Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra) (inicialmente Ñande Ipi Cuéra; ) é um famoso poema mitológico e etnogenético escrito pelo poeta paraguaio Narciso R. Colmán (Rosicrán), publicado em 1922 com tradução e estudo etimológico em 1937. A obra apresenta a cosmogonia e a origem da cultura guarani através de suas divindades.COLMÁN, Narciso R. Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra): El Arte", 1922.
Ñande Ypykuéra é a obra-mestra de Narciso R. Colmán. Apesar de muito de sua narrativa (como Tupã no papel de deus criador, a criação do mundo e da humanidade aqui descrita, etc.) e alguns personagens (como Arasy, Rupavê e Sypavê, Angatupyry, Kerana, etc.) não serem reconhecidos por nenhum povo tupi-guarani como parte de suas mitologias, mostrou-se tão popular que, para o público não-indígena, tornou-se sinônimo de mitologia guarani, e muitos hoje acreditam que o conteúdo do texto faça parte das crenças indígenas.ROJAS, Rodrigo Nicolás Villalba (2022). Rosicrán y Su Poema Ñande Ĭpĭ Cuéra (1929). Boca de Sapo 33. Tierra.
Com o nome Ñande Ypy Cuera, a obra, originalmente escrita em guarani, foi premiada no Congresso de Americanistas realizado no Rio de Janeiro em 1922. O poema foi publicado em Assunção em 1929 pela gráfica El Arte, em sua primeira edição, e a segunda foi publicada pela Sociedade Científica do Paraguai no mesmo ano. Há também uma edição brasileira, separada dos annaes do XX Congresso Internacional de Americanistas, pela Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, em 1932. Cinco anos depois, em 1937, o autor traduziu o poema para o espanhol e publicou-o em prosa em Assunção.CENTURIÓN, Carlos R. El estudio de la lengua guaraní. In: CENTURIÓN, Carlos R. Historia de las letras paraguayas. Tomo III. Buenos Aires: Editorial Ayacucho, 1951.
Enredo Nesse poema, Tupã é o deus criador cuja luminosa morada é o Sol (que Rosicrán chama pelo nome tupi Kuarasy em vez das variantes guaranis Kuarahy, Kuaray ou Kuara), de onde ele observa o universo inteiro com olhos escrutinadores que enxergam através das sombras e coisas. Sentindo-se solitário, ele desposa a deusa Arasy, consagrando-a como “Mãe do Céu” e fixando Jasy, a Lua, como sua morada.
Tupã criou uma tempestade, com raios rasgando os elementos e a chuva lavando e fertilizando onde caía, e assim ele criou o mundo. Ele e Arasy desceram então à Terra no monte Areguá (etimologicamente "o que está acima/no alto") no atual Paraguai e de lá eles criaram os mares e rios, as florestas, as estrelas e todos os seres do universo, mas algo faltava para completar a criação, e, assim, Tupã criou o primeiro casal humano a partir da mistura de diversos elementos. Eles os chamaram Rupavê e Sypavê e, deixando-os no Areguá na companhia de Taû (o Mal) e Angatupyry (o Bem) para guiá-los aqui na Terra, Tupã e Arasy retornaram para o céu. Rupavê e Sypavê tiveram três filhos (Tumé Arandu, Marangatu e Japeusá) e quatro filhas (Porãsy, Guarasyáva, Tupinambá e Yrasêma), que vão formar famílias e povoar o mundo.
Mais adiante Arasy amaldiçoa os sete filhos de Taû e Kerana, filha de Marangatu e neta de Rupavê e Sypavê, pelo crime do deus do mal em raptar a moça e tomá-la para si. Porãsy, a mais velha das filhas de Rupavê e Sypavê, sacrificou-se em um plano arquitetado por Tumé Arandu para livrar o povo dos filhos monstruosos de Taû e Kerana, e Tupã, para honrá-la, transformou-a na Estrela da Manhã.
Taû, para se vingar, espalhou o mal entre o povo, levando a guerras sangrentas e a um grande incêndio, o que desgostou a Tupã, deus das águas que habita o fundo do mar, que enviou um dilúvio para acabar com o mal. Tupã avisou Tumé Arandu com antecedência, que se preparou construindo uma enorme canoa, onde se salvaram apenas Tumé, seu papagaio e suas duas irmãs ainda vivas, Guarasyáva e Tupinambá, mães dos guaranis e dos tupis, respectivamente.
