Zaíde ibne Tábite (; Medina, — Medina, c. 665/6) foi um companheiro do profeta islâmico Maomé, pertencente aos ançares e ao clã dos najaritas, da tribo dos cazerajitas. Exerceu a função de escriba da revelação, participou da preservação escrita do Alcorão durante a vida do profeta e, posteriormente, presidiu tanto a comissão encarregada da primeira compilação do texto corânico durante o califado de Abu Becre quanto a responsável pela preparação dos códices oficiais promovida pelo califa Otomão . Além de sua atuação como escriba, destacou-se como administrador, juiz e especialista em direito sucessório islâmico. Foi considerado pelos primeiros muçulmanos a principal autoridade em matéria de heranças, qualidade reconhecida pelo próprio Maomé, e figurou entre os companheiros mais consultados para a emissão de fátuas e a interpretação do Alcorão. Durante os governos de Omar , Otomão e , exerceu importantes funções administrativas em Medina, incluindo a administração do Baite Almal e da chancelaria local. Sua influência estendeu-se às gerações posteriores por meio de seus numerosos discípulos e de sua contribuição para a formação da jurisprudência medinense. As metodologias empregadas por Zaíde na compilação do Alcorão e sua atuação como jurista exerceram profunda influência sobre a tradição islâmica posterior, tornando-o uma das figuras centrais da história do texto corânico e do desenvolvimento do direito islâmico.
Vida
Zaíde ibne Tábite nasceu em Medina cerca de onze anos antes da Hégira, por volta de 611. Pertencia aos najaritas, um ramo dos cazerajitas, sendo filho de Tábite, morto na Batalha de Buate quando Zaíde tinha aproximadamente seis anos de idade, e de Anauar binte Maleque. Ainda criança revelou grande inteligência e notável capacidade de memorização, tendo decorado dezessete suras do Alcorão antes mesmo da chegada de Maomé a Medina. Logo após a Hégira, seus parentes o apresentaram ao profeta, diante de quem recitou as suras que conhecia, conquistando sua admiração. Antes da Hégira, Zaíde aprendeu a ler e escrever numa escola mantida por um grupo judaico de Medina, onde provavelmente adquiriu também conhecimentos da escrita hebraica ou siríaca. Posteriormente, Maomé encarregou-o de aprender hebraico — ou, segundo algumas tradições, siríaco — para auxiliar na leitura e redação da correspondência mantida com as comunidades judaicas, tarefa que cumpriu em curto espaço de tempo. Relatos posteriores também lhe atribuem conhecimentos de persa, grego, copta e gueês, aprendidos com emissários e servidores estrangeiros ligados ao profeta, embora essas informações não sejam consensuais entre as fontes. Por ser muito jovem, não recebeu permissão para participar das batalhas de Badre e Uude. Durante a Batalha da Trincheira, auxiliou na escavação das fortificações e no transporte da terra retirada do fosso, sendo elogiado por Maomé por sua dedicação. Na Conquista de Caibar, foi encarregado de realizar o recenseamento dos combatentes muçulmanos. Ao longo desse período, integrou o grupo de escribas convocados sempre que novas revelações eram recebidas e tornou-se um dos quatro ançares que memorizaram integralmente o Alcorão ainda durante a vida do profeta. Além de registrar os versículos revelados, redigiu cartas diplomáticas enviadas em nome de Maomé aos soberanos vizinhos.
Após a morte de Maomé, Zaíde ibne Tábite continuou exercendo funções de escriba durante o califado de Abu Becre . Sua primeira grande incumbência nesse período foi a compilação do Alcorão, motivada pelas numerosas mortes de companheiros que haviam memorizado o texto sagrado, especialmente na Batalha de Iamama. Preocupado com a possibilidade de parte da revelação se perder, Omar propôs ao califa que o texto fosse reunido num único códice. Embora inicialmente relutasse em realizar uma tarefa que não havia sido ordenada pelo profeta, Abu Becre acabou aceitando o conselho e encarregou Zaíde de dirigir os trabalhos. Segundo os relatos preservados pela tradição islâmica, Zaíde inicialmente mostrou a mesma hesitação demonstrada por Abu Becre, argumentando que a compilação representava uma iniciativa inédita. Convencido da necessidade da medida, passou a coordenar uma comissão responsável por reunir todos os registros escritos existentes do Alcorão. Foi anunciado que aqueles que possuíssem fragmentos escritos deveriam apresentá-los acompanhados de duas testemunhas que confirmassem sua autenticidade como revelação corânica. A comissão confrontava esses registros com a recitação memorizada pelos companheiros, reunindo-os num único conjunto considerado completo e fiel ao texto revelado. Concluída a compilação, o códice foi entregue a Abu Becre e, após sua morte, passou para Omar e, posteriormente, para sua filha Háfeça binte Omar. A tradição relata que o trabalho recebeu a aprovação dos principais companheiros, entre eles Omar e Ali ibne Abi Talibe, e que, por sugestão de Abedalá ibne Maçude, o volume passou a ser denominado . Durante o califado de Otomão , o crescimento do império islâmico e a difusão de diferentes formas de recitação levaram o califa a ordenar a preparação de uma versão oficial do texto corânico. Utilizando o códice conservado por Háfeça como exemplar principal, Otomão nomeou uma comissão presidida novamente por Zaíde ibne Tábite para produzir cópias autorizadas destinadas às principais cidades do califado. A tradição islâmica atribui a Zaíde papel decisivo na condução desse trabalho, enquanto estudos modernos ressaltam que sua escolha também possuía dimensão política. Segundo Michael Lecker, além de sua reconhecida competência como escriba e conhecedor do Alcorão, Zaíde era visto como um colaborador fiel da liderança coraixita desde os primeiros anos da comunidade islâmica, fator que provavelmente contribuiu para sua nomeação à frente da comissão otomânica.
