Cinema cearense é o conjunto da produção, exibição, difusão, formação, preservação, crítica, pesquisa, política pública e atividade econômica audiovisual desenvolvida no estado brasileiro do Ceará. Sua história atravessa a chegada das imagens em movimento a Fortaleza no final do século XIX, a formação dos primeiros circuitos exibidores, a produção documental das primeiras décadas do século XX, o cineclubismo, a realização em Super-8, a emergência de longas-metragens autorais, a produção independente, o cinema popular, a animação, a produção televisiva, o audiovisual digital, os festivais, a presença em circuitos internacionais e a construção de políticas públicas estaduais para o setor.

A cinematografia cearense desenvolveu-se de forma descontínua, combinando ciclos de produção, experiências amadoras, projetos interrompidos, cineclubismo, iniciativas públicas de formação, obras de baixo orçamento, experimentações formais e longas de circulação nacional e internacional. Entre seus temas recorrentes estão o sertão, o cangaço, a seca, a religiosidade popular, as romarias, a cultura litorânea, a figura do jangadeiro, o cotidiano urbano de Fortaleza, o interior do estado, a memória familiar, a cultura popular, as dissidências sexuais e de gênero, a questão racial, a ancestralidade indígena, o cinema de gênero e a relação entre audiovisual, território e políticas públicas.

A partir da década de 1990, e com maior intensidade nos anos 2000, 2010 e 2020, o cinema cearense ampliou sua presença em festivais nacionais e internacionais, com obras de cineastas como Rosemberg Cariry, José Araújo, Wolney Oliveira, Karim Aïnouz, Petrus Cariry, Halder Gomes, Guto Parente, Armando Praça, Allan Deberton, Pedro Diógenes, Leonardo Mouramateus, Déo Cardoso, Amanda Pontes, Michelline Helena, Janaína Marques e outros realizadores. A produção recente também registra o fortalecimento de coletivos, escolas, universidades, equipamentos públicos, produtoras independentes, cineclubes e plataformas de difusão digital.

História

Primeiras exibições no Ceará

A presença do cinema no Ceará remonta ao final do século XIX. Em 1897, Fortaleza recebeu aparelhos de imagens animadas vinculados às primeiras tecnologias cinematográficas, como o cinetoscópio e sistemas de projeção de origem norte-americana e europeia. As primeiras sessões ocorreram em espaços adaptados e em apresentações de caráter itinerante, antes da consolidação de salas permanentes.

Em 1898, Joaquim Moura Quineau, natural do Crato, realizou exibições com o Chronophotographo Demény, tornando-se um dos primeiros exibidores cearenses itinerantes. A consolidação das salas fixas começou em 1908, com a inauguração do Cinematographo Art-Nouveau, instalado na Praça do Ferreira, em Fortaleza. Em 1909, surgiu o Cassino Cearense, também conhecido como Cinema Júlio Pinto, e, em 1910, foi inaugurado o Cine Rio Branco, vinculado às famílias Muratori e Mesiano.

Durante as décadas seguintes, a capital cearense desenvolveu intensa vida exibidora em torno de salas como o Polytheama, o Riche, o Majestic Palace e o Cine Moderno. O empresário Luiz Severiano Ribeiro tornou-se uma das principais figuras da exibição no estado e expandiu posteriormente sua atuação para outras regiões do Brasil. A concentração de salas no Centro de Fortaleza, especialmente na Praça do Ferreira, formou uma espécie de Cinelândia fortalezense, espaço de sociabilidade urbana em torno do cinema.

Primeiros filmes e documentarismo

Entre os primeiros filmes rodados no Ceará estão Procissão dos Passos (1910) e Ceará Jornal (1919), atribuídos a autores anônimos ou parcialmente identificados. A produção local ganhou maior regularidade a partir dos anos 1920, com a atuação de Adhemar Bezerra de Albuquerque, fotógrafo, empresário e documentarista que registrou eventos esportivos, políticos, religiosos e institucionais no estado.

Em 1924, Adhemar realizou Temporada Maranhense de Foot-ball no Ceará, frequentemente apontado como um dos marcos iniciais da produção cinematográfica cearense. O documentarista também filmou visitas de autoridades nacionais, imagens de Padre Cícero em Juazeiro do Norte e registros vinculados à Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Seu filho, o fotógrafo Chico Albuquerque, atuou como cinegrafista em parte desses registros.