Deve-se, de novo, ter sempre em conta que essa narrativa é uma ficção escrita por Rosicrán reunindo diversos personagens míticos do Paraguai, a maioria deles sem relação direta entre si (como os "sete monstros lendários") e alguns deles criados para essa obra, incluindo até o mito de Atlântida, a mitologia cristã, os maoris da Nova Zelândia e os maias do México no que foi chamado de “a primeira cosmogonia ficcional guarani”, não constando, do jeito que ele apresentou, nos autênticos mitos indígenas.ABC Color (2019, novembro 19). Los mitos de “Ñande Ipi cuéra” vuelven en una nueva edición. Esta obra adquiriu uma fama que substituiu os mitos guaranis reais no imaginário social e, com a mesma força, sepultou muitos signos, motivos e procedimentos criativos que até então não haviam sido analisados criticamente.
Personagens O poema de Rosicrán apresenta uma enorme quantidade de personagens, alguns deles inventados pelo poeta e outros foram adaptados de personagens mitológicos já existentes, entre os quais estão:
Deidades principais Tupã (“trovão”): É o deus criador do mundo e da humanidade, segundo o poema, e sua luminosa morada é Kuarasy, o Sol, de onde ele observa o universo inteiro com olhos escrutinadores que enxergam através das sombras e coisas. Arasy (“mãe do céu”): Esposa de Tupã, que a consagra como “Mãe do Céu”, fixando Jasy, a Lua, como sua morada. Ela o auxiliou na criação do primeiro casal humano e amaldiçoou os sete filhos de Taû e Kerana. Taû ("visão, fantasma, espectro"): É o espírito do mal, encarregado por Tupã de guiar a humanidade junto de Angatupyry, o espírito do bem. Taû sequestrou Kerana, bela neta de Rupavê e Sypavê, o que levou Arasy a amaldiçoar os filhos que ele geraria nela. Na mitologia tupi é conhecido como Taúba ou Taubymana. Angatupyry (“espírito cheio de bondade”): É o espírito do bem, encarregado por Tupã de guiar a humanidade junto de Taû, o espírito do mal. Ele lutou contra Taû para impedi-lo de raptar Kerana, mas fora derrotado por Pytajovái, avô de Taû, corajoso deus que trazia em suas entranhas o fogo da destruição.
Primeiros humanos Rupavê (“pai de todos”) e Sypavê (“mãe de todos”): São o primeiro casal humano, criados à semelhança de Tupã e Arasy da mistura de diversos elementos da natureza. Sua morada original é o Monte Areguá, no atual Paraguai. Filhos: Tumé Arandu ("o sábio Tomé"): Primeiro filho de Rupavê, grande profeta guarani. Pai da sabedoria e inspirado pelos céus através da fala de seu papagaio de estimação, foi salvo do dilúvio junto com suas irmãs Guarasyáva e Tupinambá. Marido de Tere e pai de Guaírã. Foi ele quem planejou a destruição dos sete filhos monstruosos de Taû e Kerana e pôs fogo à caverna em que eles se reuniam durante o sacrifício de Porãsy, matando a todos. Também chamado no texto de Tumê, Tomé, Chumé ou Sumê (Sumé), Pa'i Arandu, Paisandú (Pa'i Sandú) e Santo Tomás. Na mitologia tupi, os personagens que sobreviveram ao dilúvio foram os irmãos gêmeos Tamanduaré e Aricuté, filhos de Sumé (também chamado de "Tumé"), de quem Tumé Arandu é uma adaptação. Marangatu (“bondoso, afável, virtuoso”): É o segundo filho de Rupavê e pai de Kerana. Japeusá (yapeuçá, “caranguejo, centopeia, escorpião”): O filho desobediente de Rupavê que fazia tudo ao contrário. Desprezado pelos parentes por ter envenenado imprudentemente sua irmã Yrasêma, ele cometeu suicídio por afogamento e seu corpo se transformou em um caranguejo, para sempre andar para trás. Filhas: Porãsy (“mãe bela”): Deusa da beleza e filha mais velha de Rupavê e Sypavê, sacrificou-se para livrar o povo dos filhos monstruosos de Taû e Kerana, e Tupã, para honrá-la, transformou-a na Estrela da Manhã (Mbyja Ko'ê). Guarasiáva ou Guarasyáva (“mãe do homem guarani”): Sobrevivente do dilúvio com os irmãos Tumé Arandu e Tupinambá, era a segunda filha de Rupavê, casada com Paraguá, homem de Atlântida, e mãe da raça guarani. Com isso, Rosicrán fez com que os guaranis fossem descendentes de atlantes. Tupinambá, Tupina ou Tupinamba'e (“pertencente ao tupí”): Sobrevivente do dilúvio com os irmãos Tumé Arandu e Guarasyáva, era a terceira filha de Rupavê, casada com o irmão de Paraguá, Ma'ehory, apelidado de Amarasó, e mãe da raça tupi. Com isso, Rosicrán fez com que os tupis fossem relacionados aos maoris (de “Ma'ehory”) da Nova Zelândia. Yrasêma (“murmúrio das águas”): Deusa das canções e última filha de Rupavê, a jovem romântica cuja canção era como o murmúrio dos riachos. Ela era a feiticeira do violão de cabaça (guitarra de porongo) e morreu prematuramente (foi a primeira morte na tribo), envenenada pela imprudência de seu irmão Japeusá. (A verdadeira etimologia do nome Iracema vem do tupi irá + sema, “saída de abelhas”, “enxame”; a etimologia “lábios de mel”, dada por José de Alencar em seu romane Iracema, não procede.) Kerana (“dorminhoca”): Deusa do sono, filha de Marangatu (o que a faz neta de Rupavê e Sypavê), esposa de Taû e mãe dos sete filhos amaldiçoados por Arasy. Ela morreu de tristeza no lugar em que seus filhos foram mortos pelo sacrifício de Porãsy, tia de Kerana.