Paralelamente às suas atividades relacionadas ao Alcorão, Zaíde exerceu importantes funções administrativas durante os primeiros califados. Ainda no governo de Abu Becre, foi encarregado de calcular a parte do espólio pertencente ao Estado referente aos prisioneiros da tribo dos quindaítas capturados em Hadramaute, além de supervisionar posteriormente o recebimento de seus resgates. Sua habilidade em aritmética tornou-o igualmente um especialista em cálculos cronológicos e na divisão de heranças, competências frequentemente requisitadas pela administração do Estado islâmico. Sob o governo de Omar , tornou-se um dos principais conselheiros do califa em assuntos jurídicos e administrativos. Recebeu a incumbência de dividir os espólios obtidos na Batalha de Jarmuque, função que já desempenhara anteriormente por ocasião das campanhas de Caibar e Hunaine. Também atuou como juiz em Medina e substituía o califa na administração da cidade durante suas ausências. Quando carregamentos de cereais enviados do Egito chegaram a Medina, preparou ordens escritas de distribuição em papiro, seladas oficialmente, sendo apontado pelas fontes como o primeiro muçulmano a empregar esse sistema de autorizações escritas para o abastecimento público. Durante o califado de Otomão, acumulou novas responsabilidades, passando a administrar o Baite Almal e exercendo novamente a regência de Medina quando o califa se ausentava. Quando a residência de Otomão foi cercada pelos revoltosos em 656, Zaíde entrou na casa do califa, procurou persuadir os manifestantes a desistirem do cerco e convenceu alguns ançares a abandonarem a revolta. Fontes preservadas na tradição registram ainda que já havia apoiado a liderança dos muajiritas na Saquifa dos saidaítas e permaneceu politicamente próximo de Otomão ao longo de seu governo. Após a ascensão de , voltou a exercer funções administrativas em Medina, dirigindo o divã da cidade e prestando aconselhamento jurídico tanto ao califa quanto ao governador Maruane ibne Aláqueme.
Ao lado de sua atuação como escriba e administrador, Zaíde ibne Tábite destacou-se como um dos mais influentes juristas entre os companheiros de Maomé. Ao longo da história islâmica, seu nome passou a figurar, juntamente com os de Omar, Ali ibne Abi Talibe, Abedalá ibne Maçude, Ubai ibne Cabe e Abu Muça Alaxari, entre os companheiros reconhecidos por seu conhecimento jurídico e pela emissão de fátuas. Segundo as fontes, costumava emitir pareceres apenas sobre casos efetivamente ocorridos, perguntando previamente se o fato submetido à sua apreciação já havia acontecido e recusando-se a responder questões meramente hipotéticas. Sua reputação como intérprete dos hádices também era elevada. Confiante em seu conhecimento da suna, teria afirmado: "Que Deus perdoe Aixa; nós conhecemos o Mensageiro de Deus melhor do que ela". As tradições registram que corrigia prontamente narrativas transmitidas de forma incompleta ou descontextualizada. Um episódio frequentemente citado envolve , que atribuía a Maomé uma proibição geral do arrendamento de terras. Zaíde esclareceu que a declaração do profeta havia sido proferida para resolver um conflito específico entre dois ançares, de modo que Rafi ouvira apenas a conclusão da conversa e interpretara equivocadamente uma solução circunstancial como uma norma universal. O episódio é frequentemente citado como exemplo da preocupação de Zaíde em interpretar os hádices à luz do contexto em que haviam sido pronunciados.
Sua maior especialidade, entretanto, era o direito sucessório islâmico. Desde a época de Maomé, era reconhecido como a principal autoridade da comunidade nessa matéria, reputação sintetizada na tradição segundo a qual o próprio profeta teria declarado: "O mais conhecedor das leis de herança entre a minha comunidade é Zaíde". Seu domínio das regras de sucessão projetou-o entre os maiores juristas de sua geração e exerceu influência duradoura sobre o desenvolvimento da jurisprudência islâmica. Entre os tabis, elogiou sua profundidade de conhecimento, chegando a preferir algumas de suas opiniões em matéria sucessória às de Abedalá ibne Maçude. Axafii também foi profundamente influenciado pelas posições jurídicas de Zaíde nessa área, enquanto afirmou que seus pareceres sobre o direito sucessório eram aceitos como autoridade por todos os companheiros. Alguns estudiosos modernos consideram ainda que Zaíde foi o primeiro muçulmano a produzir uma obra dedicada especificamente ao direito sucessório, embora essa atribuição permaneça objeto de debate. Zaíde transmitiu noventa e nove hádices conservados no Musnade de Amade ibne Hambal. Entre os companheiros que narraram tradições em seu nome encontram-se Abu Huraira, Ibne Abas, Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, Abuçaíde Alcudri, Anas ibne Maleque, e . Entre seus discípulos da geração dos tabis figuram Maruane ibne Aláqueme, Saíde ibne Almuçaíbe, , Abane ibne Otomão, , , Urua ibne Azobair, , , além de seus filhos Carija e . Entre seus alunos destacou-se ainda , que estudou o Alcorão sob sua orientação durante treze anos.
Bibliografia
Categoria:Ançares Categoria:Najaritas Categoria:Naturais de Medina Categoria:Árabes do século VII Categoria:Escribas da revelação