Leonor de Mendonça é uma peça de teatro em três atos e cinco quadros escrita por Gonçalves Dias em 1846. Publicada em 1847 pela Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro, foi a única peça do autor publicada ainda em vida.CHIARI, Gisele Gemmi. A estética romântica no teatro de Gonçalves Dias: Leonor de Mendonça. 2015. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. É considerada por parte da crítica a obra dramática mais bem realizada de Gonçalves Dias.GUIMARÃES, Jéssica de Oliveira. Conceitos schillerianos presentes na obra Beatriz Cenci de Gonçalves Dias. Opiniães, São Paulo, n. 15, p. 191-212, 2019.
A peça baseia-se livremente em um episódio ocorrido em 1512, em Vila Viçosa, quando Jaime I, Duque de Bragança, teria matado a própria esposa, Leonor de Mendonça, sob suspeita de adultério, ainda que não tenha havido, da parte dela, traição consumada, e tampouco amor, da parte dele.ABRANCHES, Suzana Regina Camillo de. Teatro e poder na corte do Brasil Império. Anais do Encontro Regional de História da ANPUH-RJ. Rio de Janeiro: ANPUH-RJ, 2018. Gonçalves Dias escreveu a peça pensando no ator João Caetano, astro do teatro romântico brasileiro da época, que no entanto recusou o papel. O drama só viria a ser encenado no século XX, primeiro no Rio de Janeiro pelo Teatro do Estudante do Brasil, sob direção de Esther Leão, e depois em São Paulo, em 1954, pelo Teatro Brasileiro de Comédia.
Enredo Leonor de Mendonça, casada por conveniência com D. Jaime, Duque de Bragança, vive um casamento sem amor em Vila Viçosa, onde o casal se encontra isolado da corte. Sua única companhia é a camareira Paula, que lhe serve de confidente. Antônio Alcoforado, jovem dedicado à casa ducal e filho do velho Afonso Pires Alcoforado, criado fiel do duque, nutre por Leonor um amor que não ousa declarar abertamente, mas que o leva a pequenos gestos de devoção e serviço.
Uma cadeia de mal-entendidos e sinais ambíguos de gratidão entre a duquesa e o rapaz desperta no duque, homem orgulhoso e desconfiado, a suspeita de que é traído. Sem provas concretas, e apesar do testemunho que garantiria a inocência de Leonor, D. Jaime deixa-se dominar pelo ciúme e pela desconfiança, precipitando o desfecho trágico: mata Alcoforado e, em seguida, a própria esposa, sem que jamais se esclareça, para o leitor ou espectador, se de fato houve traição.
Personagens D. Jaime: Duque de Bragança, marido de Leonor. Leonor de Mendonça: Duquesa de Bragança, protagonista. Antônio Alcoforado: jovem da casa ducal, apaixonado por Leonor. Afonso Pires Alcoforado, o velho: pai de Antônio, criado fiel do duque. Paula: camareira e confidente de Leonor. Fernão Velho: criado do duque.
Análise Gisele Gemmi Chiari destaca que Leonor de Mendonça é precedida por um extenso e importante prólogo, no qual Gonçalves Dias discute os fundamentos da estética romântica e dialoga repetidamente com o prefácio de Cromwell, de Victor Hugo, texto fundamental para o teatro romântico europeu. Segundo a pesquisadora, a peça combina essa filiação ao romantismo hugoano com a permanência de traços da tragédia neoclássica, sobretudo no equilíbrio, na proporção e na linguagem elevada dos diálogos, resultando em uma obra que se distingue dos demais dramas e tragédias brasileiros coetâneos pela singularidade com que trata a história da duquesa de Bragança.
Chiari também retoma a leitura do crítico teatral Ruggero Jacobbi, para quem Leonor de Mendonça incorpora um bironismo de temática neoelisabetana, entre o místico e o sádico, dentro de uma técnica dramática ainda "clássica e aristotélica". A partir dessa observação, a autora identifica na peça o aproveitamento de recursos da literatura gótica, como a exploração do processo mental interior do herói transgressor em detrimento da ação exterior, postos a serviço da efetividade dramática da obra, com singularidade em relação ao uso desses paradigmas por autores europeus.CHIARI, Gisele Gemmi. O diálogo com a literatura gótica em Leonor de Mendonça de Gonçalves Dias. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC, 14., 2015, Belém. Anais [...]. Belém: ABRALIC, 2015.
A peça também é vista pela crítica como uma primeira aproximação, no teatro brasileiro, do tema shakespeariano da dúvida e do ciúme conjugal explorado em Otelo, então conhecido no Brasil sobretudo pela adaptação de Jean-François Ducis, que João Caetano tornara popular nos palcos cariocas. Décio de Almeida Prado chegou a considerar Leonor de Mendonça "o mais belo drama romântico brasileiro", enquanto Sábato Magaldi a apontou como a melhor peça de Gonçalves Dias, cujo "instrumento teatral está afiado" e cujo "gênio poético supre com a inspiração a falta de domínio cênico". A peça foi proibida de encenação pelo Conservatório Dramático Brasileiro na década de 1840, junto com Beatriz Cenci.
Referências
Categoria:Peças de teatro do Brasil Categoria:Gonçalves Dias