Os sete irmãos monstruosos Os sete filhos de Taû e Kerana são os popularmente chamados "sete monstros lendários" (Rosicrán não os nomeia assim, e nem os chama de "deuses", e sim de "espíritos", "protetores", "senhores" ou "fados"), que na verdadeira mitologia guarani não têm relação direta alguma uns com os outros. Quando eles se reuniram no Yaguarón ou Jaguarão, lar de Teju Jagua, para celebrar o casamento de Moñai com Porãsy, tia de Kerana, Porãsy se sacrificou para matá-los a todos com o fogo ateado por Tumé Arandu, e suas almas, assim purificadas, subiram ao céu e foram transformadas nas Plêiades.
Os sete filhos, por ordem de nascimento, são:
Teju Jagua ("Lagarto Fera"): Também chamado Jaguaru ("Fera Grande" ou "Pai das Feras"), tem corpo de lagarto e sete cabeças de um animal semelhante a um cão, considerado senhor das cavernas, grutas e lagos e protetor das frutas. Mboi Tu'i ("Serpente Papagaio"): Uma cobra gigante com cabeça de papagaio, fado protetor dos cursos de água, das áreas úmidas, das criaturas aquáticas e das flores. Moñai ("Perseguidor", "O que faz correr"): Uma cobra gigante com chifres que se diz ser o senhor e protetor dos campos, do ar e dos pássaros, do roubo e das travessuras. Jasy Jatere ("Fragmento da Lua"): Também chamado Jasy Tere ou Jasy Atere, homenzinho de cabelos dourados, senhor da sesta, possuidor de uma varinha dourada que o torna invisível, protetor das florestas, da lendária erva feiticeira e das abelhas. Ele desvia as pessoas do caminho certo para levá-las até seu irmão Ao-Ao, que é antropófago. Kurupi ("Casca/Pele Rugosa"): Espírito da sexualidade, governante das selvas e dos animais silvestres, seu membro viril tem um comprimento descomunal, tão longo quanto um laço. Ao-Ao: Governante antropófago das colinas e montanhas, fado da fertilidade e da reprodução, parece-se com uma monstruosa ovelha, queixada ou o caititu. Quando suas vítimas, tentando escapar de seus numerosos filhos, sobe em uma árvore, eles a cercam gritando em coro: Ao-Ao! Ao-Ao! (como o latido dos cães) — donde o seu nome. Luison ("Lobisomem"): Também chamado Huicho, Juicho, Luvisón ou Lobisón, é o senhor da noite e companheiro inseparável da morte, com domínio sobre os cemitérios, um ser que se assemelha a um lobo ou a um homem com características caninas.
Outros personagens Angekovóra: Juiz supremo da consciência. Toda injustiça ele pune com remorso, opressão e arrependimento. Arekaja ou Arecaya: Filho único de Paraguá, gênio das invenções, construiu com seu pai a resplandecente cidade de Mba'e Verá Guasu (“Grande Coisa Brilhante”), inspirado na capital homônima de Atlântida. Há realmente uma lenda guarani, que não tem nada a ver com Atlântida, sobre a misteriosa e opulenta cidade de Mba'e Verá Guasu oculta nas selvas do norte do Paraguai ou regiões vizinhas do Brasil.LEYES DE CHAVES, María Concepción. Mbae-Verá-Guasú. In: LEYES DE CHAVES, María Concepción. Río Lunado: mitos y costumbres del Paraguay. Asunción: Servilibro, 2007.