Os muzainaítas (), também conhecidos como Banu Muzaina, são uma tribo árabe adenanita descendente de Anre ibne Ude ibne Tabica ibne Ilias ibne Mudar. Segundo a tradição genealógica árabe, receberam seu nome de Muzaina binte Calbe ibne Uabara, esposa de Anre ibne Ude, de quem descendiam seus dois principais ramos, originados de Otomão e Auce. Antes do advento do islã, habitavam principalmente as regiões situadas entre Medina e Uádi Alcura, onde viviam tanto em assentamentos permanentes quanto em comunidades nômades. Os muzainaítas estabeleceram relações com Maomé nos primeiros anos da Hégira e converteram-se coletivamente ao islã em 626. A partir de então, integraram-se à comunidade de Medina, participando das principais campanhas militares de Maomé, incluindo a Conquista de Meca, a Batalha de Hunaine e a Expedição de Tabuque. Também desempenharam papel relevante nas primeiras conquistas islâmicas e em diversos acontecimentos políticos dos períodos ortodoxo, omíada e abássida, estabelecendo-se posteriormente em regiões como Iraque, Ifríquia e Alandalus. A tribo destacou-se igualmente por sua contribuição para a cultura árabe e islâmica. Entre seus membros figuram o poeta pré-islâmico Zuair ibne Abi Sulma, autor de uma das Mu'allaqat, seu filho Cabe ibne Zuair, célebre pela Cássida do Manto, e numerosos companheiros de Maomé, comandantes militares, tradicionalistas e juristas.
Origens
Segundo a tradição genealógica árabe, os muzainaítas descendiam de Ude ibne Tabica ibne Ilias ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane e, por essa linhagem, eram considerados um ramo das tribos adenanitas. A tribo recebeu o nome de Muzaina binte Calbe ibne Uabara, esposa de Anre ibne Ude, cujos filhos Otomão e Auce deram origem aos seus principais descendentes. Os membros da tribo eram conhecidos pelos gentílicos Muzani ou Muzaini. Os , e tamimitas eram seus parentes mais próximos. No período pré-islâmico, os muzainaítas integravam, ao lado dos taimitas, aditas, e dabaítas, a aliança tribal conhecida como . Na Jailia, parte da tribo combateu ao lado dos aucitas na Batalha de Buate e praticava o culto aos ídolos e Suá, este último também venerado pelas tribos dos hudailitas e dos quinanaítas. Por ocasião do surgimento do islã, a maior parte dos muzainaítas vivia como nômade nas regiões desérticas entre Medina e Uádi Alcura, enquanto outros grupos habitavam assentamentos permanentes nessa mesma área.
História
Os primeiros contatos dos muzainaítas com o islã ocorreram nos anos iniciais da Hégira, quando a tribo passou gradualmente a integrar a comunidade de Medina. Seus membros apoiaram Maomé na luta contra os coraixitas, e alguns muzainaítas participaram das batalhas de Badre e Uude. Entre eles destacaram-se (ou Maleque ibne Tábite), que combateu em ambas as campanhas e morreu em Uude, , presente nas duas batalhas, e e seu sobrinho , ambos mortos em Uude. A conversão coletiva da tribo ocorreu em 626. Depois de ouvir a pregação de Maomé, , responsável pelo culto do ídolo Nume, destruiu a imagem da divindade e dirigiu-se a Medina com uma delegação de dez homens para prestar juramento de fidelidade a Maomé. Ao regressar, contudo, não conseguiu convencer imediatamente seus conterrâneos a abraçar a nova religião. Maomé enviou então Haçane ibne Tábite para recordar a Huzai o compromisso assumido em nome da tribo. Após nova pregação, os muzainaítas aceitaram o islã e enviaram a Medina uma delegação de quatrocentos homens, recebida por Maomé no mês de Rajabe de 5 A.H. (dezembro de 626). Maomé declarou que os membros da tribo seriam considerados muajiritas independentemente do lugar onde residissem, determinando, porém, que retornassem às suas terras. Na mesma ocasião, concedeu Uádi Alaquique a e encarregou-o da administração do pasto de Anaqui, pertencente à tribo.
Os muzainaítas participaram de praticamente todas as campanhas militares posteriores de Maomé. Prestaram apoio durante a Batalha da Trincheira, estiveram presentes no Juramento de Riduão, na Conquista de Caibar, na Conquista de Meca, na Batalha de Hunaine, no Cerco de Taife e na Expedição de Tabuque. Na conquista de Meca integraram a ala comandada por Calide ibne Alualide, mobilizando mais de mil combatentes distribuídos sob três estandartes, conduzidos por Anumane ibne Mucarrine, Bilal ibne Alharite e . Também participaram da expedição de Dumate Aljandal, da qual quarenta membros da tribo tomaram parte sob o comando de Calide ibne Alualide. Durante as primeiras conquistas islâmicas, numerosos muzainaítas serviram nos exércitos muçulmanos, alguns deles em postos de comando. Calide ibne Alualide, ao deslocar-se do Iraque para a Síria, deixou à frente das tropas estacionadas na Mesopotâmia. Integrantes da tribo combateram ainda na conquista de Ctesifonte, na Batalha de Cadésia e na Batalha de Niavande, onde Anumane ibne Mucarrine morreu em combate. Durante a crise que culminou no assassinato do califa Otomão ibne Afã, alguns muzainaítas figuravam entre os opositores que cercaram sua residência em Medina. Mais tarde, alguns apoiaram Ali ibne Abi Talibe na Batalha do Camelo, enquanto outros integraram o movimento dos penitentes em 685 e participaram das revoltas de Almoquetar Atacafi e .
A expansão islâmica levou numerosos muzainaítas a estabelecer-se em diversas regiões do califado, incluindo Cufa, Baçorá, Ifríquia e Alandalus. Cerca de quatrocentos membros da tribo participaram da conquista de Ifríquia sob o comando de Abedalá ibne Sade ibne Abi Sarre, enquanto outro grupo se fixou em Baiana (atual Pechina), no sudeste de Córdova. Os muzainaítas também aderiram à revolta de contra o califa abássida Almançor. Geógrafos medievais ainda identificavam territórios da tribo ao sul de Medina e povoados muzainaítas ao longo das rotas de peregrinação entre o Iraque e o Hejaz. Entre o final do e o início do XVII, um importante contingente migrou para a península do Sinai. Atualmente, descendentes da tribo vivem em várias regiões da Arábia Saudita, além do Egito, Palestina, Síria, Jordânia, Omã, oeste do Irã, Cuaite, Marrocos e Líbia.
Personagens notáveis
As fontes registram que a tribo dos muzainaítas forneceu pelo menos 104 companheiros de Maomé, cujas biografias foram reunidas por em sua Mawsūʿat al-Qabāʾil. Ibne Abede Albarre também incluiu Anumane ibne Mucarrine e seus irmãos entre os companheiros que transmitiram tradições atribuídas a Maomé. Entre os membros mais célebres da tribo figuram o poeta pré-islâmico Zuair ibne Abi Sulma, autor de uma das Mu'allaqat, seu filho Cabe ibne Zuair, célebre pela composição da Cássida do Manto, e o poeta mucadrame . Também se destacaram Bilal ibne Alharite, que recebeu de Maomé a concessão de Uádi Alaquique e exerceu funções administrativas junto à tribo; Anumane ibne Mucarrine, comandante morto na Batalha de Niavande; e o tradicionalista e jurista , uma das figuras mais importantes da vida intelectual de Baçorá entre os tabis.
Bibliografia
Categoria:Muzainaítas