A evolução estrutural da arquitetura gótica refere-se ao conjunto de inovações construtivas, geométricas e mecânicas desenvolvidas na Europa ocidental entre os séculos XII e XVI, que transformaram radicalmente a conceção do espaço e do suporte arquitetónico. A arquitetura gótica é conhecida, sobretudo, por estar associada às grandes catedrais e a outros estabelecimentos eclesiásticos construídos a partir do início do período medieval, época em que exerceu grande influência por toda a Europa. Durante o período gótico — séculos XII a XV —, o poder religioso procurou traduzir a sua importância nas estruturas de igrejas, catedrais e abadias através de uma grandiosidade dimensional traduzida pela verticalidade característica desta arquitetura.Historianet, site. Estilo gótico encontrado frequentemente nas catedrais EDUCATERRA, site. Documento textual informativo sobre a Arte GóticaLMC, site. Sistema Estrutural das Catedrais Góticas

A arquitetura gótica representa uma transformação do edifício românico, marcada por maior rigor no traçado. Completa-se com a integração espacial e formal dos diferentes espaços e com a perda da independência que antes caracterizava as partes da igreja românica. A verticalidade passa a dominar todo o edifício, a nave torna-se mais curta e o cruzeiro tende a deslocar-se para a posição central no eixo longitudinal. O coro é ampliado, com um deambulatório contínuo (corredor em volta do altar-mor) e de um anel de capelas radiantes; explora-se a abóbada de cruzaria e o arco ogival aprimorado, com integração geométrica dos elementos da planta, e o exterior perde todo o caráter maciço.

De um modo geral, a fachada das estruturas góticas procura a verticalidade e a leveza, enquanto o interior se converte num ambiente iluminado com vitrais.Spectrum, site. A Arquitetura gótica: abóbada, suporte, contraforte Como afirma Erwin Panofsky, "é pouco provável que os arquitetos do gótico tenham lido Gilberto de la Porrèe ou Tomás de Aquino no original. Mas entraram em contato com o ideário escolástico por inúmeros outros, sem perceber que, por força de sua atividade, tinham de trabalhar com quem esboçava os programas litúrgicos e iconográficos. Haviam frequentado a escola, tinham ouvido sermões e podiam acompanhar as disputationes de quolibet que tratavam de todas as questões imagináveis da atualidade e que se haviam transformado em eventos sociais, comparáveis a nossas óperas, concertos e conferências públicas."Panofsky, E. Arquitetura gótica e escolástica: sobre a analogia entre arte, filosofia e teologia na Idade Média. Trad. Wolfe Höernke. São Paulo: Martins Fontes, 1991

Motivação

Os séculos XI a XIII trouxeram um crescimento populacional e uma prosperidade sem precedentes ao norte da Europa, particularmente às grandes cidades e, sobretudo, às cidades situadas nas rotas comerciais. As antigas catedrais românicas eram demasiado pequenas para a população, e os dirigentes das cidades queriam símbolos visíveis da sua nova riqueza e prestígio. Os frequentes incêndios nas antigas catedrais constituíam também uma razão para a construção de um novo edifício, como aconteceu com a Catedral de Chartres, a Catedral de Ruão, a Catedral de Bourges e numerosas outras.

Financiamento miniatura|200px|direita|Um vitral da Catedral de Bourges que representa carpinteiros, tanoeiros e construtores de rodas (painéis inferiores), provavelmente os seus patrocinadores

Os bispos, como Maurice de Sully de Notre-Dame de Paris, contribuíam geralmente com uma quantia substancial. Os paroquianos abastados eram convidados a doar uma percentagem dos seus rendimentos ou do seu património em troca do direito de serem sepultados sob o pavimento da catedral. Em 1263, o papa Urbano IV ofereceu indulgências papais, ou a remissão dos efeitos temporais do pecado durante um ano, aos doadores abastados que fizessem grandes contribuições. Para os membros menos abastados da Igreja, eram bem-vindas contribuições em espécie, como alguns dias de trabalho, a utilização dos seus bois para o transporte ou doações de materiais. As sagradas relíquias dos santos conservadas pelas catedrais eram expostas para atrair peregrinos, que eram também convidados a fazer doações. Por vezes, as relíquias eram levadas em procissão para outras cidades para angariar dinheiro.

As guildas das várias profissões da cidade, como os padeiros, os peleiros e os drapeiros, faziam frequentemente doações e, em troca, pequenos painéis dos vitrais das janelas da nova catedral representavam as suas atividades.

Planta thumb|Esquema de uma catedral gótica

Os mestres-pedreiros faziam geralmente primeiro um modelo do edifício, de papier-mâché, madeira, gesso ou pedra, para o apresentar ao bispo e aos cónegos. As plantas de determinadas partes eram por vezes desenhadas ou inscritas à escala real no pavimento da cripta ou noutra parte do estaleiro, onde podiam ser facilmente consultadas. As plantas originais da Catedral de Praga foram redescobertas no século XIX e utilizadas para concluir o edifício.

A planta da catedral gótica baseia-se no modelo da antiga basílica romana — simultaneamente mercado público e tribunal —, que servira já de base à planta da catedral românica. A catedral tem a forma de uma cruz latina. A entrada situa-se tradicionalmente no extremo oeste, possui três portais decorados com escultura, conta geralmente com uma rosácea e é ladeada por duas torres. A nave longa, onde a congregação assistia às cerimónias, ocupa o extremo oeste e é normalmente separada das naves laterais por fileiras de pilares que sustentam o telhado. Estes pilares apresentam, por vezes, arcos torais que se prolongam nos colunelos, interrompidos em altura por mísulas, criando um ritmo periódico modular. Entre os contrafortes encontram-se, normalmente, pequenas capelas que reforçam o apoio das paredes.

