Os abecitas ou banu Abece () foram uma tribo adenanita pertencente aos gatafanitas. Segundo a tradição genealógica árabe, descendiam de Abece ibne Baguide ibne Raite ibne Gatafane ibne Sade ibne Caice Ailane ibne Modar ibne Nizar, cuja linhagem remontava a Adenane. Constituíram um dos quatro principais ramos da confederação dos gatafanitas, ao lado dos dubianitas, anemaritas e amiritas, desempenhando papel de destaque na história política e militar da Arábia pré-islâmica.
Estabelecidos na porção centro-oriental do Négede, ao longo do Uádi Arruma, os abecitas exerceram, durante o , a liderança dos gatafanitas sob Zuair ibne Jadima, cuja autoridade se estendeu também sobre os hauazinitas. A tribo alcançou grande notoriedade em razão da , um dos conflitos tribais mais célebres da Jailia, travado contra os dubianitas. Entre seus membros mais conhecidos figuram o poeta e guerreiro Antara ibne Xadade, o poeta Zuair ibne Abi Sulma e , personagem lembrado na tradição islâmica como pregador do monoteísmo antes do advento de Maomé e cuja memória permaneceu viva entre os abecitas mesmo após a islamização.
A tribo aderiu gradualmente ao islão durante a vida de Maomé. Embora parte de seus membros tenha participado das Guerras da Apostasia ao lado de Tulaia ibne Cuailide, os abecitas posteriormente tomaram parte nas conquistas da Síria, do Iraque, do Egito e do Magrebe, estabelecendo-se em importantes centros dessas regiões. Durante o Califado Omíada, alcançaram considerável influência política graças ao casamento do califa Abedal Maleque ibne Maruane com a nobre abecita Ualada, da qual nasceram os califas e Solimão. Diversos membros da família passaram a ocupar elevados cargos administrativos e militares na Síria, enquanto comunidades da tribo permaneceram estabelecidas nessa região até a Baixa Idade Média.
Genealogia
Segundo a tradição genealógica árabe, os abecitas descendiam de Abece ibne Baguide ibne Raite ibne Gatafane ibne Sade ibne Caice Ailane ibne Modar ibne Nizar, pertencendo ao grande conjunto das tribos adenanitas. Abece era irmão de Dubiane, Anemar e Amir, considerados os fundadores dos quatro principais ramos da confederação dos gatafanitas. A descendência de Abece prosseguiu principalmente por meio de seus filhos Cutai e Uaraca, dos quais se originaram os diversos clãs da tribo. Os abecitas constituíram um dos grupos mais numerosos e influentes dos gatafanitas, exercendo papel de destaque na política e nos conflitos da Arábia Central durante a Jailia. Além dos abecitas pertencentes aos gatafanitas, as fontes genealógicas árabes registram outros grupos homônimos entre os açaditas, hanifaítas, , , e . Esses grupos não possuíam relação de descendência com os abecitas dos gatafanitas, compartilhando apenas o mesmo nome tribal.
História
Os abecitas ocupavam a porção central do Uádi Arruma, o maior vale do Négede, estendendo-se de leste a oeste através da Arábia Central. Cercado por numerosas montanhas e colinas, seu território era explorado por uma população seminômade dedicada principalmente à criação de rebanhos. Na Jailia, confinavam a leste com os açaditas, a oeste com os calbitas e, nas proximidades da fonte de Hubaibe, com os . A posição geográfica dos abecitas integrava-os ao núcleo territorial dos gatafanitas, cujos principais ramos distribuíam-se ao longo do vale, ocupando aproximadamente um eixo de oeste para leste. Durante o , sob a chefia de Zuair ibne Jadima, líder dos abecitas, os gatafanitas alcançaram o auge de seu poder político. Zuair foi reconhecido como chefe de toda a confederação e também dos hauazinitas, impondo sua supremacia sobre grande parte das tribos caicitas da Arábia Central. Essa hegemonia terminou quando Zuair foi morto por , dos amiritas hauazinitas, durante a , fato que marcou o início do declínio da predominância política dos abecitas entre os gatafanitas. O episódio mais célebre da história da tribo foi a , travada contra os dubianitas, seus parentes e principal ramo rival dos gatafanitas. O conflito teve origem numa disputa entre , chefe dos abecitas, e , líder dos fazaraítas, acerca de uma corrida de cavalos cujo resultado foi considerado fraudulento pelos abecitas. A morte de um dos irmãos de Hudaifa desencadeou uma guerra que se prolongou por muitos anos e envolveu praticamente toda a confederação dos gatafanitas, a maior parte de cujos ramos apoiou os dubianitas. Repetidamente derrotados, os abecitas abandonaram seus antigos territórios e buscaram refúgio entre os amiritas, com os quais derrotaram uma ampla coalizão de tamimitas, dubianitas, açaditas e outras tribos na . A paz foi posteriormente restabelecida graças à mediação de e , chefes dos murraítas, episódio celebrado por Zuair ibne Abi Sulma em uma de suas Muallaqat. Após a reconciliação, abecitas e dubianitas voltaram a combater lado a lado em campanhas contra outras tribos árabes.
