San Juan de la Paz foi uma cidade colonial espanhola de existência efémera, fundada por Sebastián Díaz de Alfaro em finais de 1584, nas margens do rio Tuy, na Província da Venezuela. A localização exacta não foi estabelecida, sendo normalmente situada quatro léguas a jusante da confluência do Tuy com o rio Guaire, provavelmente nas proximidades da actual Aragüita, no estado Miranda..

A povoação foi estabelecida durante uma entrada destinada à ocupação colonial dos territórios habitados por quiriquires, tomusas e grupos denominados como aruacos nas fontes. O seu primeiro desenvolvimento ficou associado às minas de ouro de Apa e Carapa, mas a cidade foi rapidamente abandonada. Oviedo y Baños afirmou que ficou completamente despovoada antes de decorridos dois anos, embora estudos modernos situem a exploração das minas até 1587.. Os seus termos jurisdicionais foram posteriormente integrados nos de San Sebastián de los Reyes, fundada pela mesma expedição no início de 1585..

Contexto

Quando Luís de Rojas y Mendoza assumiu o governo da Província da Venezuela, em 1584, as autoridades coloniais procuravam consolidar o domínio espanhol a sul e a leste de Santiago de León de Caracas. O historiador Pablo Ojer enquadrou a empresa de San Juan de la Paz nas operações destinadas a assegurar o vale do Tuy, as imediações da lagoa de Tacarigua e as comunicações entre Caracas e o oriente da província..

As regiões atravessadas pela expedição eram habitadas por comunidades designadas nas fontes espanholas como quiriquires, tomusas e aruacas ou arbacas. O emprego documental de verbos como «pacificar» fazia parte da linguagem administrativa da conquista, abrangendo a submissão das populações indígenas, a ocupação dos seus territórios e a instalação de assentamentos de espanhóis.. Ojer atribui a Díaz de Alfaro uma comissão para actuar contra quiriquires e tomusas pelo vale do Tuy até à lagoa de Tacarigua, observando que a informação de méritos posterior estendeu a empresa também aos aruacos.

Capitulação e preparação da expedição

Em 21 de Abril de 1584, Luís de Rojas celebrou uma capitulação com Sebastián Díaz de Alfaro para a conquista e o povoamento da região. Segundo a documentação extractada por Vicente Dávila, o governador nomeou-o capitão e autorizou-o a entrar, com a gente espanhola que conseguisse reunir, nas províncias dos quiriquires, arbacos ou aruacos e tomusas, situadas a cerca de trinta léguas de Caracas, devendo estabelecer uma ou duas povoações.. Castillo Lara afirma que, depois da capitulação, Díaz de Alfaro levantou bandeira e mandou apregoar a jornada em Caracas.

As fontes divergem quanto à dimensão do contingente espanhol. Castillo Lara calcula sessenta e cinco soldados, enquanto Oviedo y Baños menciona cerca de oitenta pessoas. Díaz de Alfaro mobilizou igualmente numerosos indígenas procedentes das suas encomiendas e das de pessoas próximas, empregando-os como combatentes, carregadores e servidores. As fontes consultadas não individualizam estes participantes nem permitem calcular o seu número.

Oviedo y Baños inclui entre os expedicionários Mateo Díaz de Alfaro, filho do capitão; Melchor de San Juan; Juan Fernández de Trujillo; Mateo de Laya; Melchor de León; Hernando Gómez; Alonso García Pineda; Diego de Ledesma; Juan Rodríguez Espejo; Bartolomé Sánchez; Frutos Díaz; Gaspar Hernández; Cristóbal Suárez; Vicente Galeas e Cristóbal Quintero. Como capelão seguia Alonso López de San Martín, clérigo natural de Badajoz.