A catedral apresenta geralmente um transepto, que cruza a nave sensivelmente a meio; por vezes projeta-se a alguma distância para fora do corpo do edifício, noutros casos — como em Notre-Dame — é mínimo. O cruzeiro, ponto de cruzamento do transepto com a nave, constitui o centro da igreja e é delimitado por pilares particularmente maciços, que por vezes sustentam uma torre-lanterna destinada a iluminar o centro da catedral. As fachadas norte e sul do transepto apresentam, com frequência, rosáceas, como na Notre-Dame de Paris.

A leste do transepto situa-se o coro — onde se encontra o altar —, espaço reservado às cerimónias e ao clero. Este espaço cresceu consideravelmente no século XII, à medida que as cerimónias se tornavam mais elaboradas. Entendendo-se que o espaço gótico não é meramente um volume fechado a ser definido geometricamente, mas sim uma função da luz e transfigurado por ela, o fôlego vertical e horizontal destas estruturas expandiu-se. Atrás do coro estende-se uma passagem, simples ou dupla, designada deambulatório. No extremo leste da igreja situa-se a abside, geralmente semicircular, onde se localiza a cabeceira. É frequente encontrar aí uma capela dedicada à Virgem Maria, por vezes de grandes dimensões, e em torno della cabeceira costumam dispor-se várias capelas menores. Neste arranjo, as janelas de vitrais multicoloridos e luminescentes funcionam como uma ilustração do pensamento religioso, sendo comparadas às pedras preciosas que incrustavam as paredes da Nova Jerusalém, ao passo que as numerosas torres e pináculos evocam estruturas semelhantes surgidas nas visões de São João.

As primeiras catedrais góticas apresentavam uma elevação de quatro níveis — arcadas, tribunas, trifório e janelas superiores —, sistema que escorava a nave central até a difusão dos arcobotantes tornar as tribunas obsoletas. No piso térreo, duas fileiras de grandes arcadas, sustentadas por pilares de grande dimensão, recebiam o peso do teto abobadado. Acima destas situavam-se as tribunas, formadas por uma sucessão de aberturas em arco que reforçavam o apoio; mais acima ainda, o trifório, composto por pequenos arcos. No nível superior, próximo das abóbadas, abriam-se as janelas altas, principal fonte de luz das catedrais — raramente a nave central possui clerestório, e quando este existe as aberturas são tão pequenas que mais se assemelham a frestas. As paredes inferiores eram apoiadas por contrafortes maciços, erguidos externamente e encimados por pináculos cujo peso reforçava a estabilidade do conjunto. Esta engrenagem técnica consolidou a abordagem estrutural defendida por Eugène Viollet-le-Duc, sustentando que nenhuma forma arquitetónica gótica resulta de caprichos, mas sim de um sistema dinâmico e elástico capaz de transferir o impulso das abóbadas de ogivas para pontos específicos de suporte através de forças opostas e pressões verticais calculadas.

Com o desenvolvimento posterior do arcobotante, os suportes afastaram-se das paredes, que puderam então ser construídas muito mais altas. As tribunas e o trifório foram desaparecendo gradualmente, e os espaços acima das arcadas passaram a ser ocupados quase inteiramente por vitrais, ditando uma progressiva eliminação da superfície mural em prol de uma efetiva dematerialização da parede, um dos aspetos mais típicos da arquitetónica gótica para Viollet-le-Duc, Max Dvořák, Aubert e Focillon.

O braço oriental da catedral apresenta uma diversidade considerável de soluções. Na Inglaterra, é geralmente longo e pode integrar duas secções distintas — coro e presbitério —, sendo muitas vezes de planta quadrada ou dotado de uma Lady Chapel proeminente, capela dedicada à Virgem Maria. Em França, o extremo leste é frequentemente poligonal, rodeado por um corredor de circulação — o deambulatório — e, por vezes, por um anel de capelas designadas "absidíolos".

A tipologia destas plantas varia ainda quanto ao remate das capelas, distinguindo-se entre modelos de cabeceira reta (como nos exemplos de Le Thoret, Silvacane e Sénanque) e modelos de cabeceira poligonal. Numa segunda variante, a nave central remata em capela absidal, dotada de girola e capelas radiantes — modelo observável em Claraval III, Poblet e Veruela (em Espanha), bem como no Mosteiro de Alcobaça (em Portugal), cuja conceção original constitui um espelho direto de Claraval III. Nestas configurações, embora subsistissem abóbadas de aresta, o arco toral assumia expressão muito mais acentuada do que os restantes, gerando uma sensação de maior instabilidade estrutural por comparação com as abóbadas de berço.

As igrejas alemãs assemelham-se, em geral, às francesas; já em Itália, a projeção oriental para além do transepto reduz-se normalmente a uma capela absidal com o santuário, como sucede na Catedral de Florença.

Outra característica do estilo gótico, tanto doméstico como eclesiástico, é a divisão do espaço interior em células individuais. À medida que viajam ao longo de paredes ou pilares, as nervuras de abóbadas oblongas, quadradas ou trapezoidais delineiam de forma conspícua essas porções distintas de espaço, as quais se encontram independentes de a estrutura possuir ou não teto abobadado. Estas células espaciais, por sua vez, são justapostas longitudinalmente de maneira transversa, oblíqua ou semicircular, chegando mesmo a intersectar-se diretamente sobre o eixo central da nave. Este sistema de células de tamanho e forma variados, que não tem precedente na Antiguidade nem no início da Idade Média, teve a sua natureza matemática e geométrica sublinhada por Paul Frankl, que descreveu este layout como "criação por divisão", em oposição à "criação por adição" característica do românico. Em contrapartida, Viollet-le-Duc, August Schmarsow e Wilhelm Pinder concordam com o termo "arquitetura articulada".