Luxo e Vaidade é uma comédia em cinco atos de Joaquim Manuel de Macedo, encenada pela primeira vez em 23 de setembro de 1860, no Teatro Ginásio do Rio de Janeiro, pela Companhia Dramática Nacional. A peça satiriza a obsessão de uma família de classe média carioca por aparentar riqueza e nobreza, escondendo parentes de origem humilde e endividando-se para sustentar um padrão de vida que não pode pagar.

Assim como Lusbela, é uma peça de Macedo escrita sob influência da comédia realista francesa, contrastando com a vertente mais fantasiosa ou burlesca de boa parte de sua obra dramática. Apesar de ter sido um dos maiores sucessos de público do autor, para Machado de Assis, a peça representava um "regresso" em relação ao vigor dramático de peças anteriores de Macedo, como O Cego e Cobé.

Enredo A peça se passa na casa de Maurício, empregado público, e sua mulher Hortênsia, que vivem em luxo muito acima de suas posses para ostentar posição na alta sociedade do Rio de Janeiro, mantendo até uma preceptora inglesa (Fanny) e um criado francês (Petit) para a filha do casal, Leonina. O casal esconde da própria filha, e da sociedade que frequenta, que Maurício tem um irmão, Felisberto, um respeitável mestre marceneiro, de quem não recebem visitas há anos por vergonha de sua profissão.

A ação se desencadeia com a chegada de Anastácio, irmão mais velho de Maurício e rico fazendeiro de Minas Gerais, que retorna à corte após dezoito anos de ausência. Homem austero e avesso a fingimentos, Anastácio revela a Leonina que seu tio é marceneiro e seu primo Henrique, de quem ela um dia gostara, é pintor, informação que a envergonha profundamente diante da alta sociedade fictícia que os cerca. Ao longo da peça, Anastácio confronta repetidamente o irmão e a cunhada com a insensatez de seus gastos, revelando aos poucos que a família está à beira da ruína. Maurício contraiu dívidas enormes e, em desespero, chegou a vender ilegalmente escravos que tinha dado como garantia hipotecária, crime que o expõe à prisão por estelionato.

Para escapar da falência, Hortênsia pressiona Leonina a aceitar o pedido de casamento do rico Comendador Pereira, apesar de a moça ainda nutrir sentimentos por seu primo Henrique. Paralelamente, Dona Fabiana, uma antiga pretendente rejeitada por Maurício décadas antes, trama, com sua filha Filipa e o libertino Frederico, um plano para raptar e desonrar Leonina durante um baile de máscaras oferecido pela família, tanto por vingança pessoal quanto por interesse na herança de Anastácio. Henrique descobre a conspiração e, em aliança com o tio, consegue frustrar o rapto no momento em que ele seria consumado, desmascarando os culpados. No mesmo baile, Anastácio, disfarçado de dominó negro, revela a cada convidado, por trás de sua "máscara" social, o vício que verdadeiramente o define. No ato final, com a ruína financeira consumada e a família abandonada pelos falsos amigos que antes a cercavam, Maurício tenta o suicídio, envenenando-se, mas é impedido a tempo por Anastácio.

Personagens Maurício: empregado público. Anastácio: irmão de Maurício e Felisberto, fazendeiro. Felisberto: irmão de Maurício e Anastácio, marceneiro. Henrique: filho de Felisberto, pintor. Reinaldo: coronel. Comendador Pereira Frederico Petit: criado francês Hortênsia: mulher de Maurício. Leonina: filha de Hortênsia. Fabiana Filipa: filha de Fabiana. Lúcia: filha de Reinaldo. Fanny: inglesa, mestra de Leonina.

Análise Luxo e Vaidade obteve grande sucesso de público em sua estreia, segundo relata Machado de Assis. A peça foi representada por longo tempo no Ginásio do Rio e levada a teatros de província, "onde o vate fluminense encontrou um eco simpático e unânime". Machado, contudo, acreditava que o "bom caminho" da dramaturgia de Macedo não era o de peças como Luxo e Vaidade e Lusbela, mas sim o de O Cego e Cobé, peças que considerava de maior vigor e originalidade dramática, apesar de terem tido menor aplauso do público em sua época.

O pesquisador João Roberto Gomes de Faria identifica Luxo e Vaidade, assim como Lusbela, como as únicas duas peças de Macedo compostas sob influência da comédia realista francesa, distinguindo-as do restante de sua produção dramática, mais ligada a gêneros como o drama histórico, a ópera cômica ou a comédia burlesca. Já Vilma Arêas situa Luxo e Vaidade no conjunto da comédia de costumes de Macedo, observando que a peça retrata com precisão a camada social dos funcionários públicos, como o próprio Maurício, e o vocabulário de classe da época, citando o comentário do próprio Anastácio sobre os "insolentes" caixeiros que cobram as dívidas da família na cena final.

Arêas também recupera uma observação do crítico e prefaciador Márcio Jabur Yunes sobre o tratamento dado por Macedo aos dois criados estrangeiros da peça, Fanny e Petit: transformados em figuras cômicas ridículas a serviço de uma família brasileira, eles seriam a "vingança" do dramaturgo contra o fascínio excessivo no Brasil dos anos 1860 pelas modas e costumes europeus, um recurso que, segundo Yunes, Macedo já havia empregado com os falsos ingleses de A Torre em Concurso. Yunes observa ainda um detalhe significativo do ponto de vista ideológico: nas salas de Macedo não há escravizados, e sim criados europeus, de modo que a crítica de costumes da peça, voltada contra a imitação servil dos modos estrangeiros, acaba por deixar intocada a própria instituição escravista que sustentava materialmente aquela mesma sociedade, cuja presença é mencionada na peça apenas indiretamente, na referência à venda ilegal de escravos hipotecados por Maurício.YUNES, Márcio Jabur. Introdução ao teatro de Joaquim Manuel de Macedo. In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Brasília: MEC/Fundação Nacional de Arte/Serviço Nacional de Teatro, 1979. t. 1. apud

Categoria:Obras de Joaquim Manuel de Macedo Categoria:Peças de teatro do Brasil Categoria:Peças de teatro da década de 1860