port. 176–198 / Eng. 182. Recuperado de https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/36669 Acesso em: 25 jul. 2026.
Personagens Jorge: jovem professor de piano e línguas, filho de Joana e Soares. Elisa: filha de Gomes, aluna e amada de Jorge. Gomes: funcionário público, pai de Elisa. Joana: mulher escravizada, mãe de Jorge. Dr. Lima: médico, amigo do falecido Soares e tutor de Jorge. Soares: pai de Jorge, morto antes do início da ação.
Análise A crítica acadêmica recente tem se debruçado sobre Mãe sobretudo a partir de sua representação da escravidão e da maternidade negra, temas raros na dramaturgia brasileira oitocentista fora do registro caricatural. Um estudo publicado por Angela Maria Rubel Fanini e Maria Domingos Pereira Ventura analisa a peça a partir do conceito bakhtiniano de vozes sociais, mostrando como as falas das personagens reproduzem, de modo refratado, os diferentes posicionamentos da sociedade escravista brasileira quanto ao cativeiro, ora reforçando a submissão, ora apontando para formas de resistência e autonomia da personagem escravizada. Segundo essa leitura, Alencar, dividido entre sua posição de intelectual conservador e uma sensibilidade antiescravista, teria optado por veicular sua crítica no espaço do teatro, apostando numa conscientização de longo prazo mais do que numa denúncia política direta.
Outros trabalhos destacam o caráter pioneiro da peça ao colocar uma mulher negra escravizada, e não uma figura estereotipada e cômica (comum no teatro de costumes da época) como personagem-título e eixo moral do enredo. Joana, embora particularizada, também funciona como representação de um tipo social submetido ao escravismo, antecipando em mais de um século leituras historiográficas que reconhecem o escravizado como sujeito de ação e não apenas como vítima passiva do sistema.FANINI, Angela Maria Rubel; VENTURA, Maria Domingos Pereira. Mãe, de José de Alencar: uma possível leitura sobre o trabalho de seres humanos escravizados no século XIX. R. Letras, Curitiba, v. 20, n. 29, p. 31-43, jan./jun. 2018. Disponível em: https://periodicos.utfpr.edu.br/rl/article/view/8087. Acesso em: 25 jul. 2026. Já Antonio Herculano Lopes situa Mãe, ao lado de O Demônio Familiar, como as duas peças em que o autor concedeu espaço mais significativo à experiência dos cativos, apontando o relativo consenso, construído a partir da análise de Décio de Almeida Prado, de que a obra alencariana comporta uma dimensão de crítica à instituição escravista.LOPES, Antonio Herculano. O teatro de Alencar e a imaginação da sociedade brasileira. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais, São Paulo, v. 37, p. 87-111, jan./jun. 2010. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/view/3554. Acesso em: 25 jul. 2026.
Há, contudo, leituras que relativizam esse viés abolicionista. A condição de Joana permanece, até o final, dependente da vontade alheia, e a reação de Gomes ao descobrir a ascendência escrava de Jorge, recusando o casamento sem nunca nomear explicitamente a escravidão como motivo, é lida como evidência de que Alencar reproduz, ainda que de forma indireta, os preconceitos raciais e os discursos eugenistas de sua época, na medida em que a condição escrava de Joana permanece um impedimento social tácito mesmo depois de reconhecida sua dignidade moral. Nessa chave, o "problema" da peça não seria resolvido por uma ruptura da ordem social vigente, mas por uma reafirmação sentimental do valor do amor materno.
Do ponto de vista dramatúrgico, a fortuna crítica sobre o teatro de Alencar costuma classificar Mãe, além de O Jesuíta, entre os dramas do autor, distinguindo-a das "comédias amenas" (como O Demônio Familiar e Verso e Reverso) e das "comédias crispadas" (como As Asas de um Anjo e A Expiação).MARTINS, Eduardo Vieira. Dez estudos (e uma pequena bibliografia) para conhecer José de Alencar. Guia bibliográfico da FFLCH. Tradução . São Paulo: FFLCH/USP, 2016. . Disponível em: http://fflch.usp.br/sites/fflch.usp.br/files/Jose%CC%81%20de%20Alencar.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026. O prefácio da peça, dedicado por Alencar à própria mãe, é também apontado pela crítica como um elemento que reforça a leitura da maternidade como valor moral absoluto na obra: "rainha ou escrava, a mãe é sempre mãe", escreve o autor, ideia retomada literalmente pela personagem Joana ao longo da peça.
Referências
Categoria:Obras de José de Alencar