Castillo Lara atribui aos preparativos uma duração de cerca de seis meses e um custo próximo de cinco mil ducados, incluindo armas, munições, cavalos, equipamento, dinheiro e pagamento de dívidas de alguns soldados. Numa petição de méritos apresentada em 1603, o próprio Díaz de Alfaro afirmou ter despendido mais de três mil pesos de ouro fino na conquista e no povoamento de San Juan de la Paz e San Sebastián de los Reyes, sustentando armas, cavalos, munições e soldados.. Por provirem, directa ou indirectamente, de documentação destinada a obter mercês da Coroa, estes montantes demonstram a existência da alegação de financiamento pessoal, mas não constituem contas auditadas da empresa.

Percurso e fundação

Depois de sair de Caracas, a expedição reuniu-se nas Sabanetas de Ocumare. Castillo Lara fixa a partida desse local em 17 de Outubro de 1584, afirmando que a fundação de San Juan de la Paz ocorreu cerca de um mês depois, sem que seja conhecida a data exacta. O mesmo autor coloca o assentamento em território tomusa, nas margens do Tuy, quatro léguas abaixo da união com o Guaire, provavelmente perto da actual Aragüita. Oviedo y Baños oferece a mesma referência topográfica, relatando que os quiriquires receberam a expedição sem resistência armada imediata. Segundo a interpretação do cronista, o nome San Juan de la Paz pretendia perpetuar a memória de uma fundação realizada sem que Díaz de Alfaro tivesse de desembainhar a espada.

A descrição mais desenvolvida da cerimónia procede de um traslado documental publicado por Dávila. Segundo esse texto, Díaz de Alfaro mandou erguer uma picota, proclamou a fundação em nome de Deus e do rei, tomou posse com a espada desembainhada e perguntou se alguém se opunha ao novo assentamento, seguindo-se a aclamação do monarca pelos presentes.. Outro traslado relativo aos serviços de Mateo Díaz de Alfaro afirma que a cidade recebeu igreja, alcaldes, regidores e trinta vizinhos..

Localização

A referência geográfica mais repetida é a de Oviedo y Baños: quatro léguas abaixo da confluência do Guaire com o Tuy. Castillo Lara adopta essa localização e propõe, com reserva, as proximidades de Aragüita.

A localização das minas associadas ao assentamento oferece uma segunda aproximação. Pedro Cunill Grau situa Apa e Carapa na Serrania do Interior, nos cursos superiores dos rios homónimos, afluentes do Tuy, em território actualmente integrado no Parque Nacional Guatopo. A localização mineira não determina, por si só, o ponto exacto onde se ergueram as casas, a igreja e a praça da cidade.

No século XIX, Arístides Rojas identificou directamente o lugar de San Juan de la Paz com Aragüita, procurando estabelecer uma continuidade entre a cidade quinhentista e povoações posteriores da região.. A historiografia posterior tem sido mais prudente, empregando fórmulas como «possivelmente nas cercanias» de Aragüita.

Organização e território

A instalação de uma igreja, de alcaldes e de regidores indica que San Juan de la Paz foi concebida como cidade de espanhóis dotada de governo municipal, e não apenas como acampamento de passagem. Díaz de Alfaro deixou na cidade os vizinhos que considerou necessários à sua conservação, prosseguindo com o restante contingente através da serrania, em direcção aos Lhanos.. Um traslado publicado por Dávila afirma que seguiu com quarenta soldados e fundou San Sebastián de los Reyes, onde reuniu mais de trinta e cinco vizinhos encomenderos e mais de vinte sem encomienda. A fundação formal de San Sebastián é datada por Castillo Lara de 6 de Janeiro de 1585..

As duas cidades terão coexistido por um período curto. Depois do desaparecimento de San Juan de la Paz, os seus termos foram absorvidos pela jurisdição de San Sebastián de los Reyes. Izaskun Landa considera que a jurisdição desta última incorporou os termos da povoação desaparecida, tornando-se uma das bases da organização territorial da faixa centro-oriental da Província da Venezuela.

Populações indígenas e ocupação colonial

A narrativa colonial apresenta a entrada como empresa de «pacificação» e povoamento. As próprias fontes, porém, mostram que a instalação espanhola dependeu da mobilização de indígenas das encomiendas de Díaz de Alfaro e de outros colonos, utilizados em funções militares, de transporte e de serviço. A fundação fazia parte do processo de ocupação de territórios indígenas, reorganização do povoamento e criação de jurisdições espanholas na região do Tuy e nas vertentes da Serrania do Interior..

