A Mesquita da Dissensão () foi uma mesquita construída em Cuba, nos arredores de Medina, durante a vida de Maomé. Segundo a tradição islâmica, ela foi erguida por um grupo de hipócritas com o propósito de servir como centro de reuniões da oposição ao profeta e provocar divisão entre os muçulmanos. O episódio é mencionado no Alcorão (9:107–110), que condena a construção e determinou que Maomé jamais realizasse orações no local. De acordo com as fontes islâmicas, a mesquita foi construída durante os preparativos para a Expedição de Tabuque, por partidários de Abedalá ibne Ubai, em coordenação com , que se encontrava refugiado na Síria e esperava obter apoio do Império Bizantino para combater a comunidade muçulmana de Medina. Após seu retorno de Tabuque, Maomé recebeu a revelação dos versículos referentes ao edifício e ordenou sua destruição antes que pudesse ser utilizado pelos seus idealizadores. Na tradição exegética e jurídica islâmica, a Mesquita da Dissensão tornou-se símbolo da hipocrisia (nifāq) e da utilização da religião para fins de sedição política. O episódio passou a servir de precedente para a rejeição de locais de culto estabelecidos com o objetivo de semear discórdia entre os fiéis, e a expressão Masjid al-Ḍirār adquiriu sentido figurado para designar instituições religiosas utilizadas como instrumento de divisão da comunidade islâmica.

História

Segundo a tradição islâmica, a Mesquita da Dissensão foi construída em Cuba, nos arredores de Medina, durante os preparativos para a Expedição de Tabuque, por iniciativa de um grupo de hipócritas ligados a Abedalá ibne Ubai. As fontes relatam que a ideia surgiu após , antigo líder medinense que abandonara a cidade e se refugiara na Síria, enviar uma mensagem a seus partidários recomendando que construíssem um local onde pudessem reunir-se discretamente, armazenar armas e aguardar seu retorno com eventual apoio do Império Bizantino. De acordo com essas narrativas, Abu Amir, que havia combatido os muçulmanos ao lado dos coraixitas na Batalha de Badre e na Batalha de Uude, esperava convencer as autoridades bizantinas a apoiarem uma campanha contra Medina. Para facilitar seus planos, os hipócritas decidiram construir uma mesquita cuja existência pudesse ser justificada como benefício aos habitantes da região, sobretudo aos doentes e às pessoas que tinham dificuldade para frequentar a Mesquita do Profeta ou a Mesquita de Cuba durante as noites frias e chuvosas. Ao mesmo tempo, segundo as fontes islâmicas, o novo edifício serviria como centro de reuniões e contribuiria para dividir a comunidade muçulmana.

Enquanto permanecia em organizando os preparativos finais da campanha de Tabuque, Maomé recebeu uma delegação de cinco homens que lhe pediu que inaugurasse a nova mesquita conduzindo uma oração no local. O profeta respondeu que estava prestes a partir para a expedição e prometeu visitar o edifício quando regressasse. Na viagem de volta, porém, quando o exército voltou a acampar em Du Auane, foi revelada a passagem do Alcorão (9:107–110), que descreve a construção como uma mesquita erguida para causar dano aos fiéis, fomentar a descrença, semear a dissensão entre os crentes e servir de abrigo a quem anteriormente combatera Deus e seu mensageiro. Os versículos determinam ainda que Maomé jamais deveria realizar orações naquele local, recomendando-lhe rezar na mesquita fundada sobre a piedade, identificada tradicionalmente com a Mesquita de Cuba ou, segundo outra interpretação, com a Mesquita do Profeta. Após regressar a Medina, Maomé ordenou a — ou, segundo outra versão, a — e a Maleque ibne Duhxum que destruíssem o edifício. De acordo com a tradição, a mesquita foi incendiada durante a noite e posteriormente demolida. Os relatos acrescentam que os responsáveis pela construção compreenderam então que suas intenções haviam sido reveladas pela revelação corânica.

Interpretação

A Mesquita da Dissensão é mencionada exclusivamente nos versículos 107 a 110 da sura at-Tawba, nos quais o Alcorão afirma que ela foi construída "para causar dano, promover a descrença, dividir os crentes e servir de abrigo àquele que anteriormente combateu Deus e seu mensageiro". Os mesmos versículos registram que seus construtores juravam agir com boas intenções, mas qualificam esse testemunho como falso e ordenam a Maomé que jamais realizasse orações no edifício. Em contraste, o texto recomenda que ele ore na "mesquita fundada sobre a piedade desde o primeiro dia", considerada mais digna desse privilégio. Os comentaristas muçulmanos tradicionalmente identificam o homem mencionado no versículo como Abu Amir Arraíbe, antigo líder medinense que se opôs a Maomé e que, segundo as fontes islâmicas, procurava obter apoio bizantino para uma campanha contra Medina. A tradição também entende que a expressão ḍirār ("causar dano") não se refere à construção física da mesquita, mas à intenção de utilizá-la como instrumento de oposição política e religiosa, criando uma alternativa à Mesquita do Profeta e à Mesquita de Cuba e enfraquecendo a unidade da comunidade muçulmana.

Os exegetas divergem quanto à identidade da "mesquita fundada sobre a piedade". Muitos identificam-na com a Mesquita de Cuba, por ter sido o primeiro local de oração erguido pelos muçulmanos após a Hégira, interpretação favorecida pelo contexto imediato dos versículos. Outros, apoiando-se em tradições proféticas, entendem que a referência diz respeito à Mesquita do Profeta, em Medina. Ambas as interpretações permaneceram amplamente aceitas na literatura islâmica. A destruição da Mesquita da Dissensão passou a ser interpretada pelos juristas e exegetas como precedente para a remoção de edifícios religiosos construídos com o propósito de provocar divisão, sedição ou hostilidade contra a comunidade muçulmana. Ao mesmo tempo, o episódio tornou-se um dos principais exemplos empregados pela tradição islâmica para distinguir entre a aparência exterior de um ato piedoso e a intenção que o motiva, tema central da doutrina sobre os hipócritas (nifāq).

Legado

A Mesquita da Dissensão passou a ocupar lugar de destaque na tradição islâmica como exemplo de que a legitimidade de um local de culto depende não apenas de sua função religiosa aparente, mas também da intenção de seus fundadores. Por esse motivo, o episódio foi frequentemente citado por exegetas, juristas e moralistas para demonstrar que atos exteriormente piedosos podem ser desprovidos de valor quando motivados pela hipocrisia, pela sedição ou pela busca de vantagens políticas. A destruição do edifício por ordem de Maomé foi igualmente interpretada como precedente para a remoção de construções religiosas utilizadas para promover divisão entre os muçulmanos ou servir de instrumento à rebelião contra a comunidade islâmica. Em razão disso, a expressão Masjid al-Ḍirār passou a ser empregada, em sentido figurado, para designar qualquer instituição ou local que, embora revestido de finalidade religiosa, seja utilizado para fomentar a discórdia e a desunião.

Bibliografia

Categoria:Hipócritas Categoria:Mesquitas de Medina