Uçama ibne Zaíde ibne Harita Alcalbi (; Meca, 614 – , 674), também conhecido pelas cúnias de Abu Maomé, Abu Zaíde, Abu Abedalá e Abu Harita, foi um companheiro do profeta islâmico Maomé, filho de Zaíde ibne Harita e de Ume Aimane. Criado desde a infância na casa de Maomé, tornou-se um de seus companheiros mais próximos e era conhecido pelos epítetos Hibe Raçul Alá ("o amado do Mensageiro de Deus") e Hibe ibne Hibe ("o amado filho do amado"), em referência ao afeto que o profeta lhe dedicava.

Ainda jovem, participou das principais campanhas militares conduzidas por Maomé. Depois de ser impedido de combater na Batalha de Uude devido à pouca idade, tomou parte na Batalha da Trincheira, combateu na Batalha de Muta, onde presenciou a morte de seu pai, participou da Conquista de Meca e da Batalha de Hunaine, acompanhou Maomé na Peregrinação de Despedida e integrou diversas expedições contra tribos da Península Arábica. Em 632, foi nomeado pelo profeta comandante de um exército destinado a operar na fronteira da Síria bizantina, decisão que provocou objeções em razão de sua juventude, mas que foi mantida pelo califa Abu Becre após a morte de Maomé, resultando na primeira incursão militar muçulmana em território sírio durante o período do califado.

Durante os califados de Abu Becre, Omar e Otomão, desempenhou missões militares e administrativas e participou das campanhas contra os rebeldes das Guerras da Apostasia. Na Primeira Fitna, recusou-se a combater outros muçulmanos, permanecendo neutro no conflito entre Ali e seus adversários, posição da qual mais tarde se arrependeria. Também se destacou como transmissor de hádices, sendo-lhe atribuídas 128 tradições preservadas nas principais coleções da literatura islâmica.

Vida

Uçama nasceu em Meca cerca de oito anos antes da Hégira, em 614. Seu pai, Zaíde ibne Harita, era um antigo escravo pertencente a Cadija, que o presenteou a Maomé por ocasião de seu casamento. O profeta concedeu-lhe a liberdade, mas Zaíde optou por permanecer ao seu lado, tornando-se um de seus companheiros mais próximos. Sua mãe era Ume Aimane (Baraca), ama de Maomé. Após a Hégira, o profeta encarregou Zaíde e de conduzirem de Meca a Medina seus familiares, entre os quais estavam Ume Aimane e o jovem Uçama. Desde a infância, Uçama desfrutou de grande afeição por parte de Maomé. Segundo a tradição islâmica, o profeta costumava colocá-lo sobre um dos joelhos e Haçane ibne Ali sobre o outro, suplicando: "Ó Deus, eu os amo; ama-os também". Em outra ocasião, Haquime ibne Hizame ofereceu a Maomé uma veste pertencente ao governante iemenita Ceife ibne Di Iazane. Como não aceitava presentes de politeístas, Maomé adquiriu a peça por cinquenta dinares, usou-a apenas uma vez e depois a entregou a Uçama, episódio frequentemente citado pelas fontes como demonstração do carinho que lhe dedicava. Em razão dessa proximidade, passou a ser conhecido pelos epítetos Hibe Raçul Alá ("o amado do Mensageiro de Deus") e Hibe ibne Hibe ("o amado filho do amado").

Ainda adolescente, Uçama desejou participar da Batalha de Uude, mas Maomé recusou sua presença por considerá-lo demasiado jovem, decisão que o levou às lágrimas. Antes da Batalha da Trincheira, procurou aparentar maior estatura para ser aceito entre os combatentes, conseguindo finalmente autorização para integrar o exército muçulmano. Em 629, acompanhou a expedição comandada por contra os murraítas, nas proximidades de . Durante essa campanha matou , integrante da tribo dos juainaítas, apesar de este ter pronunciado a profissão de fé islâmica. Quando soube do ocorrido, Maomé repreendeu severamente Uçama, perguntando-lhe: "Abriste-lhe o coração para saber?". O episódio marcou profundamente Uçama, que mais tarde afirmaria ter desejado converter-se ao islão apenas naquele dia, para não carregar a culpa por esse ato. Uçama participou da Batalha de Muta, travada em setembro de 629 contra o Império Bizantino e seus aliados árabes. A expedição foi comandada sucessivamente por seu pai, Zaíde, Jafar e Abedalá, todos mortos durante os combates, até que Calide ibne Alualide assumiu o comando e conduziu a retirada das forças muçulmanas. A morte de Zaíde marcou profundamente Uçama, que permaneceu, apesar da pouca idade, entre os companheiros mais próximos de Maomé. Nos anos seguintes, participou da Conquista de Meca, da Batalha de Hunaine, do Cerco de Taife e da Peregrinação de Despedida. Também integrou diversas expedições enviadas por Maomé contra tribos da Península Arábica. Embora ainda muito jovem, passou gradualmente a receber responsabilidades de maior importância, reflexo da confiança que o profeta depositava nele.