Oviedo y Baños afirma que os caciques quiriquires receberam os espanhóis com demonstrações pacíficas e que a cidade foi fundada sem combate imediato. Fontes posteriores registam, no entanto, levantamentos de tomusas e outros grupos indígenas, assim como a destruição de estâncias e o abandono de encomiendas na área mais ampla ligada a San Sebastián e San Juan..

Minas de Apa e Carapa

O desenvolvimento inicial da cidade esteve estreitamente associado às minas de Apa e Carapa. Oviedo y Baños afirma que, durante os dois primeiros meses de exploração, delas foram retirados quarenta mil castelhanos de ouro de vinte e três quilates. Esta cifra foi depois reproduzida por autores modernos a partir do cronista.

Cunill Grau identifica os jazigos com as chamadas minas de San Lázaro, situando a sua exploração entre 1585 e 1587. Segundo o autor, ficavam nos altos cursos dos rios Apa e Carapa, no actual Parque Nacional Guatopo, sendo abandonadas devido às chuvas intensas e à insalubridade atribuída ao lugar. A petição de méritos de Díaz de Alfaro também lhe atribuiu a descoberta de minas de ouro, afirmando que a produção aumentara os quintos reais, embora a declaração integrasse um processo promovido pelo próprio interessado em obter recompensas..

O desaparecimento da cidade não extinguiu o interesse pelas jazidas. Oviedo y Baños relata que o governador Sancho de Alquiza tentou reactivar a exploração em 1606, sem conseguir superar os mesmos problemas ambientais apontados para o abandono inicial.. Em 9 de Julho de 1616, o cabildo de Caracas determinou que as minas de Apa e Carapa fossem povoadas e beneficiadas, enviando para essa diligência o sargento-mor Gaspar de Silva.. Segundo o mesmo cronista, novas buscas foram feitas ao longo do século XVII. Em 1698, durante o governo de Francisco de Berrotarán, teriam sido encontradas casas e outros vestígios do período de exploração, mas conflitos judiciais sobre a posse das terras acabaram por impedir a instalação regular dos trabalhos mineiros.

Despovoamento

Oviedo y Baños atribuiu o abandono à humidade do terreno, à pouca circulação de ar causada pelas montanhas circundantes, às chuvas frequentes e ao carácter considerado insalubre do clima. Segundo o seu relato, os moradores preferiram abandonar as vantagens económicas da mineração e a cidade ficou totalmente despovoada antes de completar dois anos.

Castillo Lara limita-se a caracterizar a povoação como efémera, afirmando que desapareceu pouco depois da fundação. Cunill Grau admite a laboração das minas até 1587, pelo que não é possível fixar uma data exacta para o fim de todas as actividades no local.

O fracasso de San Juan de la Paz contribuiu para concentrar em San Sebastián de los Reyes a estrutura municipal e territorial criada pela expedição de Díaz de Alfaro. Landa assinala que o desaparecimento precoce da cidade deixou uma vasta área com reduzida presença de povoações espanholas, posteriormente reorganizada sobretudo por meio de povos de doutrina no século XVII e de missões no século XVIII.

Confusão com as povoações de Uchire

San Juan de la Paz não deve ser confundida com San Juan de la Laguna de Uchire, também chamada San Juan de Cariamana, estabelecida mais a leste, junto ao rio Uchire. Ojer chamou a atenção para uma passagem da documentação publicada por Dávila que emprega a forma «San Juan de la Paz de Uchire», embora essa localização seja incompatível com a localização tradicional no Tuy.. Ojer distingue a cidade fundada por Díaz de Alfaro em 1584 da povoação de Uchire, cuja fundação atribui a Juan García Carrasco em 1599. Documentos posteriores relativos à reedificação de San Juan de la Laguna de Uchire, nas décadas de 1620 e 1630, pertencem exclusivamente à história dessa segunda povoação..

Fontes e historiografia