Existem diferentes tradições acerca da conversão dos abecitas ao islão. Segundo um relato preservado por Ibne Sade, uma delegação composta por nove membros da tribo foi recebida por Maomé em Medina, converteu-se ao islão e fixou residência na cidade, provavelmente por volta do terceiro ou quarto ano da Hégira. Outra tradição, também transmitida por Ibne Sade, menciona uma delegação formada por apenas três abecitas, que compareceram perante Maomé para expor suas preocupações e manifestar a intenção de emigrar para Medina. Atabari registra ainda a chegada de uma terceira delegação no décimo ano da Hégira. Os abecitas orgulhavam-se igualmente de contar entre seus antepassados , personagem lembrado pela tradição islâmica como defensor do monoteísmo antes do advento de Maomé, a quem o profeta teria chamado de "um profeta (ou mensageiro) perdido de seu povo". Tradições preservadas pela própria tribo afirmam que Calide pregava a crença em um único Deus e anunciava a vinda do último profeta, identificado pelos muçulmanos com Maomé. Também lhe são atribuídos feitos miraculosos em benefício dos abecitas, embora essas mesmas tradições relatem que muitos membros da tribo rejeitaram sua mensagem enquanto ele ainda vivia. Após a expansão do islão, a memória de Calide permaneceu viva entre os abecitas, e alguns de seus descendentes e parentes contribuíram para difundir sua tradição juntamente com a de Maomé entre populações berberes convertidas do Norte da África. Após a morte de Maomé, parte da tribo aderiu ao movimento de Tulaia ibne Cuailide durante as Guerras da Apostasia, mas retornou ao islão depois da derrota do falso profeta. Restabelecida sua fidelidade ao califado, os abecitas participaram das conquistas da Síria, do Iraque, do Egito e do Magrebe. Após essas campanhas, diferentes grupos estabeleceram-se em Almadaim e Cufa, enquanto aqueles que acompanharam Anre ibne Alas na conquista do Egito fixaram-se em Fostate e Bilbeis. Outro importante núcleo instalou-se em Mambije, no norte da Síria, onde os abecitas receberam extensas propriedades fundiárias durante o período omíada. Em torno dessas possessões desenvolveu-se a localidade de Hiar Banu Caca, também conhecida como Hiar Banu Abece, que permaneceu por séculos como um dos principais centros da tribo. Outros grupos seguiram para o Norte da África, onde passaram a integrar a população árabe das províncias recém-conquistadas.
A posição da tribo fortaleceu-se durante o governo do califa Abedal Maleque ibne Maruane, que se casou com Ualada, filha de Alabás ibne Aljaz ibne Alharite, descendente de Zuair ibne Jadima. Ualada foi mãe dos futuros califas e Solimão, circunstância que favoreceu a ascensão política de diversos membros da família. Abedal Maleque concedeu extensas propriedades ao sogro e ao primo de sua esposa, , enquanto Alualide nomeou Alcaca seu secretário e lhe atribuiu novas propriedades nas proximidades de Damasco e Mambije. Outros membros da linhagem ocuparam altos cargos administrativos e militares na Síria, entre eles , governador do distrito militar de Damasco, e os filhos de Alcaca, Alualide e Abedal Maleque, que governaram respectivamente os distritos militares de Quinacerim e Hómece. A influência da família prolongou-se durante o período omíada e alcançou também a época abássida, quando Tumama ibne Alualide, neto de Alcaca, destacou-se como comandante nas campanhas contra o Império Bizantino. Os abecitas conservaram presença significativa no norte da Síria durante toda a Idade Média. Entre os séculos X e XI continuavam ocupando Hiar Banu Alcaca, o vale do e , ao sul de Alepo. Embora grande parte da tribo tivesse adotado um modo de vida sedentário, preservou sua organização tribal e muitos de seus costumes tradicionais. Ainda no , o historiador Abulfeda registrou que os abecitas, juntamente com seus parentes fazaraítas e outras tribos árabes, continuavam acampando na região, apesar de grande parte das antigas terras tribais já se encontrar deserta.
Bibliografia
Categoria:Abecitas