Francisco Corrêa Vasques (Rio de Janeiro, 29 de abril de 1839 — Rio de Janeiro, 1892) foi um ator e dramaturgo brasileiro, considerado um dos mais populares autores e atores cômicos do teatro carioca do século XIX. Autor de mais de sessenta peças teatrais, a maior parte no gênero das cenas cômicas, tornou-se célebre sobretudo pela paródia musicada Orfeu na Roça (1868), que superou as quatrocentas representações e ultrapassou em popularidade a própria obra que parodiava, Orfeu no Inferno, de Jacques Offenbach.

De origem modesta e mestiço, Vasques também atuou como cronista e folhetinista, foi abolicionista e figura das rodas boêmias do Rio de Janeiro oitocentistaDE SOUZA, Silvia Cristina Martins. Cá estou outra vez em cena: diálogos políticos nas ’Scenas Comicas’ de Francisco Correa Vasques. Sæculum - Revista de História, [S. l.], n. 12, 2005. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/srh/article/view/11315. Acesso em: 29 jul. 2026., além de amigo pessoal do imperador Dom Pedro II. Apesar do enorme sucesso de público, sua dramaturgia foi frequentemente desprezada pela crítica letrada da época, que o via apenas como ator cômico, o que contribuiu para o relativo esquecimento de sua obra escrita.

Vida e carreira Nasceu no Rio de Janeiro em 29 de abril de 1839, filho natural de Benedita Correa Vasques, numa família humilde e de pouco acesso à educação formal, como era comum entre os livres pobres na sociedade escravista do período. Concluiu o curso elementar no Colégio Marinho em 1851 e, ainda jovem, trabalhou na Alfândega do Rio de Janeiro e serviu na Guarda Nacional. Seu irmão mais velho, Martinho Corrêa Vasques, já atuava como ator cômico na companhia teatral de João Caetano, o que teria despertado seu interesse pelo palco.

Vasques estreou como ator aos quinze anos, em 1854, na comédia Morrer pra ter Dinheiro, e em 1857 já integrava a companhia de João Caetano. Como dramaturgo, estreou em 1858 com a cena cômica O Sr. José Maria Assombrado pelo Mágico, a que se seguiram O Beberrão (1859) e O Sr. Joaquim da Costa Brasil (1860). Entre 1859 e 1867, esteve ligado ao Teatro Ginásio Dramático, onde escreveu e encenou cerca de trinta cenas cômicas, entre elas As Pitadas do Velho Cosme, obra que, apesar do sucesso de bilheteria, foi recebida com reservas pela crítica e pela censura teatral do Conservatório Dramático Brasileiro, que classificava o gênero como dramaturgia "menor" frente ao teatro realista então em voga. Deixou a companhia do Ginásio em 1867 em meio a um desentendimento com o empresário Furtado Coelho, que o acusou publicamente de faltar a compromissos, acusação a que Vasques respondeu atribuindo o conflito a uma tentativa do empresário de reduzir seu salário.

Chegou a formar companhia teatral própria, que funcionou por três anos no Teatro Fênix Dramática. Foi nesse teatro que, em 31 de outubro de 1868, estreou sua obra mais célebre, Orfeu na Roça, paródia de Orphée aux enfers, de Offenbach, que alcançara sucesso no Rio em encenação francesa em 1865; a versão de Vasques atingiu a décima quarta apresentação em poucas semanas e eventualmente superou as quatrocentas representações, tornando-se um marco do teatro musicado popular no Brasil.

Entre 18 de outubro de 1883 e 17 de julho de 1884, assinou a série de folhetins Scenas Comicas no periódico Gazeta da Tarde, a convite do seu proprietário, José do Patrocínio. Ao longo de 22 textos, tratou com humor de temas do cotidiano carioca, como o carnaval, falta d'água e o calor no verão, mas também de questões políticas, como a articulação da "classe teatral" em torno de associações de socorro mútuo e a crítica à Lei Saraiva, que restringia o direito de voto dos analfabetos e dos pobres, entre os quais o próprio Vasques se incluía.

Ao longo da carreira, Vasques dedicou-se simultaneamente à atuação e à dramaturgia, escrevendo e encenando ao todo 62 peças teatrais, publicadas em fascículos baratos, ao modo da literatura de cordel, vendidos a 500 réis. Suas cenas cômicas eram, em geral, monólogos ou peças de ato único em prosa e verso, recheados de música e apoiados em recursos de paródia e sátira, tratando de temas do cotidiano carioca, em especial da própria vida teatral da cidade, com forte teor crítico e político, ainda que sob a forma do riso. Recebeu também o título de cavaleiro da Ordem de Cristo, de Portugal. Descrito como mestiço e de origem humilde, foi identificado por historiadores do teatro como abolicionista e frequentador das rodas boêmias cariocas da segunda metade do século XIX. Apesar da desconfiança da crítica ilustrada, que reconhecia apenas seu talento como ator cômico, Vasques granjeou grande prestígio popular e a amizade pessoal de Dom Pedro II, admirador de suas peças.

Faleceu no Rio de Janeiro em 1892, vítima de câncer, após cerca de 35 anos de carreira nos palcos.

Obras O Sr. José Maria Assombrado pelo Mágico (1858) O Beberrão (1859) O Sr. Joaquim da Costa Brasil (1860) As Pitadas do Velho Cosme (1861) Um dos Tais (1861) Um Ator sem Teatro (1861) Um Bilhete! Um Bilhete! Para o Benefício do Graça (1862) Viva o Circo Grande Oceano (1862) A Questão Anglo-Brasileira (1862) O Graça e o Vasques (1862) O Sr. Anselmo Apaixonado pelo Alcazar (1863) D. Rosa Assistindo a um Espetáculo Extraordinário (1863) Por Causa da Emília das Neves (1863) A Órfã (1864) O Sr. Domingos Fora do Sério (1864) Joaquim Sacristão (1864) O Ginásio de Roupa Nova (1864) Os Namorados da Júlia (1864) O Diabo no Rio de Janeiro (1864) Vasques pelos Ares (1864) O Menino Mondar (1865) Os Dois Infernos (1865) Mais um Copólogo (1865) O Brasil Esmagando o Paraguai (1865)Cena cômica sobre a Guerra do Paraguai, criticada pela imprensa por sua "qualidade duvidosa" Quero Casar minha Sobrinha (1865) Rocambole no Rio de Janeiro (1868) Orfeu na Roça (1868)Paródia da opereta Orphée aux enfers, de Jacques Offenbach; maior sucesso do autor. O Zé Pereira Carnavalesco (1869) O Fim do Ano por um Vendedor de Vigésimos (1869) Orfeu na Cidade (1870) A Honra de um Taverneiro (1873) Variações de Flauta (1874) Lágrimas de Maria (1875) O Selo da Roda (1878) Dá Cá Tabaco Compadre (1881) Amor em Liquidação (1882) A Volta do Mundo em Oitenta Dias a Pé (1886) D. Rosa Assistindo no Alcazar (1889) Imperador e República (1890) Legalidade e Ditadura (1892)

Obras sem data O Advogado dos Caixeiros Aguente-se no Balanço Ah! Como eu sou Besta Aí! Cara Dura! Os Capoeiras Diabruras do Souto Os Estranguladores Faustina A Filha de um Condenado Geralda, Geraldina Rainha Crinoline O Vasques em Maxambomba

Ver também Teatro do Brasil

Referências

Categoria:Nascidos em 1839 Categoria:Mortos em 1892 Categoria:Dramaturgos do Brasil Categoria:Naturais da cidade do Rio de Janeiro Categoria:Escritores afro-brasileiros