Em 1936, Adhemar financiou a filmagem do bando de Lampião por Benjamin Abrahão. O material, um dos registros visuais mais conhecidos do cangaço, foi apreendido pelo Governo Federal sob a justificativa de ferir a imagem nacional. A relação entre cinema, sertão, cangaço, religiosidade e poder político tornou-se um eixo recorrente da história audiovisual do Ceará.

Seca, litoral e jangadeiros

A representação do Ceará no cinema das primeiras décadas do século XX também passou por produções realizadas por equipes externas ao estado. Eterna Esperança, longa ficcional sobre a seca cearense, foi rodado em 1937, dirigido por Leo Marten e lançado em 1940. A obra narra a queda de uma aviadora norte-americana no sertão e seu encontro com uma família camponesa, articulando a seca a uma narrativa de melodrama.

Na década de 1940, o litoral cearense e a figura do jangadeiro passaram a ocupar posição de destaque. Em 1941, Rui Santos dirigiu em Fortaleza o curta E a Jangada Voltou Só, estrelado por Dorival Caymmi e inspirado em canção do compositor baiano. No ano seguinte, Orson Welles filmou no Mucuripe parte do projeto inacabado It's All True. O episódio reconstituía a viagem de jangadeiros cearenses ao Rio de Janeiro para reivindicações trabalhistas. A produção contou com participação de moradores do Mucuripe e dos jangadeiros Tatá, Jerônimo e Manuel Preto, remanescentes da viagem original.

Em 1947, Raul Roulien rodou no Ceará o longa Jangada, obra ficcional que combinava elementos da história do abolicionista Dragão do Mar com trama romântica e aventuras litorâneas. O filme permaneceu inconcluso e o material desapareceu em incêndio.

Cineclubismo, Sociedade Cearense de Fotografia e Cinema e primeiras ficções locais

Em 1949, a Sociedade Cearense de Fotografia e Cinema realizou Caminhos Sem Fim, considerada a primeira produção local com atores. Exibido na inauguração do Clube de Cinema de Fortaleza, o curta em 8 mm tinha roteiro de Heitor Costa Lima e dramatizava a trajetória de uma família de flagelados da seca.

O Clube de Cinema de Fortaleza, fundado por Darci Costa e Antônio Girão Barroso, desempenhou papel importante na formação de público, no debate crítico e no estímulo a experiências locais de produção. A Sociedade Cearense de Fotografia e Cinema reuniu fotógrafos, artistas, cinéfilos e intelectuais interessados na organização de atividades audiovisuais em Fortaleza.

Anos 1950: Paulo Salles, Nelson Moura e produção institucional

Na década de 1950, destacaram-se os trabalhos de Paulo Salles, fotógrafo e cinegrafista que realizou documentários institucionais em 16 mm e 35 mm. Diante das dificuldades técnicas do período, Salles desenvolveu soluções próprias para filmagem, cópia e acabamento de filmes.

Outro nome relevante foi Nelson Moura, também oriundo da fotografia, que produziu documentários em 16 mm em cidades do interior. Entre seus trabalhos estão Canindé (1952), sobre as romarias; Vaquejada (1953), filmado em Morada Nova; e Iguatu, registro dos festejos do centenário do município. Moura deixou inacabado o drama Terra Seca e atuou como cinegrafista em Fortaleza, Meu Amor, projeto dirigido por Antônio Girão Barroso que também não foi concluído.

A década de 1950 também foi marcada pela ampliação da exibição cinematográfica. Em 1958, foi inaugurado o Cineteatro São Luiz, uma das salas mais simbólicas da história cultural de Fortaleza e espaço que posteriormente se tornaria sede do Cine Ceará.

Anos 1960: experimentações e produções externas

Nos anos 1960, associados ao Clube de Cinema de Fortaleza e estudantes realizaram experiências ficcionais e documentais. Entre as tentativas do período está Delito de Matar, projeto conduzido por Eusélio Oliveira e Mário Barata, com participação de João Maria Siqueira. Siqueira dirigiu Rede de Dormir, curta etnográfico baseado em estudo de Luís da Câmara Cascudo sobre a rede nordestina.

