Abu Iáia Uçaíde ibne Hudair ibne Simaque Alaxali (; m. ) foi um dos ançares e companheiros de Maomé. Pertencente ao clã abedelaxalita da tribo dos aucitas, destacou-se pela conversão precoce ao islão, pela participação nas principais campanhas militares travadas pelos muçulmanos e pelo apoio decisivo à eleição de Abu Becre após a morte de Maomé. Também exerceu funções como escriba, conselheiro e professor da comunidade de Medina, sendo lembrado nas fontes islâmicas por sua habilidade na recitação do Alcorão.
Vida
Uçaíde pertencia ao clã abedelaxalita da tribo dos aucitas. Era filho de Hudair Alcátibe, um dos principais chefes de seu povo, que comandou os aucitas na Gázua de Buate e morreu durante o conflito, travado cerca de seis anos antes da Hégira. Sua mãe era Ume Uçaíde binte Sacane. As fontes registram diferentes tradições quanto à sua cunha, sendo a mais conhecida Abu Iáia, embora também se mencione que Maomé o tratava por Abu Issa. Após o Primeiro Pacto de Ácaba, Maomé enviou Muçabe ibne Omeir a Medina para difundir o islão entre seus habitantes. Inicialmente contrário à nova religião, Uçaíde dirigiu-se ao encontro de Muçabe, mas, depois de ouvir sua recitação do Alcorão e suas explicações sobre o islão, converteu-se. Ainda no mesmo dia, convenceu seu primo e chefe dos aucitas, Sade ibne Muade, a encontrar-se com Muçabe, contribuindo decisivamente para sua conversão. A adesão das duas principais lideranças do clã abedelaxalita favoreceu a rápida expansão do islão entre os aucitas e constituiu um dos acontecimentos mais importantes do processo de islamização de Medina. Uçaíde integrou o grupo de setenta habitantes de Medina que participou do Segundo Pacto de Ácaba, sendo escolhido por Maomé como um dos doze naquibes encarregados de representar a comunidade muçulmana, figurando entre os três representantes dos aucitas. Após a Hégira, foi unido por um pacto de fraternidade a Zaíde ibne Harita.
Uçaíde não participou da Batalha de Badre, pois desconhecia que a expedição resultaria em combate. Após a vitória muçulmana, apresentou a Maomé as razões de sua ausência e pediu que sua justificativa fosse aceita. A partir de então, participou de todas as campanhas militares conduzidas pelo líder muçulmano. Na Batalha de Uude, permaneceu entre o pequeno grupo de companheiros que não abandonou Maomé durante o contra-ataque dos coraixitas. Recebeu sete ferimentos no combate, um dos quais foi causado acidentalmente por . Ainda antes de tratar completamente suas lesões, voltou a empunhar armas para participar da Gázua de Hâmera Alaçade. Em Uude e na Expedição de Tabuque, exerceu a função de porta-estandarte dos aucitas. Durante a Batalha da Trincheira, comandou um contingente de duzentos homens encarregado de defender um dos setores da trincheira contra os ataques liderados por Calide ibne Alualide. Também esteve entre os companheiros que convenceram Maomé a abandonar a proposta de oferecer parte da produção de tâmaras de Medina aos gatafanitas em troca do levantamento do cerco.
Desde o período pré-islâmico, Uçaíde era conhecido por sua prudência e instrução, figurando entre os poucos habitantes de Medina que sabiam ler e escrever. Também era reconhecido como exímio arqueiro e nadador, razão pela qual recebeu o epíteto de "Camil" ("o completo"). As fontes o apresentam ainda como um dos escribas de Maomé, seu conselheiro em determinadas questões, professor do Alcorão e imame de seu clã. Durante o Cerco de Taife, o escravo taifita , que se juntou aos muçulmanos, foi colocado sob sua supervisão para aprender o Alcorão e os preceitos do islão. Após a morte de Maomé, quando grande parte dos ançares reuniu-se em torno da candidatura de Sade ibne Ubada ao califado, Uçaíde integrou o grupo que apoiou Abu Becre, desempenhando papel importante em sua eleição. Segundo a tradição, Abu Becre consultava frequentemente Uçaíde sobre assuntos relevantes do governo. Durante o califado de Omar , participou da célebre reunião realizada em Gabita com os principais comandantes e companheiros, bem como da conquista de Jerusalém.
Uçaíde morreu em xabã de 20 AH (julho-agosto de 641). Omar presidiu pessoalmente sua oração fúnebre e ajudou a transportar seu corpo até o Cemitério de Albaqui, onde foi sepultado. Ao morrer, deixou uma dívida de quatro mil dirrãs. Quando soube que suas propriedades haviam sido vendidas para saldá-la, Omar reuniu os credores e determinou que, durante quatro anos, recebessem os rendimentos das terras pelo sistema de kabala, preservando o patrimônio para os herdeiros de Uçaíde. Algumas fontes afirmam que essa solução foi adotada em cumprimento a uma disposição deixada pelo próprio Uçaíde antes de sua morte. As fontes islâmicas descrevem Uçaíde como um dos mais habilidosos recitadores do Alcorão entre os companheiros de Maomé. Segundo um conhecido relato preservado nas coleções de hádices, certa noite, enquanto recitava o Alcorão, seu cavalo assustou-se repetidamente. Ao interromper a recitação e aproximar-se do animal, Uçaíde observou uma formação semelhante a uma nuvem, da qual emanavam luzes que se elevaram em direção ao céu. No dia seguinte, Maomé teria explicado que se tratava de anjos que haviam descido para ouvir sua recitação e que, caso ele tivesse continuado a leitura, permaneceriam ali até o amanhecer, visíveis inclusive às demais pessoas.
Uçaíde também era lembrado pelo bom humor. Segundo uma tradição preservada por Abu Daúde Assijistani, enquanto conversava de maneira descontraída com outros companheiros, Maomé tocou-lhe o flanco com um pequeno galho ou com o dedo. Uçaíde declarou então que pretendia exercer o direito de retaliação. Quando Maomé concordou, observou que ele vestia uma túnica, enquanto o próprio Uçaíde estava com o torso descoberto. Após Maomé retirar a veste, Uçaíde abraçou-o e beijou-lhe o flanco, afirmando que esse era, na realidade, seu objetivo. A TDV observa que, por vezes, esse episódio é atribuído equivocadamente a . Uçaíde transmitiu cerca de cinquenta hádices, incluindo as versões repetidas, preservados nas principais coleções canônicas. Entre seus discípulos figuram Anas ibne Maleque, Cabe ibne Maleque, Abuçaíde Alcudri, Aixa, , Abederramão ibne Abi Laila e . Algumas tradições lhe atribuídas resultam, entretanto, de confusão com outro companheiro de nome semelhante, .
Bibliografia
Categoria:Árabes do século VII Categoria:Ançares Categoria:Aucitas Categoria:Naquibes Categoria:Pessoas sepultadas no Cemitério de Albaqui