Pouco antes de sua morte, Maomé organizou uma expedição destinada à região de Balca, na fronteira da Síria bizantina, com o objetivo de enfrentar as forças responsáveis pela derrota muçulmana em Muta. Para surpresa de parte da comunidade, escolheu Uçama, então com cerca de vinte anos de idade, para comandar um exército que reunia alguns dos mais destacados companheiros do profeta, entre eles Abu Becre, Omar, Abu Ubaida ibne Aljarrá e Saíde ibne Zaíde. A nomeação despertou críticas entre alguns muçulmanos, que questionavam a pouca idade e a inexperiência do comandante. Ao tomar conhecimento dessas objeções, Maomé declarou que, assim como anteriormente haviam contestado a nomeação de seu pai, também agora criticavam injustamente Uçama, afirmando que ambos eram dignos do comando e figuravam entre as pessoas que mais amava. Enquanto o exército permanecia acampado em , nos arredores de Medina, aguardando a partida, Maomé adoeceu gravemente. Alguns companheiros sugeriram o adiamento da campanha em razão do estado de saúde do profeta, mas este insistiu que a expedição fosse executada conforme planejado. Antes que as tropas deixassem Medina, porém, Maomé morreu em agosto de 632, interrompendo temporariamente os preparativos da campanha. Após a morte de Maomé, muitos dos integrantes da expedição retornaram a Medina para participar das deliberações que culminaram na eleição de Abu Becre como sucessor do profeta. Em meio às Guerras da Apostasia, diversos companheiros aconselharam o novo califa a cancelar ou pelo menos adiar a campanha, argumentando que a situação na Península Arábica exigia a permanência das forças militares em Medina. Abu Becre, porém, recusou-se terminantemente a modificar uma decisão tomada por Maomé, declarando que não desfaria um estandarte hasteado pelo Mensageiro de Deus. Também rejeitou os pedidos para substituir Uçama por um comandante mais experiente, insistindo em manter a nomeação feita pelo profeta.

Antes da partida do exército, Abu Becre acompanhou Uçama a pé enquanto este montava seu cavalo. Quando o jovem comandante pediu que o califa também montasse ou lhe permitisse descer para caminhar ao seu lado, Abu Becre recusou ambas as propostas, afirmando que não se importava em cobrir de poeira os próprios pés por alguns instantes no caminho de Deus. O califa apenas solicitou que Omar permanecesse em Medina para auxiliá-lo na administração da comunidade, pedido que Uçama prontamente aceitou. Antes da partida, Abu Becre dirigiu aos soldados uma série de recomendações, proibindo a traição, a mutilação de cadáveres, a morte de mulheres, crianças e idosos, a destruição de plantações e árvores frutíferas e o abate desnecessário de animais, além de ordenar que fossem respeitados os religiosos retirados em mosteiros. A expedição marchou em direção à região de Balca, alcançando Ubna, onde Uçama atacou grupos associados às forças que haviam enfrentado os muçulmanos em Muta. A campanha foi concluída com êxito, permitindo o retorno do exército a Medina após cerca de quarenta dias, embora algumas tradições mencionem uma duração de setenta dias. Segundo as fontes islâmicas, o sucesso da expedição fortaleceu a posição do recém-estabelecido califado e produziu forte impacto psicológico entre as tribos árabes, que passaram a reconhecer a capacidade militar e a coesão política da comunidade muçulmana mesmo após a morte de Maomé. Durante as Guerras da Apostasia, Uçama participou da campanha contra Muçailima, integrando o exército comandado por Calide ibne Alualide na Batalha de Iamama.

Durante o califado de Omar , Uçama continuou a desfrutar de elevado prestígio entre os primeiros muçulmanos. O califa concedeu-lhe uma pensão anual superior à destinada a seu próprio filho, Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, fixando-a em quatro mil dirrãs, enquanto o filho recebia três mil e quinhentos. Questionado sobre essa diferença, Omar respondeu que Maomé amava mais Uçama do que Abedalá e também amava mais Zaíde ibne Harita do que ele próprio, razão pela qual preservava essa distinção na distribuição dos estipêndios. No reinado de Otomão , Uçama desempenhou algumas missões administrativas e recebeu uma propriedade na região de Baçorá. Apesar de permanecer respeitado pela comunidade, evitou envolver-se nas disputas políticas que passaram a marcar o final do governo do terceiro califa. Durante a Primeira Fitna, recusou-se a tomar parte nos combates travados entre Ali e seus adversários. Segundo a tradição preservada pelas fontes islâmicas, sua decisão foi influenciada pelo remorso que ainda nutria pelo episódio em que matou Mirdas ibne Naique após este haver professado a fé islâmica. Recordando a severa repreensão de Maomé, Uçama declarou que jamais voltaria a combater alguém que afirmasse ser muçulmano. Embora mantivesse boas relações com Ali, preferiu retirar-se para sua propriedade em Uádi Alcura, permanecendo afastado das hostilidades. Mais tarde estabeleceu-se em Jurfe, nas proximidades de Medina, onde faleceu em 674, durante o governo do califa . Seu corpo foi levado para Medina, onde recebeu as exéquias fúnebres e foi sepultado no Cemitério de Albaqui. As fontes o descrevem como um homem de pele muito escura, herdada de sua mãe, estatura mediana e constituição delgada. Também ressaltam sua piedade, modéstia, generosidade e dedicação à vida religiosa. Casou-se seis vezes e deixou numerosa descendência. Uçama também se destacou como transmissor de hádices. São-lhe atribuídas 128 tradições, preservadas nas principais coleções da literatura islâmica e transmitidas por companheiros e sucessores, entre os quais Abedalá ibne Abas, Urua ibne Azobair, Saíde ibne Almuçaíbe e . Seus relatos foram incorporados às coleções canônicas do sunismo e figuram igualmente no Musnade de Amade ibne Hambal.

Bibliografia

Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Árabes do século VII Categoria:Pessoas envolvidas na Primeira Guerra Civil Islâmica Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras da Apostasia Categoria:Generais do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Muçulmanos envolvidos nas guerras bizantino-árabes Categoria:Naturais de Meca Categoria:Pessoas sepultadas no Cemitério de Albaqui