Em 1966, Roberto Benevides e Frota Neto assinaram o ficcional Gênese, com apoio de João Maria Siqueira. No fim da década, Régis Furtado realizou os curtas O Ponto e Metamorfose, este último fotografado por José Albano. Cineastas vinculados à produção de Thomaz Farkas, como Eduardo Escorel e Geraldo Sarno, filmaram no Cariri cearense, abordando aspectos da cultura popular da região.

O Ceará também recebeu produções estrangeiras, como Operação Tumulto (1968), do francês Edouard Luntz, filmado em Fortaleza e Morro Branco, mas marcado por problemas de produção e interrupções.

Super-8, Casa Amarela e Cariri

A produção em Super-8 começou a se afirmar no Ceará no fim dos anos 1960, com o ficcional O Círculo (1969), de Arnaldo Fontenele, Araújo Papaléo e Remo. Na década de 1970, o Super-8 tornou-se um meio importante para experiências amadoras, documentais, experimentais e cineclubistas em Fortaleza e no interior.

Do Cariri veio o longa em Super-8 Lua Cambará, de Ronaldo Correia de Brito e Francisco de Assis Lima. Também no Crato, Emerson Monteiro dirigiu o drama sertanejo Terra Ardente (1978), projeto que permaneceu inconcluso. A partir do final dos anos 1970, a Casa Amarela Eusélio Oliveira, equipamento da Universidade Federal do Ceará, tornou-se espaço de convergência de realizadores, técnicos, estudantes e cinéfilos, contribuindo para formação, difusão e preservação audiovisual.

Longas, profissionalização e sertão nos anos 1970 e 1980

Na década de 1970 ocorreram tentativas de profissionalização da produção local. Entre os longas realizados ou filmados no Ceará estão O Homem de Papel (1975), com roteiro e produção do jornalista cearense Ezaclir Aragão e direção de Carlos Coimbra; Padre Cícero (1976), de Helder Martins; e Iracema (1978), de Carlos Coimbra. Ezaclir Aragão dirigiu ainda o curta Pelos Caminhos de Iracema.

Pedro Jorge de Castro, cearense radicado em Brasília, realizou filmes em 16 mm ligados à arte, ao artesanato e à cultura popular do estado, como Chico da Silva (1976) e Brinquedo Popular do Nordeste (1977). No Cariri, Jéfferson Albuquerque dirigiu Arrais Taí, Dona Ciça do Barro Cru e Músicos Camponeses. Rosemberg Cariry dividiu com Jéfferson a direção de Patativa do Assaré - Um Poeta do Povo.

Nos anos 1980, a produção de longas cearenses foi esparsa. Pedro Jorge de Castro lançou Tigipió (1985), tragédia ambientada durante uma seca e baseada em obra de Herman Lima. Rosemberg Cariry dirigiu Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (1986), documentário sobre o beato José Lourenço e a comunidade do Caldeirão, destruída em 1936.

Anos 1990: retomada, sertão e polo audiovisual

A década de 1990 marcou uma nova etapa para o cinema cearense. Rosemberg Cariry realizou A Saga do Guerreiro Alumioso (1993) e Corisco e Dadá (1996), retomando o universo do sertão, do cangaço, da religiosidade e das lutas sociais nordestinas. Pedro Jorge de Castro lançou No Calor da Pele (1994).

Em 1996, José Araújo realizou O Sertão das Memórias, obra de forte caráter sertanejo, místico, memorialístico e político. O filme teve estreia em 1996 no Festival Internacional de Cinema de Toronto, integrou o Fórum do Festival de Berlim de 1997 e recebeu o prêmio Wolfgang Staudte no Fórum do Cinema Jovem, além de reconhecimento em eventos internacionais dedicados ao cinema latino-americano.

Na segunda metade da década de 1990, foi idealizado um novo polo audiovisual no Ceará, com resultados mais concretos a partir das aulas do projeto Luz, Câmera, Imaginação, na Casa Amarela Eusélio Oliveira, em parceria com a Secretaria da Cultura do Ceará. O processo envolveu cursos mais amplos, mecanismos governamentais de incentivo e fortalecimento do Cine Ceará como espaço de debate e difusão da produção nacional e local.